Luto por pet pode ser tão intenso quanto por uma pessoa
Estudo com 975 adultos do Reino Unido e revisão de 36 pesquisas abordam a perda de animais e os vínculos após a morte.
A morte de um animal de estimação pode provocar um luto intenso e pouco validado socialmente. Segundo a psicóloga Juliana Sato, especialista em vínculo humano-animal e luto pet, esse tipo de experiência é descrito na literatura científica como luto não reconhecido, quando a sociedade não acolhe plenamente a perda.
Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista PLOS One, conduzido pelo psicólogo Philip Hyland, da Universidade de Maynooth, na Irlanda, ouviu 975 adultos do Reino Unido. Entre os participantes que já haviam perdido um animal e uma pessoa próxima, 21% indicaram a morte do pet como a perda mais dolorosa que viveram, de acordo com Sato.
A especialista afirma que os sintomas de luto prolongado se organizaram de forma semelhante após a morte de um animal ou de uma pessoa. Ela ressalta, porém, que a CID-11 e o DSM-5-TR admitem o diagnóstico de transtorno do luto prolongado apenas após a morte de uma pessoa; segundo Sato, o autor do estudo defende a revisão dessa regra.
Crenças podem influenciar a elaboração da perda
Uma revisão sistemática publicada na revista Omega reuniu 36 estudos sobre o vínculo entre tutores e animais depois da morte. Em uma pesquisa italiana incluída nessa revisão, acreditar em vida após a morte também para os animais esteve associado a uma melhor elaboração do luto. Já acreditar que esse destino seria reservado apenas às pessoas esteve associado a luto mais intenso.
Outros estudos citados na revisão relataram culpa entre tutores que acreditavam que o animal estaria em um lugar ruim ou que estariam sendo punidos pela perda. Para Sato, não há uma crença correta para atravessar o luto, mas a pergunta sobre o destino do animal precisa ser ouvida sem minimização.
Rituais e vínculos contínuos após a morte do pet
A revisão também aborda os chamados vínculos contínuos, ou seja, maneiras de manter uma relação simbólica com o animal que morreu. Conforme a psicóloga, rituais, memoriais, lembranças e sonhos podem ajudar tutores a se sentirem menos sozinhos. Quando esse vínculo se organiza em torno da culpa ou de aspectos dolorosos da relação, o sofrimento tende a aumentar.
No Dia de Finados, criar um ritual próprio — como acender uma vela, visitar o local das cinzas ou escrever para o animal — pode ser uma forma de reconhecer a saudade. Sato orienta buscar ajuda profissional quando, após meses, a dor continua impedindo a pessoa de trabalhar, dormir ou conviver.



