Cartas

Dói pra respirar

Dói pra respirar – 27 de julho de 2019

A dor da sua partida consumia todo o meu corpo, sentia dores tão fortes da cabeça aos pés, doía pra respirar. Não tive coragem de ir ao seu sepultamento, como doía pra respirar…

Foi quando Ulisses disse: Arrume-se, vamos dar comida aos cachorros e partir em direção a Bituruna (PR).

Não me lembro exatamente a hora em que saímos, nem mesmo a hora em que ele me propôs essa viagem… Reuni poucos itens pessoais, a polaroid, o binóculo e fomos…

No caminho, deixei tocando no rádio a playlist que você admirava… “Janinha, quando escuto aquela rádio, tenho certeza que foi você que fez a programação musical, porque ali só tem músicas que eu gosto… Como a gente se parece!”.

E seguimos… Contive o choro diversas vezes… Doía pra respirar…

Na semana anterior, havíamos ido a União da Vitória (que novamente estava no trajeto), e lá fiz fotos do Cristo Redentor, uma estátua com 27 metros. Estava guardando para mostrar para você, nessa ida pra lá, pedi tanto pela sua volta, pela sua recuperação…

Continuando a viagem, anoiteceu, e em União da Vitória, no meio da estrada, eu vi o céu mais lindo que jamais havia visto na vida… Naquela noite, minha prima, olhei o céu por nós duas.

Ulisses estacionou ao lado da estrada e olhamos aquele céu através do binóculo (que quase ficou em Curitiba). Ele fotografou e deixou registrada a colcha de estrelas e a poeira cósmica que elas espalham pelo céu… brinquei, disse que era você soprando as estrelas…

Doía pra respirar…

Novamente, fomos ao morro do Cristo, e fiz as mesmas fotos, só que de noite… Ainda vou te mostrar… Agradeci pela sua vida, pelo presente de sua existência, seguimos viagem…

Chegamos a Bituruna, já eram 22h, depois de alocados, fomos ver a maior estátua de santa colorida do Brasil, a Santa Bárbara… Subimos um morro, e lá estava ela, majestosa… Não conseguia pensar em nada quando a vi. Nem orar eu consegui… eu só olhei pra ela e disse: Meu Deus, como você é linda!

O que a recobria não era o céu escuro da noite, mas sim um manto de estrelas que eu jamais vou esquecer. Me perguntei qual delas era você, havia tantas me olhando… Voltamos ao hotel, no dia seguinte, teríamos que seguir viagem…

Às 5h da manhã fomos expulsos da cama pelo buzinaço dos caminhoneiros em virtude da Festa de São Cristóvão. Daquele jeito que você bem conhece, Ulisses disse que jamais voltaria a Bituruna… Partimos rumo à Curitiba, mas antes me despedi da Santa Bárbara, agora, com o dia claro… Repeti a ela: Meu Deus, como você é linda! Parece que me sorria…

O trajeto foi repleto de novas cidades e caminhos… Em Mallet, conhecemos a igreja de São Miguel Arcanjo, tem uma réplica dela em Curitiba, mas não se parece em nada com a original… Dava pena de entrar, de pisar naquele piso de madeira. Prima, foi por sorte. Não haveria missa naquele domingo, a igreja estava fechada, e o senhor que cuida dela foi ali só pra regar as plantas… Pensei: somos abençoados…

Seguimos viagem… Fizemos mais algumas fotos, registramos nosso passeio, feito para tentar aplacar a presença da sua ausência e a falta que você tem feito.

Chegamos em casa, e estava tudo do mesmo jeito… Seu nome ainda na bíblia, não tive coragem de tirar… Esteja em paz, minha prima…

Até a próxima…