Quando o uso de telas na infância exige atenção
Pediatra explica que dificuldade para desligar o celular não indica dependência por si só; impactos na rotina ajudam na avaliação.
Dificuldade para desligar o celular, choro e negociações ao fim de um vídeo ou jogo não significam, por si só, que uma criança tenha dependência. Segundo a pediatra Marli Rio, é preciso observar se o uso de telas começa a causar prejuízos na rotina e na vida da criança.
A médica lembra que as crianças ainda aprendem a lidar com frustrações e precisam da ajuda dos adultos nesses momentos. Ao mesmo tempo, nem todo comportamento deve ser tratado apenas como birra. A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno por jogos digitais, caracterizado pela perda de controle, pela prioridade crescente dada ao jogo e pela continuidade da prática apesar de consequências negativas, com prejuízo significativo na vida da pessoa. Marli ressalta que esse diagnóstico não deve ser aplicado automaticamente a qualquer criança que use muito o celular.
O que observar além do tempo de tela
Para avaliar o uso das telas na infância, a pediatra orienta olhar além do relógio. Vale observar o que está ficando de fora da rotina: se a criança está dormindo menos, deixou de brincar, de se movimentar ou de participar das atividades da família. O conteúdo acessado, o contexto do uso e o que a tela substitui também importam.
De acordo com Marli, outro sinal de atenção é quando o aparelho se torna indispensável para enfrentar qualquer espera, tédio ou desconforto. Crises frequentes ao interromper o uso, isolamento e mudanças no sono ou na alimentação merecem uma conversa com o pediatra. “Não é necessário esperar que a situação receba o nome de ‘vício’ para buscar orientação”, afirma.
Limites precisam caber na rotina da família
A conversa sobre telas também precisa considerar a realidade de quem cuida. Em uma casa com trabalho, tarefas acumuladas e pouco apoio, o celular pode ocupar os intervalos em que o adulto precisa dar conta de outras atividades. Segundo a pediatra, a participação dos pais e dos demais cuidadores faz parte da mudança.
Como caminho possível, Marli sugere construir uma rotina previsível, combinar o momento de encerrar o uso, oferecer outras atividades e sustentar os limites com calma. A criança pode se frustrar, e o adulto pode acolher essa reação sem devolver imediatamente o aparelho. As combinações devem ser adequadas à idade e possíveis de manter no cotidiano.
Para a pediatra, proteger a infância também envolve garantir espaço para brincar, conversar, descansar e descobrir interesses fora do ambiente digital.



