Sobre escolhas e desamor

Até onde conseguimos racionalizar o que sentimos?

Amor não é sentimento, é escolha! — Disse a terapeuta.

Minha régua de amor é o pensamento. Se fecho os olhos e penso numa situação banal e sorrio, automaticamente entendo que aquilo me faz feliz! Se me faz feliz automaticamente relaciono com amor. Romantização do amor, temos.

O amor romântico é cheio de parênteses, alguns delirantes que fogem a razão.

Amar é consciente.

Se amor de nada tem a ver com as narrativas construídas e disseminadas a partir do século XIX, amor é o que então?

Amor é escolha, e partindo desse princípio, posso amar comer uma torta de chocolate, uma roda de samba com amigos, posso escolher amar um milhão de coisas porque sendo escolha, escolho estar, fazer parte, escolho o caminho, escolho as coisas às quais quero construir memórias, afetos, mas veja só, coisas, não pessoas.

Escolhas são conscientes.

Pessoas não são coisas, amor não é sentimento, e nesse contexto, amor é construção, e nada pode ser construído nesse sentido sem uma via de mão dupla, quem escolheria amar sozinho?

Existem muitas linguagens do amor, mesmo as não verbalizadas, mas se o que nos diferencia é a linguagem, que leitura fazer de algo que não é legível o suficiente? Tudo parte de suposições!

Suponho que casualmente se confunda muitas emoções com amor.

A paixão é de longe a mãe das confusões!

Longe de mim desmerecer o apreço das paixões, não é um sentimento menor, visto que venho falando de amor e amor, de acordo com a terapeuta, é escolha!

Após essa afirmação da terapeuta, observando de fora, vejo que escolhi amar pessoas, as quais nunca foram via de mão dupla, escolhi amar o narciso em mim, a história impossível, a construção do amor romântico dos contos de fadas e das novelas, que nos diz: Lute!
Amar não é luta ou, ao menos não deveria ser.

Decidi pela cegueira momentânea da paixão que era possível dar amor sem troca.

Eu te amo é coisa séria ou ao menos deveria ser. Não dá para amar na brecha, no espaço que restou, no cantinho escondido, não dá para amar no sigilo, na mentira. Não dá pra amar assim, sendo desonesto.

Não dá para amar por inteiro com um coração que foi quebrado. Não dá para amar sozinho.

Na brecha do tempo de deslocamento, onde se assume o risco de amar numa escolha pouco reflexiva, se confunde tudo com amor, mas como haveria de ser amor sem construção, sem escolha? Pensando por esse viés me permito desamar os mal-entendidos, mal resolvidos e caminhos aos quais não escolhi.

Eu te desamo. Desamor para aceitar o que precisa ser evitado, desamor para não gerar dor com expectativas fantasiosas.

Desamor para que entenda que paixões sempre existirão e não se pode vulgarizar o amor. Não quero um pedaço de amor, um pedaço quebrado abandonado, quero um amor inteiro, amor que se dedica, que protege e prioriza.

Desamor para entender, que se uma flor nasce no asfalto, há de se ter espaço para construir amores possíveis, amores que sejam pontes e entender de uma vez que paixões covardes, só levantam muros.

 

 

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