82% das famílias estão endividadas. Isso não significa que 82% estejam quebradas

O Brasil bate recordes de endividamento ao mesmo tempo em que multiplicou o acesso ao cartão de crédito. Confundir dívida a vencer com inadimplência ajuda a produzir manchetes assustadoras, mas explica pouco sobre a situação financeira das famílias.

O Brasil chegou a julho de 2026 com 82% das famílias classificadas como endividadas, o maior percentual da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O número assusta. O problema é que ele costuma chegar ao público sem uma informação essencial: para entrar nesses 82%, ninguém precisa estar com uma conta atrasada.

Basta ter uma dívida a vencer.

Entram nessa conta a fatura do cartão de crédito, um financiamento imobiliário, a prestação do carro, crédito consignado, empréstimo pessoal, carnê de loja e outras modalidades. Uma família que comprou R$ 1.500 no cartão durante o mês, tem dinheiro na conta e paga integralmente a fatura no vencimento está, para efeitos da pesquisa, endividada.

Não é uma falha da pesquisa. É uma falha de interpretação quando “endividado” passa a ser usado como sinônimo de “em dificuldade financeira”.

Os próprios números da CNC mostram a diferença. Enquanto 82% das famílias tinham algum compromisso financeiro em julho, 29,8% estavam com contas atrasadas. O percentual caiu ligeiramente em relação aos 29,9% de junho. A parcela dos que declaravam não ter condições de pagar as dívidas atrasadas estava em 12,3%.

O recorde de endividamento, portanto, existe. Mas ele conta uma história mais complexa do que “o brasileiro nunca esteve tão quebrado”.

O brasileiro também nunca teve tanto cartão

Existe outra transformação acontecendo quase ao mesmo tempo e que precisa entrar nessa análise: milhões de brasileiros que praticamente não tinham acesso ao crédito passaram a ter.

Segundo o Banco Central, quase 37 milhões de pessoas passaram a ter acesso ao cartão de crédito entre 2020 e 2024. No fim daquele período, 105,6 milhões de brasileiros tinham limite disponível e 95,6 milhões efetivamente utilizavam cartão. Entre estes, 43,8 milhões usavam o produto somente para compras à vista, sem recorrer às modalidades que cobram juros.

O número de cartões cresceu ainda mais rápido.

Havia cerca de 235 milhões de cartões de crédito ativos no fim de 2024, quase 14% a mais do que um ano antes. No final de 2025, já eram 253,8 milhões.

O Brasil tem mais cartões de crédito ativos do que habitantes.

Isso não significa que exista um cartão para cada brasileiro. Significa justamente o contrário: uma parcela dos usuários tem dois, três, cinco ou mais cartões emitidos por bancos, varejistas e fintechs diferentes.

Essa mudança ajuda a explicar por que comparar simplesmente o percentual atual de famílias endividadas com o de dez ou quinze anos atrás pode produzir uma conclusão enganosa.

Quem não tinha cartão não podia aparecer como endividado por causa da fatura do cartão. Quem não conseguia financiamento não podia entrar na estatística por causa da prestação de um carro. Quem era ignorado pelo sistema bancário tinha menos acesso ao crédito — inclusive menos oportunidade de se endividar.

A expansão do crédito muda a estatística antes mesmo de sabermos se mudou a saúde financeira daquela pessoa.

Imagine alguém que sempre gastou R$ 2 mil por mês e pagava as compras com dinheiro ou débito. Se essa mesma pessoa passa a concentrar os mesmos R$ 2 mil no cartão, paga a fatura integralmente e não aumenta um centavo de seu consumo, ela passa a carregar uma dívida mensal.

Financeiramente, quase nada mudou.

Estatisticamente, mudou.

Quando o limite concedido não tem relação com o salário

Há uma segunda questão menos confortável nesse processo. O acesso ao crédito não apenas aumentou. Em muitos casos, tornou-se extraordinariamente fácil.

A digitalização bancária, a entrada das fintechs, novos modelos de análise de risco e a disputa por clientes transformaram a concessão de cartão. Não é mais necessário entrar em uma agência, conversar com um gerente e apresentar uma pasta de comprovantes para receber uma oferta.

Um consumidor pode manter cartões de várias instituições, cada uma concedendo seu próprio limite. Individualmente, R$ 3 mil, R$ 5 mil ou R$ 10 mil podem parecer exposições administráveis para cada banco. Somados, esses limites podem chegar a um valor que o titular jamais teria renda para quitar de uma só vez.

É aí que aparece um dos riscos produzidos pela própria democratização do crédito.

Limite não é renda. Limite também não é uma declaração do banco de que o cliente possui capacidade para gastar aquele valor inteiro e devolver tudo no mês seguinte.

É uma decisão de risco tomada pelo emissor dentro de uma carteira com milhões de clientes. O banco sabe que nem todos utilizarão todo o limite simultaneamente. Sabe também que parte dos consumidores pagará juros, parte atrasará e uma parcela não pagará.

Para o indivíduo, porém, o limite aparece no aplicativo de uma forma muito mais simples: dinheiro disponível para gastar.

