Sem paciência para terapia!

*Por Sara Campagnaro 

Com certeza você já ouviu por aí frases sobre o “fazer terapia”, como estas: “terapia é para os fortes”, “fazer terapia dói, mas é bom”, “já faço terapia há alguns anos”, entre outras. Realmente, estar em terapia é uma escolha que trará muitos benefícios, mas não significa que será um caminho fácil, pois muitos percursos precisam ser atravessados. Mas fique tranquila, que nem só de dores é construído o processo terapêutico, ele é composto também por risos, histórias engraçadas e memes compartilhados entre psicólogas e pacientes. E claro, sem pressa de alcançar alguma linha de chegada imaginária onde todos os problemas serão magicamente resolvidos. Como venho dizendo, terapia é um processo e como tal precisa ser construído com paciência.

Algumas pessoas, ao iniciar a psicoterapia, ficam tão ansiosas por ver rápidos progressos que se incomodam e se irritam, ficam sem paciência para a terapia. São nesses momentos que gosto da metáfora da “ferida aberta”, pois acredito que auxilia a compreender o quanto a paciência pode ser transformadora. Assim, imagine que você tem uma ferida em seu braço, ela está aberta já faz algum tempo e dói muito. Mas, como você nunca foi atrás de tratamento acabou se acostumando a lidar com a ferida. Têm dias que dói mais e outros menos, dependendo dos movimentos que faz ou se alguém sem querer encosta, ela dói ainda mais. Há momentos em que até esquece que ela existe. A dor já faz parte do seu dia a dia, e de alguma forma ela é parte de quem você é.

Até que, em algum momento, outras pessoas percebem a ferida e comentam contigo da importância de buscar um médico. Ainda que relutante, você busca ajuda, pois imagina que o profissional irá estancar de vez as tuas dores. Porém, é um machucado profundo, infeccionado. O médico precisa, antes de qualquer coisa, limpar a ferida aberta e para isso usa: água, sabão e uma esponja para esfregar e desinfetar. Neste momento a dor fica ainda mais intensa, muito mais do que você jamais sentiu. A cada esfregada em seu braço, você chora, grita, amaldiçoa o médico e todas as pessoas que te disseram para buscar ajuda. Pensa em desistir a cada percepção da dor. Esse é o primeiro passo do tratamento, e é o momento em que as pessoas mais pensam em desistir (do processo  terapêutico). “Eu vim para que minhas feridas parassem de doer e não para que a ferida ficasse mais exposta”, alguns dizem.

Depois da assepsia é hora de anestesiar e suturar. Ir fechando aos poucos aquilo que te consome. Talvez os próximos dias ainda sejam dolorosos, pois a ferida se fecha de dentro para fora e isso leva tempo, é tempo de ter paciência. Pois, em mais alguns dias os pontos são retirados, e assim, a dor dá lugar a uma cicatriz. Esta que é lembrança presente dos tempos difíceis, pois a ferida se fecha, mas as marcas deixadas não se vão. Marcas são parte da vida, são o que deixamos e o que deixam em nós.

A terapia, principalmente no início, pode trazer dores “esquecidas”, feridas que já nos acostumamos a carregar. Ao olhar para elas, mexer em certas histórias, a dor vem, e a vontade de desistir também. Por isso digo às minhas pacientes que elas precisam ter paciência. A terapia pode deixá-las mais ansiosas do que quando chegaram, pois agora estão enxergando dores que não viam há muito tempo. Faz parte do processo doer, chorar, ficar ansiosa, não dormir. Ao enfrentar feridas profundas, as consequências podem parecer não ter fim, mas ela tem.

Vamos suturando as dores. As psicólogas ajudam a alinhavar cada pedacinho doloroso, com calma, com técnicas, teorias, empatia e vínculo terapêutico. Com isso as dores, ansiedades, noites mal dormidas e perguntas sem respostas, começam a se transformar. Mas para que isso aconteça, respire, entenda que é parte do caminho, não desista e tenha muita paciência consigo e com o seu processo na terapia.

  • * Sara Campagnaro é psicóloga, professora na Estácio Curitiba, Especialista em Psicologia Fenomenológico-Existencial e Mestra em Educação. Coordena o grupo de estudos “Psicologia & Feminismo”.

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