O olhar 360° que o acolhimento oncológico exige
Diretor clínico do Hospital Mário Kroeff defende que o cuidado no câncer de mama inclua apoio emocional, social e físico.
Por Dr. Silvio Silva Fernandes – diretor clínico do Hospital Mário Kroeff, referência em tratamento oncológico pelo SUS no Rio de Janeiro.
Todo mês de outubro, o país se cobre de laços rosa. Campanhas, iluminações especiais, fachadas coloridas — e um lembrete importante, repetido com razão: faça sua mamografia. É uma mensagem essencial, que já salvou e continua salvando milhares de vidas. Mas depois de trinta e cinco anos de medicina, boa parte deles dedicados à oncologia, aprendi que o Outubro Rosa não pode se resumir a um exame. Ele precisa também ser um convite para olhar o câncer de mama de forma inteira, o que chamo, no dia a dia do Hospital Mário Kroeff, de olhar 360° sobre o acolhimento.
Explico o que quero dizer com isso. Quando uma mulher recebe o diagnóstico de câncer de mama, o que muda na vida dela não é só o corpo. Muda a relação com a própria imagem. Muda a rotina de trabalho, muitas vezes a renda. Muda a forma como ela se coloca diante dos filhos, do parceiro, da família. Muda o sono, o apetite, a autoestima, o desejo. Tratar apenas o tumor e ignorar tudo isso é entregar à paciente um tratamento incompleto, tecnicamente correto, mas humanamente insuficiente.
É por isso que, no Mário Kroeff, o cuidado com a mulher que enfrenta câncer de mama nunca começa e termina na mastologia. Ele se estende à psicologia, que ajuda a processar o impacto emocional do diagnóstico. À nutrição, que sustenta o corpo durante tratamentos exigentes. À fisioterapia, fundamental na recuperação de cirurgias e na prevenção de sequelas como o linfedema. Ao serviço social, que muitas vezes é quem segura a paciente quando o problema não é clínico, mas financeiro ou familiar. Cada uma dessas frentes cuida de uma dimensão que o bisturi, sozinho, não alcança.
Tenho visto, ano após ano, o quanto essa rede faz diferença no resultado do tratamento. Uma paciente acompanhada de forma integral adere melhor ao protocolo, falta menos às sessões, enfrenta com mais firmeza os efeitos colaterais e isso é mensurável, costuma responder melhor ao tratamento. Acolhimento não é um extra opcional na oncologia. É parte do protocolo, tão relevante quanto a droga certa na dose certa.
Há também uma dimensão do olhar 360° que envolve tempo, e aqui falo diretamente com quem está lendo este texto, tenha histórico familiar da doença ou não. O maior inimigo do câncer de mama ainda é o diagnóstico tardio. Vejo, com frequência, mulheres que adiaram a mamografia por medo, por falta de tempo, por acharem que "não era hora" ou, pior, por não terem com quem deixar os filhos para ir ao posto de saúde. Um olhar 360° sobre a prevenção também significa enxergar essas barreiras, e é papel de gestores de saúde, de médicos e da sociedade ajudar a derrubá-las, não apenas repetir a recomendação do exame.
No Hospital Mário Kroeff, essa visão integral não é discurso: é rotina construída ao longo de oito décadas cuidando de quem, na maioria das vezes, não tem outra porta de entrada para o tratamento oncológico. Somos hoje um dos maiores prestadores privados, e filantrópicos de serviços oncológicos ao SUS no estado do Rio de Janeiro, com 100% dos atendimentos realizados pelo sistema público. Isso nos coloca diante de uma responsabilidade que vai muito além da técnica: a de garantir que cada mulher atendida aqui saia não apenas com um plano de tratamento, mas com uma rede de cuidado em volta dela.
Neste Outubro Rosa, meu convite, como médico e como diretor clínico, é duplo. Primeiro, o óbvio e necessário: não adie o exame, converse com seu médico sobre sua história familiar, conheça seu corpo. Segundo um convite menos falado, mas igualmente urgente: que a sociedade, famílias, empresas, gestores de saúde amplie o olhar sobre o que significa cuidar de uma mulher com câncer de mama. Porque a cura completa não depende só da medicina que ataca o tumor. Depende, também, do acolhimento que sustenta a pessoa durante todo o caminho.



