Luto não tem prazo: como acolher a ausência sem culpa
Psicanalista Glaucia Santana explica que emoções podem oscilar e aponta quando o sofrimento precisa de avaliação profissional.
O luto não segue um prazo e superar uma perda não significa esquecer quem morreu. Segundo a psicanalista Glaucia Santana, do Espaço Hi, na Mooca, em São Paulo, o processo envolve encontrar gradualmente uma forma de continuar vivendo sem a presença física da pessoa, preservando lembranças e afetos.
Tristeza, saudade, culpa, raiva, ansiedade e até alívio podem fazer parte dessa experiência, especialmente quando a morte ocorreu após um período prolongado de sofrimento. De acordo com a especialista, reações isoladas não determinam a intensidade do amor ou do vínculo que existia.
As emoções não acontecem em uma ordem fixa
Embora se fale nas cinco fases do luto — negação, raiva, barganha, depressão e aceitação —, elas não precisam surgir em sequência nem ser vividas por todas as pessoas. A relação com quem morreu, as circunstâncias da perda e a rede de apoio influenciam o processo.
“A dor não é linear. É possível acordar bem, conseguir trabalhar, conversar e até sorrir, mas sentir uma tristeza profunda ao encontrar um objeto ou lembrar de uma data especial”, afirma Glaucia Santana. Para ela, essa oscilação não significa que a pessoa voltou ao início do processo.
A culpa também pode aparecer em pensamentos sobre conversas, decisões e despedidas que ficaram inacabadas. Segundo a psicanalista, a mente pode tentar reconstruir acontecimentos para buscar algum controle sobre uma situação dolorosa e irreversível.
Rotina e rede de apoio podem oferecer cuidado
Manter horários de alimentação, respeitar o sono, praticar atividade física quando possível e preservar o contato com pessoas de confiança são cuidados que, segundo a fonte, podem ajudar em períodos de maior vulnerabilidade emocional. Isso não significa evitar a tristeza, mas abrir espaço para cuidado e conexão.
Para familiares e amigas, ouvir sem julgar, respeitar o silêncio e oferecer ajuda prática podem acolher mais do que frases que cobram reação ou estabelecem um tempo para a dor. “A escuta, a presença e o respeito ao tempo do outro são formas muito importantes de cuidado”, orienta a especialista.
Quando buscar avaliação profissional
Glaucia Santana destaca que dificuldades intensas para realizar atividades básicas, isolamento prolongado, desesperança constante ou pensamentos de morte merecem avaliação profissional. Em alguns casos, podem estar presentes depressão ou transtorno do luto prolongado, condições que exigem atenção específica e não devem ser confundidas automaticamente com o processo natural de perda.
Segundo a psicanalista, o acompanhamento psicológico pode oferecer um espaço para elaborar sentimentos, compreender a ausência e construir novas formas de se relacionar com as lembranças.



