NR-1: cumprir a norma ou assumir responsabilidade?
Breno Praça, CEO da Keevo Software, defende que a gestão de riscos psicossociais considere as condições reais de trabalho.
Breno Praça*
A entrada dos riscos psicossociais na agenda de saúde e segurança do trabalho traz uma pergunta importante para as empresas: vamos tratar a NR-1 apenas como uma exigência a cumprir ou como uma oportunidade para compreender melhor a realidade das pessoas no trabalho?
Em muitas conversas sobre o tema, percebo que a preocupação inicial está em encontrar uma ferramenta para gerar informações para o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e demonstrar que as etapas necessárias foram realizadas. Essa atenção ao cumprimento da norma é legítima, mas, sozinha, pode levar a uma implementação superficial — mais voltada a comprovar uma ação do que a entender o que ela revela.
O que observo é uma distância entre dois extremos: organizações concentradas em cumprir a exigência formal e abordagens que ampliam a discussão sem considerar, com clareza, qual é o papel da empresa. Encontrar equilíbrio entre eles é essencial.
A empresa não é uma clínica e não deve assumir o tratamento da saúde mental dos funcionários. Mas isso não elimina sua responsabilidade sobre as condições de trabalho e sobre a saúde das pessoas que fazem parte da organização. Assim como ocorre com outros aspectos da saúde, é preciso reconhecer que o ambiente e a forma como o trabalho é organizado merecem atenção.
Essa reflexão vale para empresas de diferentes portes, embora os desafios sejam distintos. Nas grandes organizações, o número de pessoas e a complexidade das operações tornam mais difícil fazer com que as ações cheguem a todos. Ter recursos e uma estrutura maior pode ajudar, mas não garante que uma iniciativa alcance a rotina das equipes.
As pequenas empresas, por sua vez, podem ter mais proximidade com os funcionários e facilidade para mobilizar algumas ações. Ao mesmo tempo, muitas estão concentradas em manter o negócio, crescer e garantir sua continuidade. Essa pressão pode deixar o tema em segundo plano, ainda que ele também seja relevante para organizações menores.
Em qualquer contexto, quando a prioridade é apenas cumprir a norma, a empresa pode investir em processos e ferramentas sem chegar aos problemas que precisa compreender. O diagnóstico é importante, mas seu valor depende do uso que se faz das informações e da disposição para refletir sobre a realidade do trabalho.
A NR-1 pode ser mais do que uma obrigação. Pode ajudar a empresa a fazer perguntas necessárias: as responsabilidades estão claras? As equipes têm condições adequadas para realizar suas atividades? As ações planejadas fazem sentido para quem vive o trabalho no dia a dia?
Cumprir a norma é necessário. Mas transformar essa exigência em uma oportunidade de olhar com mais atenção para as pessoas é o que pode dar consistência à gestão dos riscos psicossociais.
*É CEO Keevo Software



