O que influencia a maciez da carne bovina
Nutrição, idade, manejo, bem-estar e processos após o abate atuam juntos na textura e na experiência de consumo.
Por Pedro Veiga,
Consultor Global de Serviços Técnicos da Cargill Nutrição e Saúde Animal
Por que algumas carnes bovinas são tão macias e saborosas, enquanto outras
exigem mais tempo e cuidado no preparo? A resposta não está apenas no corte
escolhido ou na habilidade de quem cozinha. Ela começa muito antes — ainda na
fazenda — e
envolve genética, idade, manejo, bem-estar e, especialmente, nutrição animal.
A qualidade da carne é construída ao longo de todo o ciclo produtivo. Cada
decisão tomada pelo pecuarista pode influenciar o desenvolvimento do animal, a
formação da carcaça e a experiência do consumidor à mesa.
Uma cadeia em transformação
A pecuária de corte vive um momento de forte demanda por carne bovina no Brasil
e no mundo. Ao mesmo tempo, a oferta de animais ainda é limitada, o que aumenta
a pressão sobre os custos e exige mais eficiência dos produtores.
Nesse cenário, tecnologias de produção vêm sendo adotadas em diferentes
etapas da cadeia. A engorda intensiva, tanto em confinamento quanto a pasto,
cresce, assim como o uso de estratégias mais planejadas na recria. O desafio,
porém, também
aumenta: produzir mais, com qualidade e regularidade, em um ambiente de custos,
juros e preços sujeitos a oscilações.
A percepção do consumidor também mudou. A busca por saúde, bem-estar e
refeições com maior presença de proteína ajudou a fortalecer a demanda por
carnes. Hoje, além de comprar um alimento nutritivo, o consumidor quer ter uma
boa experiência:
espera encontrar uma carne macia, suculenta, saborosa e visualmente atraente.
A qualidade começa no animal
A carne que chega ao prato é resultado da combinação de vários fatores.
Genética, raça, sexo, idade, peso, grau de acabamento da carcaça, tipo de
músculo e nível de marmoreio — aquelas pequenas linhas de gordura
entremeadas na carne — ajudam
a explicar as diferenças de qualidade.
Animais mais jovens, em geral, produzem carne mais macia. Isso acontece porque,
com o avanço da idade, o tecido conjuntivo dos músculos tende a se tornar mais
resistente. O músculo também importa: alguns são mais utilizados pelo animal
ao longo da
vida e, por isso, podem apresentar características diferentes de cortes menos
exigidos.
O marmoreio, por sua vez, pode contribuir para a sensação de suculência e
para a percepção de sabor, embora não seja o único fator determinante. A
qualidade final depende da interação entre todas essas características, e
não de uma variável
isolada.
Onde entra a nutrição?
A nutrição tem papel central porque influencia diretamente o crescimento do
animal e a formação dos tecidos que compõem a carcaça. Uma dieta adequada
ajuda o animal a se desenvolver de forma equilibrada, atingir o peso desejado e
chegar ao abate no
momento mais apropriado.
Esse planejamento não significa simplesmente fornecer mais alimento. É preciso
considerar a idade, a fase de crescimento, o potencial genético, o sistema de
produção e os objetivos definidos para aquele animal. Uma dieta no pasto, uma
suplementação estratégica ou uma alimentação em confinamento podem produzir
resultados diferentes, especialmente quando mudam a velocidade de ganho de peso
e a deposição de gordura.
A nutrição também pode influenciar diretamente algumas características da
carne, como o nível de marmoreio, o perfil de ácidos graxos e a capacidade
antioxidante do músculo. Indiretamente, ao acelerar ou tornar mais eficiente o
ganho de peso, ela
pode contribuir para que o animal alcance o ponto de abate mais jovem — fator
associado, de modo geral, à maior maciez.
Pesquisas sobre qualidade da carne mostram que a nutrição deve ser
compreendida como parte de uma estratégia ampla. Ela está ligada não apenas
à produtividade, mas também à uniformidade dos animais e à previsibilidade
do produto que será
entregue ao mercado.
Manejo e bem-estar também chegam ao prato
Não adianta investir em genética e alimentação se o animal for submetido a
situações desnecessárias de estresse. O manejo antes do abate pode afetar o
pH da carne, a capacidade de retenção de água, a cor, a suculência, o sabor
e a
maciez.
Transporte inadequado, espera prolongada, instalações mal planejadas ou
condução agressiva podem provocar estresse e comprometer o resultado final.
Boas práticas de bem-estar animal ajudam a reduzir esses efeitos e contribuem
para uma produção
mais responsável e eficiente.
Estudos científicos sobre o período pré-abate reforçam que fatores como
transporte, manejo, descanso e interação com as pessoas podem influenciar
importantes características da carne. Em outras palavras, o cuidado com o
animal não é apenas uma
questão ética ou operacional: também tem relação direta com a qualidade do
alimento.
O trabalho continua depois do abate
A história da maciez não termina quando o animal chega ao frigorífico. Os
processos realizados depois do abate também são importantes. Resfriamento,
cortes, uso de estimulação elétrica na carcaça, temperatura de armazenamento
e maturação podem
modificar a textura e contribuir para uma experiência de consumo mais
agradável.
Na maturação, enzimas naturais presentes no músculo atuam sobre algumas
estruturas da carne, ajudando a torná-la mais macia ao longo do tempo. O
efeito, contudo, varia conforme o músculo, o período e as condições de
armazenamento. Estudos de
qualidade da carne indicam que a maturação pode melhorar a maciez, mas que
cada corte responde de maneira diferente.
É por isso que dois produtos visualmente parecidos podem proporcionar
experiências distintas. Eles podem ter vindo de animais com idades, genéticas,
dietas e históricos de manejo diferentes — além de terem passado por
processos distintos após o
abate.
Mais tecnologia, mais uniformidade
A evolução da pecuária brasileira tem contribuído para a produção de
animais mais jovens, pesados e bem-acabados. Melhoramento genético, nutrição,
sanidade, manejo, ambiência, monitoramento e análise de dados passaram a fazer
parte de uma
produção cada vez mais planejada.
A indústria frigorífica também avançou nos processos pré e pós-abate. O
resultado é uma oferta mais padronizada e próxima das expectativas do mercado.
Ainda há espaço para evoluir, mas a cadeia vem mostrando que produtividade e
qualidade podem
caminhar juntas.
O principal desafio continua sendo transformar conhecimento e tecnologia em
decisões consistentes no dia a dia. Para isso, são necessárias pessoas
qualificadas, capazes de interpretar informações e conduzir sistemas
produtivos mais complexos.
Também é preciso equilibrar investimentos, custos e rentabilidade em um
ambiente de grande volatilidade.
No fim, a resposta para a pergunta “por que algumas carnes são mais
macias?” é simples, embora envolva muita ciência: porque a maciez é
construída em várias etapas. Ela começa na escolha e no desenvolvimento do
animal, passa pela nutrição e
pelo manejo, depende do bem-estar e continua nos processos realizados após o
abate.
Quando todas essas peças se encaixam, o consumidor percebe o resultado no
momento mais importante: quando a carne chega à mesa.



