Sobre amores, presenças, ausências, e a beleza do (re) encontro

Por Wallisten Garcia

Um dia, alguns anos passados, assisti a uma peça de teatro que se chamava “Edifício Amor”. Na história narrada, a personagem principal, com intuito de nunca se afastar das pessoas que amava, havia construído um prédio para que ali seus amores habitassem, assim ela os teria sempre por perto. Entretanto, sua tentativa foi em vão, pois, com o tempo, cada ser amado seguiu sua vida. Então, a solidão tomou posse do coração daquela mulher. A peça focava exatamente nesse sentimento e me tocou profundamente, até porque eu havia mudado recentemente da minha cidade natal e estava distante de muitos dos meus amores.

Mas, para além desse acontecimento específico, a emoção que senti naquela peça me acompanhou por muitos outros momentos de chegadas e partidas, presenças e ausências, que fazem parte da vida de todos nós. Afinal, chega um dia em que nossos amores partem, por necessidade, vontade ou desejo. Seguem sua trajetória. Ou mesmo nós partimos pelos mesmos motivos. É a hora da despedida, temporária ou definitiva. Não há nada a fazer, apenas aceitar, com dor, com amor, com medo, com esperança, ou com um misto de todos esses e de outros sentimentos.

Para muitas pessoas, perder um amor significa perder a capacidade de amar. Por esse motivo, há quem diga que o amor só trouxe infelicidade. Outros afirmam que se cansaram e decidiram nunca mais amar. Mas não é o outro que define nossa capacidade de amar, não é responsabilidade do outro lidar com os nossos sentimentos, com os nossos (des) amores, é nossa essa responsabilidade. Reconhecer isso significa manter o coração aberto para que os outros possam habitar, para sempre ou temporariamente, fazendo-nos companhia e tornando nossos dias mais agradáveis, mas sem colocar nossa felicidade nas mãos desse outro.

O outro também pode deixar de nos amar. Pode também querer habitar em outro lugar, ainda que nem sempre isso signifique deixar de amar. Nesse caso, não podemos fazer o outro prisioneiro do nosso desejo, do nosso querer, da nossa vontade, da nossa necessidade. Sem dúvida, amar não é prender ou dominar alguém, mas deixar que o outro seja livre. Se ficar em nossa vida que seja porque escolheu ficar. A liberdade é uma das bases do amor verdadeiro.

Há uma história linda de Rubem Alves que se chama “A menina e o pássaro encantado” e que ilustra com maestria essa premissa. O enredo envolve uma menina que tem como seu melhor amigo um pássaro encantado que vive livremente. Voa pelo mundo e retorna um tempo depois. O encanto está exatamente nesse aspecto: à medida que a saudade da menina aumenta mais o pássaro fica encantado. Cada vez que ele volta da sua viagem conta lindas histórias, suas penas adquirem as cores dos lugares por onde passa, sua beleza é o resultado do exercício da sua liberdade.  Saudade é o que faz com que o reencontro entre eles seja repleto de amor e felicidade!

Um dia, a menina, sofrendo pela dor da saudade, resolve prender o pássaro em uma gaiola, pois assim acredita que ele pode ser dela para sempre. O pássaro, sem poder voar, perde as cores, perde o brilho, perde a alegria, não conta mais histórias. O encanto acaba e, mais, o amor acaba. Leva um tempo para que a menina perceba que ela não ama aquele pássaro engaiolado. O pássaro que ela ama é o que voa livre e volta quando quer. Então, ela solta o pássaro que voa para longe e todos os dias ela se arruma aguardando o retorno do seu pássaro que pode chegar a qualquer momento e o reencontro é repleto de encanto e fortalece o amor entre eles.

Por isso, mesmo que algum dos seus amores resolva partir procure manter o seu coração aberto para o reencontro que quanto mais perpassado pela liberdade, mas belo e encantador será. Não esqueça que o seu amor tem um coração tão grande como o seu, que quer ser habitado, mas não aprisionado. Aprenda a lidar com as perdas, as faltas, as ausências, as despedidas. Lembre-se é no voo que cada um se (trans) forma e se (re) cria. Por isso, voe como o pássaro encantado e deixe teus amores voarem também. Aproveite a viagem e volte repleto de cores, brilhos e alegrias. Invista na espera do reencontro, valorize as vivências de seus amores. Seja feliz!

Wallisten Garcia, psicólogo, mestre em Psicologia e Doutor em Educação pela UFPR, especialista em Terapia Familiar, e professor na Estácio Curitiba

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