IA em clínicas exige processos claros e supervisão humana
Pesquisa da MV indica uso de IA por 66,1% dos médicos participantes, mas levantamento não representa toda a classe médica brasileira.
A inteligência artificial já faz parte da prática clínica de 66,1% dos médicos que participaram da pesquisa MV Insights, divulgada em setembro de 2026. Segundo o neurocirurgião Isaac Bertuol, porém, automatizar tarefas em clínicas e consultórios sem organizar os fluxos de trabalho pode manter ou criar gargalos no atendimento.
Conduzido pela empresa de tecnologia em saúde MV, o levantamento coletou respostas entre outubro de 2025 e março de 2026. A amostra é exploratória e não representa estatisticamente toda a classe médica brasileira. Portanto, o resultado contextualiza a adoção de IA, mas não mede a qualidade da gestão dos serviços nem demonstra que a tecnologia, por si só, melhora o atendimento.
Definição de responsabilidades vem antes da ferramenta
Para Bertuol, antes de contratar um sistema, a clínica deve identificar tarefas repetitivas, informações que se perdem entre setores e decisões que ficam paradas à espera do médico. Recursos de IA podem apoiar rascunhos de documentos, sínteses de informações e organização de mensagens, desde que haja critérios de revisão, responsáveis definidos e limites para o acesso aos dados de pacientes.
No atendimento por mensagens, por exemplo, a equipe precisa distinguir demandas administrativas daquelas que exigem encaminhamento a um profissional de saúde. Sem essa divisão, a rapidez da automação pode ampliar o alcance de uma orientação inadequada, avalia o médico.
A Resolução nº 2.454/2026 do Conselho Federal de Medicina, citada no material, estabelece a IA como apoio e mantém o médico como responsável final por decisões clínicas, diagnósticas, terapêuticas e prognósticas. A norma também exige proteção dos dados de saúde e proíbe que diagnósticos e decisões terapêuticas sejam comunicados pela tecnologia sem mediação humana.
Como avaliar se a automação funcionou
Bertuol recomenda começar por um processo delimitado e comparar o tempo gasto antes e depois da adoção, a necessidade de correções e a quantidade de solicitações resolvidas. A avaliação deve considerar também o trabalho necessário para revisar o conteúdo produzido pelo sistema.
Segundo ele, o ganho não se resume aos minutos economizados: é preciso observar se a equipe passou a resolver melhor as demandas e se o médico conseguiu dedicar mais atenção ao paciente e à gestão.



