Surto de ciclosporíase nos EUA alerta sobre segurança da alface

Mais de 6 mil casos nos Estados Unidos reforçam o papel da água, do saneamento e do processamento na segurança das hortaliças.

Um surto de ciclosporíase associado ao consumo de alface americana nos Estados Unidos já havia provocado mais de 6 mil casos, 278 hospitalizações e duas mortes em 15 estados até o início de agosto. O episódio, apontado pelas autoridades de saúde como um dos maiores surtos recentes de doenças transmitidas por alimentos no país, reacendeu uma dúvida comum: o problema está no tipo de hortaliça ou na forma como ela é produzida e processada?

De acordo com pesquisas desenvolvidas há mais de duas décadas na Universidade de São Paulo (USP), o risco depende principalmente da qualidade dos controles adotados ao longo de toda a cadeia produtiva — e não apenas do cuidado do consumidor na cozinha.

Como a alface pode ser contaminada

A investigação nos Estados Unidos identificou a alface americana como elo comum entre os casos e levou ao recolhimento de lotes distribuídos pela empresa responsável. A origem da contaminação, porém, ainda não estava esclarecida no material divulgado.

A doença é causada pelo protozoário Cyclospora cayetanensis. Segundo a pesquisadora Daniele Maffei, professora do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e integrante do INCT FoRC, a contaminação costuma ocorrer antes de o alimento chegar ao consumidor.

Como o parasita precisa permanecer algum tempo no ambiente para se tornar infectante, fatores como água de irrigação, saneamento, manejo da produção e processamento industrial são decisivos. A água está presente em várias etapas: no campo, na lavagem após a colheita, no processamento e na higienização final.

Orgânico, convencional ou hidropônico: existe um sistema mais seguro?

Os estudos analisados pela equipe não indicam que um sistema de cultivo seja automaticamente mais seguro que outro. Pesquisas comparando hortaliças orgânicas e convencionais encontraram resultados diferentes, sem evidência consistente de que uma modalidade, por si só, elimine o risco microbiológico.

O mesmo vale para produtos minimamente processados. Uma revisão citada no material avaliou a presença de patógenos e encontrou dados concentrados em Salmonella spp. e Listeria monocytogenes, com prevalências que variaram, respectivamente, de 0,4% a 12,5% e de 0,6% a 3,1%.

Por que a água é um ponto crítico

Uma das pesquisas conduzidas por Maffei usou um modelo matemático para mostrar que concentrações adequadas de sanitizantes na água de lavagem podem impedir que uma folha contaminada espalhe microrganismos para todo um lote durante o processamento industrial.

No caso da Cyclospora cayetanensis, a cloração apresenta eficácia limitada. Ainda assim, o monitoramento da qualidade microbiológica da água e a prevenção de sua contaminação são medidas centrais para reduzir a disseminação do parasita.

“A prevenção começa muito antes da cozinha”, conclui a pesquisadora. Para quem consome saladas, a principal mensagem é que a segurança do alimento não depende de um único rótulo ou de uma etapa final: ela é construída do campo à mesa.

EstagiárIA

Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA

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