Dia dos Trabalhadores: como assistentes sociais enfrentam a precarização no Paraná
Especialistas abordam as principais dificuldades do trabalho de Serviço Social no Estado
1º de Maio é uma data especial. O Dia do Trabalhador, celebrado em todos os continentes, reforça as conquistas, desafios e as experiências vividas por pessoas de diferentes profissões. No Brasil, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE de fevereiro deste ano, o país conta com mais de 102 milhões de trabalhadores, entre diferentes categorias de formalização e mesmo pessoas em situação de informalidade.
O trabalho no Brasil passa, hoje, por um grande debate público sobre o fim da escala 6×1, em tramitação na Câmara dos Deputados. Nesta quarta-feira (29), uma comissão especial foi iniciada para discutir o tema entre representantes de diversos setores da sociedade, abordando as melhores estratégias para reduzir a jornada. O colegiado será presidido pelo deputado Alencar Santana (PT-SP), com relatoria do deputado Léo Prates (Republicanos-BA). Após as discussões, um texto final seguirá para votação no Plenário da Câmara; se aprovado, seguirá para a discussão no Senado e, depois, para a sanção (ou veto) do presidente da República.
Os e as assistentes sociais não estão fora desta discussão, com os seus mais de 11 mil profissionais em atividade no Paraná, segundo números de 2026 do Conselho Regional de Serviço Social do Paraná. Por melhores condições de trabalho e valorização da categoria, o Serviço Social no Estado é contra a jornada em escala 6×1 e defende o seu fim.
Prontos para atuar no acesso da população a direitos básicos, políticas públicas, benefícios sociais e acolhimento a quem necessita, os assistentes sociais enfrentam dificuldades que levam ao adoecimento. Tânia Mara da Silva, assistente social e doutora em Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), aponta que fatores como a precarização dos processos de contratação e o desgaste físico levam muitos profissionais a uma situação crítica. “O adoecimento profissional ocorre a partir de três direcionamentos. O primeiro é a intensificação do trabalho, que expõe o/a profissional a lesões musculares, sofrimento psíquico, problemas vocais, entre outros. O segundo é a flexibilização associada a um perfil profissional polivalente e multifuncional, que intensifica o esforço físico e mental, levando a uma fadiga desproporcional às atividades desempenhadas. Por fim, as dificuldades institucionais, como o acúmulo de atividades, burocratização do trabalho e limitações orçamentárias dos locais de atuação contribuem ainda mais para o adoecimento”, afirma a doutora.
Juliete Guerra Hiradai, assistente social no município de Goioerê, integrante da Câmara Temática de Educação do CRESS-PR e líder sindical em sua cidade, aponta que, muitas vezes, as condições de trabalho oferecidas ao Serviço Social estão longe do ideal, o que é particularmente grave em uma profissão tão importante para a garantia de direitos básicos. “Nós lidamos diariamente com desigualdades, com a negação de direitos, pobreza e violências. Estamos na linha de frente das políticas públicas, lutando pelo acesso à educação, assistência, saúde e outros direitos básicos. Com base nisso, precisamos refletir criticamente sobre a realidade que vivenciamos, pois o adoecimento das e dos assistentes sociais não é individual, mas sim social. Precisamos falar a respeito do assédio moral muitas vezes silencioso e velado, das metas abusivas, da falta de condições estruturais de trabalho e das pressões institucionais cotidianas que interferem na nossa autonomia profissional”, ressalta a assistente social.
O dia 1º de Maio, desta forma, é um momento de reflexão e conscientização sobre os desafios enfrentados todos os dias pelos profissionais do Serviço Social. A doutora Tânia Mara, neste contexto, reforça a importância de se entender que, com assistentes sociais precarizados, a qualidade do serviço que a população recebe perde qualidade. “Para a população, as condições de trabalho dos e das assistentes sociais impacta diretamente no acesso aos direitos sociais, causando um sucateamento dos serviços públicos, a insuficiência de recursos e mesmo a intensificação das exigências institucionais, o que causa um cenário adverso para a atuação qualificada dos profissionais. Neste dia 1° de maio, precisamos refletir sobre como esse adoecimento não é natural, mas socialmente produzido”, reflete Tânia.
Principais impactos da escala 6×1 no dia a dia das e dos assistentes sociais:
-Saúde e qualidade de vida: a escala 6×1 tende a gerar desgaste físico e mental, com pouco tempo real de descanso. Isso pode agravar problemas como estresse, ansiedade e até doenças relacionadas ao trabalho. Como o Serviço Social atua muito próximo das expressões da desigualdade e do sofrimento social, há uma preocupação concreta com esses impactos.
-Direito ao descanso e convivência social: um único dia de folga por semana dificulta a convivência familiar, o lazer e a participação social. Para a profissão, isso não é “luxo”, mas parte das condições mínimas de dignidade.
-Precarização do trabalho: a escala 6×1 é frequentemente associada a setores com baixos salários, alta rotatividade e poucos direitos garantidos. Muitos assistentes sociais analisam isso dentro da lógica mais ampla da precarização no capitalismo contemporâneo.
-Defesa de direitos trabalhistas: o projeto ético-político da profissão enfatiza a defesa de direitos, justiça social e condições dignas de trabalho. Isso inclui questionar jornadas consideradas excessivas.
-Impacto desigual sobre grupos vulneráveis: mulheres, especialmente mães, e trabalhadores mais pobres são os mais afetados por jornadas extensas. O Serviço Social tem um olhar atento para essas desigualdades estruturais.



