O barulho que silencia

A cidade grita, berra, esperneia, as vezes o mundo parece uma enorme criança mimada de 6 anos de idade, que não suporta ouvir um não, para quaisquer que sejam os seus desejos.

Aproveitando o gancho do silêncio da semana passada, foi inevitável não abordar o tema barulho, e de barulho eu entendo mais que de silêncio.

O barulho ecoa cheio de verdades absolutas e definitivamente meu ouvido não suporta não definir os sons, são ensurdecedores os barulhos todos reunidos das grandes cidades, são cachorros, motores, ambulâncias, máquinas reformando, furadeiras, falatórios, pessoas gritando e tudo isso junto de alguma maneira nos distrai, não sei precisar o porquê exatamente, mas consigo perceber no olhar das pessoas nas ruas, outro hábito que adquiri ao longo do tempo, observar os olhares das pessoas nas ruas.

Quando eu tinha aproximadamente 8 anos de idade, numa aula de artes, o professor pediu para que identificássemos os instrumentos percebidos em determinadas músicas que ele colocava- silenciar para perceber os sons ao redor foi de uma riqueza que me marcou profundamente- uma turma de alunos entre 7 e 10 anos calados apenas prestando atenção, era quase improvável de se conceber nas turmas enormes das escolas públicas, achei aquilo tudo incrível, visto que quase 30 anos se passaram e eu me lembro com riqueza de detalhes.

É encantador observar bebês aprendendo a se comunicar de acordo com os sons que vão percebendo, como são sensíveis os ouvidos, como somos insensíveis na produção de barulho, como somos eficazes na produção de stress sonoro.

Essa sensibilidade, que veio dos ensinamentos da educação infantil, interferiram de várias formas na minha percepção sobre o mundo, embora meus pais sejam cristãos, porém não protestantes, cresci enfiada dentro de igrejas justamente porque a maioria da família do meu pai é evangélica, logo, me levavam para várias delas- e deve ser destas visitas que vem a minha agonia dos pastores protestantes- normalmente homens gritando palavras de ordem, cheios de convicção das verdades absolutas que carregam, afirmações estridentes as quais não consigo nem mensurar minha gastura.

Nunca me pegou o fato de gritarem para me convencer de algo, tenho comigo que as pessoas que gritam de alguma maneira estão fora do seu centro e são totalmente conduzidas pela emoção e longe de mim censurar a emoção, é algo particular querer emoções organizadas, ser intensa nelas sempre me causou prejuízos, hoje um pouco mais madura, evito sempre que posso.

Não tenho afeição por lugares muito lotados, música muito alta e mal orquestrada me deixa confusa, confusão me faz querer sair de onde estou, me coloca ansiosa de diferentes maneiras, o excesso de barulho enquanto converso se torna automaticamente uma competição sobre quem fala mais alto.

Como atriz de teatro que por tantos anos fui, sei bem projetar a minha voz, as vezes sem perceber me pego num lugar de disputa em quem fala mais alto, seja sentada com amigos em um bar ou no meio de uma discussão acalorada sobre política.

Tenho dificuldades com afirmações estridentes, vozes estridentes e desafinados. São tantas as crenças gritadas por falsos profetas que tantas vezes me pergunto se tais inflexões lobotomizam aqueles que não suportam o silêncio.

Cresci me vendo sob o olhar dos outros como uma pessoa irritada, precisei sair de um casamento inflamado por discussões desnecessárias, mudar de cidade, morar com outras pessoas, e finalmente ficar sozinha para perceber que a irritação vinha do excesso de barulho, que a irritação era produzida por ambientes completamente agitados e sem diálogo.

O barulho não me permite raciocinar e eu gosto de raciocinar. O coração fica descompassado quando não consigo me comunicar e diálogo com excesso de barulho são caminhos completamente fáceis para se obter uma discussão.

No audiovisual, minha área de atuação, o som vai compor completamente o rumo que seguirá a narrativa, do romance ao drama, o som é fundamental para nos localizarmos no tempo e no espaço, trabalhando com audiovisual é fundamental que tenhamos sensibilidade para perceber as necessidades de cada cena e isso pode ser também um dos motivos que me fazem uma pessoa condicionada a ter este tipo de percepção.

Um amigo virtual, destes que surgiram com a pandemia, disse que as pessoas que não aproveitaram a pandemia para evoluírem, estão perdendo uma grande oportunidade e eu discordei dele prontamente por motivos simples- se convivendo as pessoas não conseguem se ouvir, isoladas não sei se facilita muito.

Parece que viver em sociedade é lidar com direcionamentos, nós nos construímos enquanto cidadãos sob o olhar do outro, não é possível culpar o indivíduo exclusivamente, o barulho não nos permite, como promover mudanças em si mesmo senão conseguimos nos perceber, como ter presença através do silêncio? Como nos desnudar e nos silenciar de todas as camadas sociais que nos colocaram?

Tanta gente indo enfim para a terapia diz muito, o silêncio nem sempre é benéfico, o silêncio pode criar hipóteses exclusivamente das nossas cabeças, mas o excesso de barulho nos silencia automaticamente, porque ninguém se ouve, não existe troca, sem troca não há aprendizado.

Além de alta, minha voz é grave, logo, automaticamente passo a ser uma pessoa “escandalosa” indiferente do que eu esteja falando. Sei fazer barulho e como fazer, lado esse que de alguma maneira, mesmo inconscientemente eu quis abafar ou foi censurado durante a vida, procuro entender melhor estas questões, aos poucos…

Afinal, eu sou mulher e ser mulher barulhenta diz muito sobre valentia, em uma sociedade patriarcal como a nossa, valentia diz muito sobre o quão capazes somos de lidar com os barulhos que nos atribuem loucura, que pedem ajuda ou com os silêncios que são cúmplices de tantas violências, mas essa discussão, vai ficar para um outro dia…

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