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O poder da ficção no nosso cotidiano atual

por Juliana Portilho

Como tema da minha primeira participação para o “Afina Menina” pensei em algo que pudesse nos provocar para um outro lugar da percepção, num movimento que aventurasse o exercício da criatividade, especialmente frente aos desafios que a realidade concreta nos impõe nos dias de hoje.

Muito se fala sobre a ficção (cinema e literatura, principalmente) como uma boa forma de passar o tempo – um tempo que está aprisionado em casa e que também escapa aos dedos rumo à virtualidade. Mas, para além de uma maneira de caminhar no tempo (muito pertinente, inclusive), qual poderia ser o poder que a ficção exerce na nossa vida cotidiana e como podemos pensar nisso criativamente?

Se a ficção na história da sociedade ocidental esteve muito mais ao lado das paixões, a realidade concreta, por sua vez, esteve ao lado da razão. Essa dualidade clássica dificulta a possibilidade de pensarmos a ficção como uma condição humana que caminha junto às possibilidades de transformação concreta.

A psicanálise, desde o seu primórdio, falou sobre a importância das fantasias, desde a infância até a vida adulta, para dar conta dos enigmas fundamentais da vida. Nessa concepção, as fantasias têm estrutura de ficção e estão intimamente relacionadas ao cotidiano, servindo como uma das bases para como amamos, odiamos, sofremos …, mas também para como pensamos (o concreto e o abstrato), elaboramos ideias e formulamos perguntas. Basicamente, as nossas fantasias servem como um mecanismo psíquico organizador das nossas experiências.

Nesse ponto podemos pensar que a experiência afetiva e a racional caminham próximas, na maior parte das vezes de maneira indissociável, mas podemos ir além: a ficção promove uma reflexão mais profunda do que a razão, e isso porque a nossa percepção é direcionada para outros lugares que não apenas o concreto, ou melhor, o concreto passa a ser assimilado junto à ficção no olhar que aplicamos à realidade, como uma janela que possibilita que o olhar exista, e nesse horizonte não há dualidade.

Está presente na cultura, sobretudo na cultura popular contemporânea, uma incorporação da ideia de racionalidade que não necessariamente passa pelo predomínio da razão, mas que se justifica dela para valorizar algum efeito concreto, no entanto, o que está em jogo podem ser paixões disfarçadas. Parece que um dos motivos para que se precise disfarçar afetos (mesmo que isso não funcione muito bem na prática) foi privilegiar a razão à custa da emoção durante muito tempo. Podemos repensar isso.

Por exemplo, é muito comum que ao assistirmos um bom filme possamos nos identificar com algum dos personagens (por mais estranho que ele possa parecer).

Essa identificação acontece, fundamentalmente, porque o personagem é fictício. Por ser fictício ele pode promover um processo muito peculiar que é o da simulação. Nele, nós nos projetamos afetivamente e intelectualmente para outras situações, ou mesmo para simulações de outras formas de nós mesmos.

Assim, para além de um bom passa tempo (que ajuda a preservar a vida) podemos pensar que algumas ficções podem ser impulsionadoras de atos criativos, pois nos levam a criar outros lugares (ou novas possibilidades) para nós mesmos, inclusive estabelecendo transformações concretas.

Quem sabe possamos continuar a conversa discutindo algumas ficções que estão circulando no nosso cotidiano e que vem despertando identificações pessoais e sociais curiosas.

Juliana Portilho é Psicóloga, Psicanalista, Mestre e Doutora em Filosofia, Pós-doutoranda em Psicologia Clínica (IP-USP) e Professora da Estácio Curitiba.

Importante
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