Foi criada uma capacidade de consumo que pode ser muito maior do que a capacidade de pagamento.

A dívida que custa caro é outra história

Nada disso transforma o endividamento brasileiro em uma invenção estatística.

O mesmo relatório do Banco Central que mostra a expansão do acesso ao cartão faz um alerta bem menos confortável. Dos usuários ativos analisados, 52,8 milhões tinham dívidas com juros no cartão, por meio do rotativo ou do parcelamento da fatura. O BC observa que houve crescimento expressivo desse grupo entre 2020 e 2024, inclusive com entrada de consumidores com pouca experiência em um produto complexo e caro.

Aqui começa uma discussão bem diferente daquela simples constatação de que alguém recebeu uma fatura.

O consumidor que compra R$ 1 mil no cartão e paga R$ 1 mil no vencimento tem uma dívida.

O consumidor que compra R$ 1 mil, não consegue pagar, entra no rotativo e começa a carregar juros também tem uma dívida.

Colocar os dois no mesmo grupo sem observar o que acontece depois esconde exatamente a informação que mais interessa.

O problema fica ainda mais evidente quando se olha para a renda.

Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, o endividamento chegou a 84,9% em julho, mas a inadimplência também avançou, de 38,3% para 38,5%. Nesse grupo, 17,8% declararam que não conseguiriam pagar as dívidas pendentes. Entre famílias com renda superior a dez salários mínimos aconteceu algo quase oposto: o endividamento chegou a 72%, mas a inadimplência caiu para 15,1%.

Duas famílias endividadas podem estar vivendo situações completamente diferentes.

Uma financia um imóvel, parcela uma compra sem juros e paga integralmente o cartão.

A outra usa crédito para completar o supermercado, atrasa a conta de luz e parcela a própria fatura porque o salário acabou antes do mês.

Chamar as duas simplesmente de “endividadas” é correto para a pesquisa. Usar essa classificação para dizer que ambas enfrentam a mesma deterioração financeira, não.

A inadimplência, sim, está em nível preocupante

Também seria confortável demais usar essa distinção para concluir que não existe um problema sério.

Existe.

O Mapa da Inadimplência da Serasa registrou 83,9 milhões de brasileiros negativados em julho de 2026, o maior número da série histórica, depois de 19 meses consecutivos de alta. A metodologia é diferente da pesquisa da CNC — uma acompanha consumidores negativados, a outra entrevista famílias — e os números não devem ser comparados como se medissem exatamente a mesma coisa. Ainda assim, o recorde de negativados mostra que a dificuldade financeira não é apenas efeito semântico da palavra “endividamento”.

Essa é a discussão que interessa.

Não basta perguntar quantas pessoas têm dívida. É preciso saber quem está atrasando, quanto da renda está comprometido, qual dívida cobra juros, quanto tempo permanece atrasada e por que aquele crédito foi contratado.

Um financiamento imobiliário aumenta o endividamento e pode construir patrimônio durante décadas.

Uma fatura paga integralmente todos os meses aumenta o endividamento e pode não custar um centavo em juros.

Uma dívida de cartão rolada de um mês para outro também aumenta o endividamento, mas pode destruir rapidamente a renda disponível de uma família.

O percentual bruto coloca tudo dentro da mesma palavra.

Crédito fácil não desaparece quando a conta chega

Há ainda uma responsabilidade pouco discutida quando a conversa sobre endividamento se transforma apenas em uma aula de educação financeira para o consumidor.

Durante anos, o sistema financeiro investiu para reduzir a fricção na concessão do crédito. Abrir conta ficou mais simples. Pedir cartão ficou mais simples. Aumentar limite ficou mais simples. Contratar empréstimo passou a exigir alguns toques na tela.

Isso tem vantagens evidentes. Milhões de pessoas deixaram de depender exclusivamente de dinheiro vivo, ganharam acesso a meios de pagamento, puderam parcelar bens e passaram a construir histórico financeiro.

Mas o mesmo sistema que sofisticou extraordinariamente sua capacidade de oferecer crédito não pode tratar o superendividamento apenas como resultado de consumidores que “não souberam se organizar”.

Se algoritmos, bases de dados e modelos estatísticos são suficientemente bons para decidir em segundos que alguém merece mais R$ 5 mil de limite, é razoável perguntar até que ponto também deveriam ser capazes de identificar quando a soma das ofertas começa a superar qualquer capacidade plausível de pagamento.

O recorde de 82% merece atenção, mas não porque prove que oito em cada dez famílias brasileiras estejam à beira da insolvência.

Ele revela também outra mudança: o Brasil criou um mercado no qual se tornou muito mais fácil ter uma dívida.

O indicador realmente incômodo aparece quando esse acesso deixa de financiar consumo administrável e começa a produzir atraso, juros e renegociações sucessivas.

Talvez a pergunta relevante tenha deixado de ser “quantos brasileiros estão endividados?”.

Com mais de 250 milhões de cartões de crédito ativos circulando no país, seria estranho se a resposta não fosse “quase todos”.

A pergunta que importa é outra: quantos receberam mais crédito do que poderiam pagar — e quem decidiu que concedê-lo era uma boa ideia?

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