O que precisa ser tratado e o que merece ser vivido? A psicanálise diante da medicalização da vida

Camila Camar analisa o impulso contemporâneo de eliminar desconfortos, perdas e limites, e defende a importância de elaborar a experiência humana

Nunca se falou tanto em saúde, bem-estar e qualidade de vida. Aplicativos monitoram o sono, relógios inteligentes acompanham batimentos cardíacos em tempo real, medicamentos prometem controlar peso, ansiedade e humor, enquanto a indústria da longevidade movimenta bilhões de dólares ao redor do mundo. Ao mesmo tempo em que a medicina avança e amplia sua capacidade de prevenir doenças e prolongar a vida, cresce uma discussão que ultrapassa os limites dos consultórios: estamos tratando enfermidades ou tentando eliminar experiências que fazem parte da condição humana?

A reflexão tem chamado a atenção de profissionais que observam uma mudança na forma como a sociedade lida com o sofrimento, as perdas e os limites da existência. Para a psicanalista e psicóloga Camila Camar “Vivemos em uma cultura que valoriza soluções rápidas, resultados mensuráveis e intervenções cada vez mais precisas. Pouco a pouco, experiências humanas complexas passam a ser tratadas como problemas de gestão. Não mais questões a serem vividas, elaboradas e significadas, mas dificuldades a serem administradas da forma mais eficiente possível”, afirma.

A discussão ocorre em um contexto de crescimento global das preocupações relacionadas à saúde mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase um bilhão de pessoas convivem com algum transtorno mental no mundo. Após a pandemia, os casos de ansiedade e depressão registraram aumento superior a 25%, reforçando a busca por tratamentos e soluções capazes de aliviar o sofrimento emocional.

Mas, para além dos diagnósticos clínicos, especialistas observam um movimento mais amplo: a tendência de transformar experiências humanas naturais em situações que exigem correção imediata. O envelhecimento, por exemplo, tornou-se alvo de uma indústria global que movimenta centenas de bilhões de dólares por ano. A busca por performance, produtividade e bem-estar permanente também se tornou uma característica marcante da sociedade contemporânea.

Nesse cenário, tristeza, frustração, luto, insegurança e até momentos de vazio frequentemente passam a ser percebidos como sinais de que algo está errado. Para Camar “Em certa medida, a forma como as coisas vêm sendo apresentadas pode estar alimentando a fantasia de que é possível viver sem perdas. Não apenas viver mais, desejo tão antigo quanto a própria humanidade, mas viver sem declínios, sem limitações e sem marcas do tempo.”

A observação encontra ressonância em uma discussão presente na psicanálise desde o início do século passado. Em “O Mal-Estar na Civilização”, publicado em 1930, Freud argumentava que uma parcela do sofrimento humano é inevitável. Para o criador da psicanálise, não existe vida livre de conflitos, perdas ou frustrações. Mais de 90 anos depois, a reflexão continua atual. Quanto maiores se tornam as possibilidades de intervenção, mais difícil parece ser tolerar aquilo que não pode ser controlado.

“Não apenas a doença, mas o envelhecimento. Não apenas a dor, mas o desconforto. Não apenas o sofrimento evitável, mas os próprios limites do tempo”, diz a psicanalista.

A questão não está relacionada à rejeição dos avanços da medicina ou dos tratamentos psicológicos. Pelo contrário. O consenso entre profissionais da saúde é que o acesso a recursos capazes de aliviar dores físicas e emocionais representa uma conquista fundamental da sociedade moderna. O debate surge quando esses recursos passam a ocupar um lugar que talvez não lhes pertença: o de eliminar completamente a vulnerabilidade humana.

“O problema começa quando passamos a esperar desses recursos algo que eles não podem oferecer: a possibilidade de escapar da angústia de perceber que a vida tem fim”, afirma Camar

Segundo ela, é possível tratar a insônia, controlar sintomas, reduzir sofrimentos e oferecer suporte durante períodos difíceis. O que não parece possível é abolir completamente experiências que fazem parte da existência.

“Podemos tratar a insônia, mas não eliminar todas as inquietações. Podemos aliviar certos sofrimentos, mas não impedir que pessoas amadas morram. Podemos buscar recursos para atravessar as transformações do corpo, mas não suspender a passagem do tempo.”

Outro texto clássico de Freud ajuda a compreender essa questão. Em “Sobre a Transitoriedade”, escrito em 1915, o psicanalista defende que o caráter passageiro das coisas não reduz seu valor. Pelo contrário. É justamente a consciência de que tudo é finito que torna momentos, relações e experiências tão significativos.

A ideia contrasta com uma cultura que busca permanência, controle e previsibilidade em praticamente todas as áreas da vida. Nesse contexto, perdas passam a ser encaradas como falhas, limitações como defeitos e desconfortos como problemas que precisam ser eliminados rapidamente.

“Nem tudo o que é transitório é um problema a ser resolvido. Nem toda perda é uma falha. Nem toda limitação exige uma intervenção capaz de fazê-la desaparecer”, afirma a psicanalista.

Para Camar “Alguns aspectos da experiência humana podem ser tratados, analisados e compreendidos. O que talvez não possam ser é terceirizados, nem para os medicamentos, nem para as teorias. Em alguma medida, eles continuam exigindo de cada um de nós tempo, elaboração e atribuição de sentido. Trata-se de uma tarefa individual, singular e intransferível.”

Em uma época marcada pela busca incessante por soluções, a reflexão proposta pela psicanalista aponta para uma pergunta cada vez mais atual: diante de tudo aquilo que nos atravessa, estamos tentando compreender a experiência ou apenas eliminá-la?

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Por Camila Camar

Psicanalista e psicóloga

Artigo de opinião

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