Enem: quando a cobrança dos pais atrapalha o desempenho dos filhos?
Pressão familiar, excesso de estudos e ansiedade podem comprometer a aprendizagem; apoio emocional e descanso ajudam na preparação para o exame.
Com a proximidade do Enem, ansiedade, excesso de estudos e pressão familiar podem comprometer a aprendizagem. Saiba como os pais podem ajudar os adolescentes a equilibrar preparação, descanso e saúde emocional nas semanas que antecedem o exame.
A pressão por um bom resultado no Enem não vem apenas dos estudos. Dentro de casa, a expectativa pela aprovação, as perguntas sobre o desempenho nos simulados e a preocupação com o futuro também podem aumentar a ansiedade dos adolescentes. Mesmo quando a intenção dos pais é incentivar, o excesso de cobrança pode acabar prejudicando justamente aquilo que a família deseja: uma boa preparação para o exame.
Com as provas previstas para os dias 8 e 15 de novembro, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o desafio das próximas semanas vai além da revisão dos conteúdos. É preciso encontrar um equilíbrio entre estudo, descanso e saúde emocional, especialmente entre os estudantes que chegam a esta etapa com o cansaço acumulado ao longo do ano.
Para a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, a família tem um papel importante nesse processo, mas precisa compreender que aumentar a cobrança nem sempre melhora o desempenho. “Existe uma diferença entre incentivar um adolescente a estudar e fazer com que ele sinta que seu valor está condicionado ao resultado de uma prova. Quando a família transforma o Enem no assunto principal de todas as conversas, o jovem pode começar a viver em um estado constante de preocupação, justamente em um momento em que precisa estar emocionalmente preparado para utilizar tudo o que aprendeu”, explica.
O que acontece no cérebro quando a pressão aumenta?
A ansiedade moderada diante de uma prova importante é uma resposta esperada. O problema aparece quando a preocupação se torna excessiva e começa a prejudicar o sono, a concentração e a rotina. Segundo Mayra, situações de estresse intenso podem comprometer processos importantes para a aprendizagem, como a atenção, a memória de trabalho e a capacidade de recuperar informações.
“Imagine um adolescente que estudou durante meses, mas chega à prova tão preocupado com a possibilidade de fracassar que tem dificuldade para organizar o pensamento. Ele conhece o conteúdo, mas a ansiedade pode atrapalhar o acesso àquilo que aprendeu. Por isso, preparar-se para o Enem também envolve aprender a lidar com as próprias emoções.”
A Organização Mundial da Saúde destaca que o sono adequado, a atividade física, as habilidades de regulação emocional e o apoio familiar são fatores importantes para a saúde mental na adolescência.
Estudar mais ou estudar melhor?
Na reta final, é comum que os estudantes tentem compensar a insegurança aumentando as horas diante dos livros. Entretanto, abrir mão do sono, abandonar atividades prazerosas e estudar até a exaustão pode ser contraproducente. A orientação é priorizar uma rotina realista, com revisão dos conteúdos, resolução de questões, pausas e horários regulares para dormir.
“Dormir não é perder tempo de estudo. O sono participa da consolidação da memória, processo pelo qual o cérebro organiza e fortalece aquilo que aprendemos. Um adolescente que passa a madrugada estudando e chega exausto ao dia seguinte pode ter mais dificuldade para prestar atenção e reter novas informações”, explica Mayra.
Como os pais podem ajudar sem aumentar a pressão?
A psicóloga e neurocientista reúne seis orientações para as famílias nesta reta final de preparação:
- Troque a cobrança por perguntas que ofereçam apoio. Em vez de perguntar diariamente quantas horas o filho estudou, experimente: “Como você está se sentindo com a preparação?” ou “Tem alguma coisa em que podemos ajudar?”.
- Ajude a preservar o sono. Evite incentivar madrugadas de estudo e procure manter horários regulares, especialmente nas semanas anteriores à prova.
- Respeite os momentos de descanso. Uma caminhada, um encontro com amigos ou uma atividade que o adolescente gosta não precisam ser tratados como falta de comprometimento.
- Não compare resultados. Comentários sobre as notas de colegas, irmãos ou filhos de amigos podem aumentar a insegurança e não ajudam a identificar as dificuldades reais do estudante.
- Ajude com a organização prática. Conferir documentos, transporte, horário e local da prova pode reduzir preocupações desnecessárias. O cartão de confirmação será disponibilizado na página do Participante.
- Converse sobre as possibilidades além de um único resultado. É importante que o adolescente saiba que o Enem é uma oportunidade relevante, mas não determina seu valor pessoal nem define sozinho todo o seu futuro.
Quando a ansiedade deixa de ser esperada?
Irritabilidade frequente, dificuldade persistente para dormir, crises de choro, dores físicas recorrentes, isolamento e abandono de atividades de que o jovem gostava são sinais que merecem atenção, especialmente quando interferem na rotina.
“Não devemos esperar que o adolescente chegue ao limite para oferecer ajuda. Se a ansiedade está comprometendo sua alimentação, seu sono, seus relacionamentos ou sua capacidade de estudar, é importante procurar acompanhamento profissional. A saúde mental não pode ficar para depois da prova”, orienta Mayra.
Para a especialista, a contribuição mais importante dos pais neste período é oferecer segurança emocional. “O adolescente precisa saber que pode chegar em casa depois de um simulado ruim sem encontrar mais uma fonte de cobrança. A família deve ser o lugar onde ele consegue conversar sobre suas dificuldades, reorganizar seus planos e recuperar a confiança. O resultado de uma prova é importante, mas a saúde emocional do seu filho continuará sendo importante muito depois do Enem.”
Sobre a fonte
Mayra Gaiato é psicóloga, neurocientista, especialista em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), com mais de 20 anos de experiência, autora de livros sobre desenvolvimento infantil e fundadora do Instituto Singular. Reúne mais de 1 milhão de seguidores no Instagram e mais de 1 milhão de inscritos no YouTube, onde compartilha conteúdos baseados em evidências científicas sobre neurodesenvolvimento, comportamento, autonomia e saúde emocional.
Por Mayra Gaiato
psicóloga, neurocientista, especialista em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), autora de livros sobre desenvolvimento infantil, fundadora do Instituto Singular, com mais de 20 anos de experiência
Artigo de opinião



