Um estranho na sua casa: os riscos escondidos nas locações por temporada
Quando a pressa para fechar negócio supera a checagem de antecedentes, o aluguel pode virar uma ameaça à segurança além do calote.
Falsificação de documentos, identidades ocultas e passagens pela justiça; O que você não vê quando só olha o contracheque
Ele se apresenta como um profissional bem-sucedido, educado e com a documentação em dia. O fiador é sólido, a renda compatível com o valor do aluguel e as três primeiras parcelas foram pagas em dia. No entanto, por trás da fachada de normalidade, pode estar em jogo algo muito mais valioso do que o imóvel: a sua segurança.
Os números sugerem que essa confiança está cada vez mais frágil. Dados de 2025 obtidos junto à Associação Brasileira de Locação e Gestão Imobiliária (ABL) indicam um salto de 20% nas denúncias de crimes envolvendo plataformas de aluguel e venda de imóveis em relação ao ano anterior. Para 2026, a projeção é que esse número ultrapasse os 25%, especialmente impulsionado pelo aumento de locações de curta temporada, período em que o giro de hóspedes é mais acelerado e a análise de perfis, frequentemente mais superficial.
O dado não reflete apenas pequenos calotes ou desentendimentos entre vizinhos. As ocorrências incluem desde a ocupação fraudulenta de propriedades até casos de ameaças e violência doméstica perpetrados por locatários que, até a assinatura do contrato, ostentavam uma ficha financeira impecável.
Essa realidade incômoda foi refletida em produções investigativas como a série da Netflix “Worst Roommate Ever” (O Pior Companheiro de Quarto do Mundo), que expõe como indivíduos com históricos preocupantes conseguem repetidamente alugar quartos e casas usando apenas boa lábia. A série, que retrata casos reais ao redor do mundo, escancara como o mercado imobiliário tradicional tende a tratar a locação como uma operação puramente financeira, ignorando que o verdadeiro patrimônio em jogo não é apenas o valor do imóvel, mas a integridade física e psicológica de quem nele habita.
Nesse contexto, Augusto Duarte, CEO da BGC Brasil, empresa especializada em background check para prevenção de riscos, defende a “due diligence pessoal”: “A verificação de antecedentes é realizada em conformidade com as leis de proteção de dados e dentro dos limites legais aplicáveis. Não se trata de uma ferramenta de espionagem ou invasão de privacidade, mas sim de um procedimento técnico que cruza informações disponíveis em fontes públicas e permitidas por lei, sempre com o devido aviso ou consentimento quando exigido. Por meio dela, é possível confirmar a autenticidade dos documentos apresentados, evitando que o uso de identidades falsas — um dos artifícios mais comuns entre golpistas — passe despercebido na análise inicial.”
A checagem também pode acessar, dentro do que a lei autoriza, registros de processos criminais e ações em andamento nos tribunais de justiça, identificando se o candidato responde a acusações que vão desde ameaças até crimes patrimoniais ou contra a vida. Outro ponto cego que o background check ilumina é o histórico de ações possessórias: um inquilino que já foi alvo de múltiplos pedidos de despejo em diferentes cidades, por exemplo, raramente terá esse padrão de comportamento capturado por uma simples consulta de crédito.
O que está em jogo, portanto, vai muito além do calote. Com a alta temporada de férias, a pressa para fechar um negócio lucrativo e rápido é maior, no entanto a porta da rua não é a única entrada de riscos em uma propriedade. Às vezes, o perigo chega com contrato assinado e chave na mão.
Por Augusto Duarte
CEO da BGC Brasil, especialista em background check e prevenção de riscos
Artigo de opinião



