Milhões de brasileiros vivem em inadimplência recorrente
Especialista analisa causas do aumento da inadimplência e o impacto do crédito irresponsável no Brasil
O Serasa divulgou o Mapa da Inadimplência, que compila a vida financeira dos brasileiros nos últimos dez anos. A constatação é que o brasileiro vive um ciclo de endividamento sem fim, por diversos motivos, principalmente por conta de crédito fácil e juros altos. Além disso, o levantamento traz um raio-x dos devedores, mostrando que hoje as mulheres aparecem na lista dos “novos inadimplentes”, que 34 milhões de pessoas vivem em inadimplência recorrente e que o país atingiu a marca de 81,7 milhões de inadimplentes neste ano, um aumento de 38,1% se comparado a 2016.
O especialista em Direito do Consumidor, Stefano Ribeiro Ferri, afirma que “o crédito deixa de ser um instrumento legítimo de inclusão econômica e passa a ser uma armadilha quando é concedido sem responsabilidade. Isso ocorre, por exemplo, quando instituições financeiras oferecem crédito de forma agressiva, sem avaliar adequadamente a capacidade de pagamento do consumidor, ou quando ocultam o real custo da operação, especialmente em relação a juros e encargos.”
Ele fala sobre a existência de um “modelo de negócio” baseado na inadimplência. “É importante ter cautela, mas há indícios preocupantes. Parte do mercado se beneficia indiretamente do endividamento crônico, seja por meio de juros elevados, renegociações sucessivas ou pela própria dinâmica de crédito rotativo. Embora não se possa afirmar que a inadimplência seja o objetivo central, o sistema muitas vezes se estrutura de forma a tolerar — e até lucrar com — o atraso constante. Isso levanta discussões importantes sobre regulação e responsabilidade das instituições financeiras.”
Em meio à divulgação do endividamento dos brasileiros, o governo anunciou a retomada do programa Desenrola, que permitirá o uso do FGTS para quitação das dívidas. No caso dessa segunda etapa do programa, o saldo disponível no Fundo de Garantia precisa corresponder ao valor total da dívida. Não será permitido o uso para amortizar os débitos.
Dados adicionais indicam que 42% dos inadimplentes estão nessa condição há mais de 10 anos. Mulheres aparecem como maiores inadimplentes, reforçando o aumento do endividamento feminino.



