Cheiro virou bem-estar: aromas na rotina e nas marcas
Nos últimos anos, os aromas deixaram de ocupar um papel secundário dentro de casa e nos espaços comerciais
Nos últimos anos, os aromas deixaram de ocupar um papel secundário dentro de casa e nos espaços comerciais para se tornarem parte ativa da experiência cotidiana. O que antes era visto apenas como “perfume de ambiente” hoje se conecta a bem-estar, autocuidado, identidade e até estratégia de marca.
O mercado mundial de aromaterapia foi estimado em US$ 9,2 bilhões em 2024 e deve alcançar US$ 15,1 bilhões até 2030, com crescimento médio anual de 8,9%. Já o mercado global de fragrâncias para casa foi estimado em US$ 13,16 bilhões em 2025 e pode chegar a US$ 26,51 bilhões até 2033, impulsionado pela busca por ambientes mais personalizados, confortáveis e sensoriais.
Esse movimento ajuda a explicar por que velas aromáticas, difusores, home sprays, sabonetes artesanais e águas perfumadas passaram a ocupar um lugar mais central na rotina das pessoas. O aroma deixou de ser um detalhe decorativo e passou a funcionar como parte do ritual de estar em casa, descansar, receber alguém ou simplesmente criar uma atmosfera mais acolhedora.
Segundo a perfumista e aromaterapeuta Rebeca Galhardo, criadora da Cadeaux Brasil, a relação com esses produtos mudou nos últimos anos. “Durante muito tempo, muita gente comprava uma vela ou um sabonete artesanal quase como objeto decorativo. Ficava guardado, intacto. Hoje as pessoas usam. Acendem a vela, borrifam o spray, escolhem um aroma para o quarto, para a sala, para a casa inteira. O cheiro passou a fazer parte da experiência de viver o ambiente”, afirma.
Essa mudança também conversa com uma necessidade emocional. Depois de um período em que o lar passou a concentrar descanso, trabalho, vida pessoal e convivência, cresceu a busca por pequenas estratégias capazes de tornar a rotina mais leve e confortável. Nesse contexto, o olfato ganhou espaço como um recurso silencioso, mas poderoso.
“O cheiro tem uma relação muito direta com memória e sensação. Ele pode trazer acolhimento, calma, frescor, aconchego, presença. As pessoas começaram a perceber isso com mais clareza e passaram a usar os aromas de forma mais intencional”, explica Rebeca.
Essa nova percepção também mudou a forma como os produtos sensoriais são escolhidos. Em vez de serem vistos apenas como itens “bonitos” ou “extras”, eles passaram a ser incorporados como parte da rotina. Velas aromáticas, por exemplo, ganharam novo significado. Mais do que perfumar, elas passaram a representar pausa. O ato de acender uma vela se transformou em um pequeno ritual de desaceleração. O mesmo vale para sprays de ambiente, águas perfumadas para tecidos e sabonetes artesanais, que hoje são mais associados à experiência do que à função.
Na prática, isso significa que o consumidor está mais atento não apenas ao aroma em si, mas ao que ele comunica. Um cheiro pode deixar um ambiente mais acolhedor, mais sofisticado, mais leve ou mais memorável. E isso vale tanto para a casa quanto para espaços comerciais.
Se dentro de casa o aroma passou a ser entendido como parte do bem-estar, no universo das marcas ele ganhou força como ferramenta de diferenciação. É nesse ponto que entra o branding olfativo, estratégia que utiliza o cheiro como parte da identidade de uma marca. Em vez de pensar o aroma apenas como “perfume de ambiente”, o branding olfativo trabalha a fragrância como assinatura sensorial, capaz de reforçar percepção, criar memória e tornar a experiência mais marcante.
Estudos acadêmicos e pesquisas sobre marketing sensorial mostram que a presença de um aroma agradável e coerente com a proposta do ambiente pode melhorar a avaliação da marca e aumentar a lembrança do consumidor, especialmente quando há alinhamento entre experiência e identidade.
Segundo Rebeca, isso explica por que lojas, clínicas, consultórios, hotéis, ateliês e até pequenos negócios vêm se interessando mais pelo tema. “Hoje não basta uma marca ser bonita visualmente. Ela precisa ser sentida. O aroma ajuda a construir uma memória emocional que permanece mesmo depois que a pessoa sai daquele espaço”, afirma.
Na prática, isso significa pensar em qual sensação aquela marca quer despertar. A proposta é acolher? Sofisticar? Relaxar? Estimular? Tudo isso pode ser traduzido sensorialmente.
Para a especialista, o avanço desse mercado também mostra uma mudança mais profunda de comportamento: as pessoas estão buscando menos excesso e mais experiência. “O cheiro deixou de ser acessório. Ele passou a ocupar um lugar emocional e até estratégico no cotidiano. Seja em casa ou em uma marca, o aroma ajuda a criar presença, atmosfera e lembrança”, conclui Rebeca.
Em tempos de excesso visual e sobrecarga de estímulos, o olfato passou a ser uma forma mais sutil — e muitas vezes mais poderosa — de conexão.



