Na UTI, o cuidado renal exige resposta coordenada

Marcos Gurgel aborda a terapia renal contínua em pacientes críticos e a integração entre equipes, tecnologia e capacitação.

Por Marcos Gurgel, Diretor Comercial Avitum da B. Braun

Na UTI, situações como uma infecção grave, um trauma ou uma cirurgia complexa podem alterar o estado do paciente em poucas horas e levá-lo a uma condição crítica, com comprometimento de diferentes órgãos, incluindo os rins. Quando isso acontece, é importante que a equipe atue de forma coordenada, pois o cuidado renal passa a integrar um quadro clínico que exige atenção constante.

Um estudo prospectivo brasileiro, publicado em 2021 e realizado com pacientes internados em unidades de terapia intensiva, identificou lesão renal aguda em cerca de um a cada cinco participantes. Entre os pacientes diagnosticados, aproximadamente 27% precisaram de alguma forma de terapia renal substitutiva. Os resultados ajudam a dimensionar a frequência com que o comprometimento dos rins integra o cuidado ao paciente crítico.

Em determinados casos, especialmente quando o paciente apresenta instabilidade hemodinâmica, uma das opções necessárias é a terapia renal contínua. Esse quadro acontece quando a circulação e a pressão arterial não se mantêm estáveis o suficiente para garantir, de forma adequada, o fluxo de sangue aos órgãos, situação comum em pacientes muito graves e que pode comprometer ainda mais sua condição clínica. Nesses casos, mudanças bruscas de volume podem ser mal toleradas. Por funcionar de maneira prolongada, a terapia renal contínua retira líquidos e substâncias do organismo de forma mais gradual do que a hemodiálise convencional.

A condução dessa terapia exige uma sequência coordenada de decisões e cuidados,já que a prescrição pode precisar ser ajustada conforme a resposta clínica do paciente e os resultados dos exames laboratoriais. Segundo estudo publicado no Brazilian Journal of Health Economics, estratégias adequadas de terapia renal contínua foram associadas à redução de até 57,8% do risco de progressão para doença renal crônica em pacientes com lesão renal aguda.

Uma terapia que depende de várias equipes

Por envolver pacientes instáveis, ajustes frequentes e monitoramento contínuo, a terapia renal contínua depende diretamente da integração entre diferentes equipes. Nefrologistas e intensivistas acompanham a evolução clínica e ajustam a terapia quando necessário, enquanto a enfermagem prepara e monitora o equipamento, acompanha o circuito e responde a possíveis intercorrências ao longo do tratamento. A gestão hospitalar completa essa engrenagem ao garantir estrutura, profissionais capacitados, insumos e condições assistenciais e administrativas para que a terapia seja conduzida de forma sucessiva e segura.

Nesse cenário, a tecnologia funciona como parte dessa estrutura de cuidado. Hoje já existem equipamentos desenvolvidos especificamente para a terapia renal contínua em pacientes críticos, com recursos que permitem sustentar diferentes modalidades de tratamento de forma prolongada e adaptada às necessidades clínicas de cada caso. Para que esse potencial seja aproveitado, é importante que as tecnologias ofereçam segurança e sejam de fácil e simples manuseio. Uma equipe preparada, apoiada por equipamentos com interface intuitiva, contribui para respostas mais rápidas diante de intercorrências e mudanças clínicas durante a terapia.

Capacitar a equipe faz parte do cuidado

A enfermagem ocupa uma posição central na terapia renal contínua, já que prepara o equipamento, acompanha o circuito e precisa responder rapidamente a alarmes e intercorrências ao longo do tratamento. Por isso, a capacitação deve ir além do contato inicial com a tecnologia.

Porém, esse preparo também precisa envolver os demais profissionais, já que a diálise contínua exige a atuação de uma equipe multidisciplinar, formada por médicos, enfermeiros, técnicos, auditores e gestores. Todos precisam ter uma base de conhecimento sobre a importância da terapia para garantir o acesso do paciente crítico ao tratamento e avaliar sua necessidade ao longo do cuidado.Para os hospitais, estruturar esse aprendizado de forma contínua é parte do próprio cuidado, porque garante o acesso, aproxima tecnologia, padroniza protocolos e trabalho em equipe de uma prática mais segura e organizada.No paciente crítico, o cuidado renal faz parte de um contexto em que cada decisão pode influenciar a estabilidade clínica e a possibilidade de recuperação.

Por isso, garantir que a terapia seja bem indicada, conduzida de forma contínua e acompanhada por profissionais preparados tem um impacto que vai além da operação de um equipamento. Na prática, significa oferecer ao paciente as melhores condições possíveis durante um momento de extrema vulnerabilidade. Em terapia intensiva, integrar conhecimento, tecnologia e trabalho em equipe é parte fundamental de um cuidado que precisa ser, ao mesmo tempo, preciso e humano.

*Marcos Gurgel é Diretor Comercial Avitum da B.Braun.

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