IA amplia risco de imagens sexuais falsas de adolescentes

Em 2025, denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil cresceram 19,3%, segundo a SaferNet Brasil.

Ferramentas de inteligência artificial podem criar imagens falsas de nudez a partir de fotos de pessoas vestidas, ampliando os riscos de exposição e violência sexual contra crianças e adolescentes no ambiente digital. Em 2026, o Ministério da Justiça e Segurança Pública pediu o bloqueio de 80 sites que ofereciam esse tipo de recurso, segundo o Centro Marista de Defesa da Infância (CMDI).

De acordo com a Secretaria Nacional de Direitos Digitais, parte das plataformas analisadas não exigia cadastro, comprovação de identidade ou verificação de idade. Quando envolvem crianças e adolescentes, imagens sexualizadas produzidas ou manipuladas por essas ferramentas podem configurar crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Denúncias cresceram em 2025

A Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos recebeu 63.214 denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil em 2025, alta de 19,3% em relação a 2024, segundo a SaferNet Brasil. Para a organização, o uso de inteligência artificial foi um dos fatores que contribuíram para o aumento.

O estudo Disrupting Harm in Brazil, realizado pelo UNICEF Innocenti, pela ECPAT International e pela INTERPOL, aponta que 19% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que usam a internet sofreram exploração ou abuso sexual facilitados pela tecnologia em um período de um ano. O índice equivale a cerca de 3 milhões de pessoas. Entre os participantes, 3% relataram que alguém usou IA para criar conteúdo sexual com sua aparência.

Nos registros de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil, houve 4.063 vítimas em 2025, conforme o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Meninas representavam 84,2% dos casos; as faixas de 14 a 15 anos e de 12 a 13 anos concentravam, respectivamente, 30% e 27% das vítimas. O recorte não mede especificamente conteúdos criados com IA nem todas as formas de violência sexual online.

Acolhimento e proteção sem culpabilização

No estudo Disrupting Harm in Brazil, 34% dos entrevistados não contaram a ninguém sobre a violência sofrida, e, em 49% dos casos, o autor era alguém conhecido da vítima. Para Cecília Landarin, analista de projetos do CMDI, adultos devem manter espaços de diálogo e confiança para que crianças e adolescentes possam relatar situações de risco.

Segundo a especialista, quem acolhe um relato deve oferecer um ambiente seguro e livre de julgamentos, validar os sentimentos da vítima e não culpabilizá-la pelo uso da tecnologia ou pelas circunstâncias da violência. Ela também orienta comunicar a situação a um órgão público ou a canais de denúncia, inclusive diante de suspeita, para que sejam adotadas medidas de proteção e acompanhamento.

A Lei nº 15.487/2026 prevê medidas de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive no ambiente digital e com uso de inteligência artificial, além de atendimento psicológico e psicossocial especializado a vítimas e testemunhas. Já o ECA Digital, Lei nº 15.211/2025, estabelece obrigações para serviços digitais acessíveis a esse público, como verificação de idade e configurações de privacidade e proteção de dados no nível mais protetivo disponível.

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