Xuxa e a turnê que emociona o público LGBTQIA+
Artigo relaciona a memória afetiva da apresentadora às experiências de pessoas LGBTQIA+ que cresceram sob preconceito e falta de acolhimento.
Para parte do público LGBTQIA+, a turnê O Último Voo da Nave, de Xuxa Meneghel, representa mais do que uma viagem nostálgica à infância. Em artigo, William Barbosa Sales relaciona o universo colorido da apresentadora às memórias de pessoas que cresceram percebendo que não se encaixavam nas expectativas sociais — muitas vezes antes mesmo de compreender o que sentiam.
O texto parte de uma lembrança pessoal do autor, que afirma ter crescido nos anos 1980, em um período com pouco espaço para falar sobre diversidade, orientação sexual e acolhimento. A reflexão também busca diferenciar a existência de crianças que se percebem como gays da sexualização da infância.
Quando a diferença vira motivo de exclusão
Segundo Sales, a percepção de que uma criança é vista como “diferente” muitas vezes surge pela reação das pessoas ao redor. Meninos considerados delicados, que preferiam brincar com meninas ou não demonstravam interesse por futebol, poderiam se tornar alvo de piadas, apelidos e afastamento.
O preconceito, destaca o artigo, nem sempre aparecia como uma agressão física. Risadas, olhares e frases de exclusão também comunicavam à criança que havia algo supostamente errado nela. Entre os exemplos citados está: “Não ande com ele, senão vão pensar que você também é.”
Para o autor, esse tipo de experiência pode atingir a autoestima justamente em uma fase importante da formação emocional. A criança que recebe vergonha e rejeição como resposta passa a carregar essas marcas para outras etapas da vida.
A televisão como espaço simbólico de acolhimento
É nesse ponto que a lembrança de Xuxa ganha outro significado. No artigo, a nave da apresentadora aparece como um lugar simbólico de descanso diante da hostilidade cotidiana. As músicas e mensagens de esperança ajudavam a imaginar que existia um futuro possível, mesmo quando faltavam referências de pertencimento.
“Xuxa nunca soube quem éramos”, escreve Sales, ao reconhecer que o impacto daquela televisão não dependia de uma relação direta entre a apresentadora e as crianças que a acompanhavam. Para ele, o acolhimento era construído pela identificação com aquele universo e pelo alívio de encontrar, ainda que na tela, uma mensagem diferente da rejeição vivida fora dela.
Reencontrar a criança que sobreviveu
Quarenta anos depois, o autor interpreta a turnê como uma oportunidade de rever não apenas uma artista marcante, mas também a própria trajetória. Assistir ao espetáculo seria, nessa leitura, reencontrar a criança que temia nunca ser aceita e reconhecer que ela conseguiu seguir em frente.
Sales defende que falar sobre crianças gays não cria uma realidade: significa reconhecer experiências que sempre existiram. Ignorá-las, afirma, apenas contribui para que atravessem a infância sem apoio. Assim, O Último Voo da Nave surge como uma celebração de memória, resistência e esperança para adultos que ainda carregam dentro de si a criança que um dia precisou sobreviver ao preconceito.
William Barbosa Sales é biólogo, doutor em Saúde e Meio Ambiente e coordenador dos cursos de pós-graduação da área da saúde do Centro Universitário Internacional Uninter.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



