Meu filho não come nada? Ansiedade dos pais pode distorcer percepção alimentar

Levantamento do Cenda e Instituto Pensi revela diferença entre percepção dos pais e alimentação real das crianças

Expressões como “meu filho não come nada” são comuns entre famílias, mas podem refletir mais a ansiedade dos pais do que a realidade alimentar das crianças. Dados do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda) e do Instituto Pensi indicam que 54% dos pais acreditam que seus filhos consomem 15 ou menos tipos de alimentos. No entanto, avaliações detalhadas realizadas por equipes multiprofissionais revelam que, em média, as crianças aceitam 26 alimentos diferentes.

Essa discrepância evidencia como o estresse e a ansiedade dos cuidadores durante as refeições podem influenciar a percepção sobre os hábitos alimentares infantis. A atenção dos adultos tende a se concentrar nos alimentos recusados e nos conflitos à mesa, deixando de reconhecer a variedade que a criança realmente consome.

Quando a seletividade alimentar exige atenção

É comum que crianças recusem alguns alimentos ou prefiram sabores familiares, o que pode ser parte do desenvolvimento normal. Contudo, sinais de alerta surgem quando a dificuldade alimentar é persistente, causa sofrimento ou interfere na rotina, nutrição e vida social da criança.

Comportamentos que merecem avaliação incluem:

  • Rejeição persistente e sofrimento diante da oferta de novos alimentos;
  • Refeições que frequentemente duram mais de 40 minutos e geram conflitos familiares;
  • Engasgos frequentes, ânsia de vômito ou recusa de texturas específicas;
  • Perda de peso ou ganho excessivo e repentino;
  • Isolamento social em festas, eventos escolares ou reuniões familiares devido à alimentação.

Além disso, dificuldades alimentares são mais comuns em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento. Enquanto a seletividade atinge cerca de 45% das crianças com desenvolvimento típico, pode chegar a 80% entre aquelas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nesses casos, a recusa alimentar está associada a rigidez comportamental e alterações no processamento sensorial, como aversão a texturas, cores, cheiros ou temperaturas dos alimentos.

Restrição alimentar não significa necessariamente baixo peso

Contrariando a ideia de que dificuldades alimentares levam à magreza, muitos pacientes apresentam sobrepeso ou obesidade. Isso ocorre porque algumas crianças mantêm uma dieta restrita, baseada em alimentos ultraprocessados, altamente palatáveis e de fácil mastigação. Apesar da alta ingestão calórica, essas dietas podem ser deficientes em vitaminas, minerais e outros nutrientes essenciais.

O Dr. Mauro Fisberg, nutrólogo e coordenador do Cenda, destaca: “Muitas vezes, a percepção dos adultos fica concentrada nos alimentos que a criança recusa ou nos conflitos gerados à mesa. Isso pode dificultar uma avaliação mais precisa do repertório alimentar já aceito pela criança e aumentar a ansiedade da família durante as refeições.”

Importância da avaliação multiprofissional

O modelo assistencial do Cenda enfatiza uma abordagem integrada, envolvendo pediatras, nutricionistas e fonoaudiólogos, para avaliar aspectos motores, sensoriais, cognitivos, comportamentais e orgânicos relacionados à alimentação. Essa avaliação ampla permite um diagnóstico mais preciso e a definição de estratégias terapêuticas adequadas para cada criança.

O tema será um dos destaques do 8º Congresso Internacional Sabará-PENSI de Saúde Infantil, em São Paulo, que também abordará insegurança alimentar na América Latina, ambientes escolares e os efeitos da má nutrição ao longo da vida. A identificação precoce dos sinais de dificuldade alimentar pode contribuir para tratamentos mais eficazes e melhor qualidade de vida para crianças e suas famílias.

EstagiárIA

Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA

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