Cinco livros brasileiros adaptados para o cinema

De relatos autobiográficos à metaficção, obras nacionais ganharam novas leituras ao chegar às telas.

De relatos autobiográficos a fábulas e metaficção, veja como histórias

marcantes da literatura nacional ganharam novas camadas e significados ao

saltarem das páginas para as telonas

Por Cesar Garcia Lima*

Nesta seleção de títulos, tive em mente livros que são destaques no

universo literário brasileiro de várias épocas e que, transpostos para as

telas, são redimensionados em seu alcance ficcional, incluindo, formas

diversas como o relato autobiográfico e a metaficção

AINDA ESTOU AQUI (2015), de Marcelo Rubens Paiva

O livro ganhou um novo alcance a partir da repercussão internacional de sua

adaptação para o cinema em 2024, dirigida por Walter Salles e protagonizada

por Fernanda Torres. O relato autobiográfico do autor paulistano percorre

sua infância e vida adulta, tendo como um dos marcos a prisão de seu pai, o

deputado Rubens Paiva, em 1971, durante a ditadura militar. O foco

principal, no entanto, é a relação com a mãe, a advogada Eunice Paiva. O

livro, bem mais denso e multifacetado do que a versão para as telas, entra

em detalhes sobre a trajetória militante de Eunice depois do

desaparecimento do marido.

EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS (2005), de Marçal

Aquino

O romance traz como elemento de destaque a complexidade psicológica de seus

protagonistas: o fotógrafo Cauby, o pastor Ernani e a mulher dele, Lavínia,

em uma cidade da Amazônia dominada pelo garimpo. Nesse cenário ardente (em

vários sentidos), o relacionamento entre Cauby e Lavínia se intensifica e

expõe fragilidades e contrastes entre a urbanidade e o interior. A versão

cinematográfica dos diretores Renato Ciasca e Beto Brant, de 2011,

surpreende por não explicar em excesso as ótimas digressões do livro.

A HORA DA ESTRELA (1977), de Clarice Lispector

A novela de Clarice Lispector é um livro único na literatura brasileira com

um irônico narrador (Rodrigo M) metaficcional que especula sobre sua

própria vida a partir do sofrimento de Macabéa, uma personagem marcada pela

ingenuidade e a pobreza. Em 1985, a diretora Suzana Amaral cometeu a proeza

de levar essa história para as telas excluindo esse narrador e deixando

brilhar em sua humildade a singela protagonista interpretada por Marcélia

Cartaxo. O que parecia uma heresia narrativa se converte em um dos filmes

mais expressivos do caráter brasileiro.

O PAGADOR DE PROMESSAS (1960), de Dias Gomes

A peça de Dias Gomes é baseada na simplicidade de seu personagem principal,

Zé do Burro, que busca cumprir uma promessa em agradecimento à vida de seu

animal de estimação. Como uma fábula questionadora, o filme contrapõe a fé

do personagem e a sociedade e seus mecanismos de controle. Adaptado para o

cinema por Anselmo Duarte, a história ganhou caráter universal, foi

premiado no Festival de Cannes de 1962, e subsiste até hoje em uma versão

em preto e branco protagonizada por Leonardo Villar e Glória Menezes.

RELATO DE UM CERTO ORIENTE (1989), de Milton Hatoum

A prosa labiríntica do autor amazonense ganhou versão cinematográfica em

preto e branco de Marcelo Gomes e é encenada de forma mais linear do que o

livro, mas não menos fascinante e envolvente. Do Líbano à Amazônia, os

irmãos Emilie e Emir, católicos, atravessam os mares para fugir da guerra,

mas enfrentam suas próprias paixões e preconceitos para se estabelecerem no

Brasil. É, ao mesmo tempo, uma viagem etnográfica e existencial.

*Cesar Garcia Lima

encontrou uma forma de olhar o mundo. Nascido em Rio Branco, no Acre, em

1964, e vivendo no Rio de Janeiro desde 1995, o escritor construiu uma obra

marcada pela atenção aos pequenos acontecimentos, às identidades em

trânsito e às relações humanas. Depois de publicar quatro livros de poesia,

ele consolida sua produção em prosa com Se você não tem paz interior então

você vem aqui pra capital

(Editora

7Letras, 2025), livro de contos, e Vida desencaixada

(Editora

Patuá, 2024), reunião de crônicas que, neste segundo semestre de 2026,

circula pelo circuito Sesc Pulsar em dez unidades do estado do Rio de

Janeiro.

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