Comportamentos de risco não permitem concluir impulsividade ou transtorno mental
Psicólogos explicam por que contexto, emoções e percepção de perigo devem ser considerados antes de associar atitudes extremas a diagnósticos.
A morte de William Chapman, de 23 anos, após ele entrar no recinto de um tigre no Yorkshire Wildlife Park, na Inglaterra, reacendeu o debate sobre os fatores envolvidos em comportamentos de risco. Segundo informações relatadas pela família, o jovem enfrentava problemas graves de saúde mental e usava medicamentos, mas as circunstâncias e eventuais relações com a morte devem ser determinadas pelas autoridades responsáveis pela investigação.
Para os psicólogos Údela Nicoletti e Vinícius Dorneles, especialistas em Terapia Comportamental Dialética (DBT), não é possível associar diretamente uma atitude extrema à impulsividade, a um transtorno mental ou à intenção de morrer sem compreender o contexto. “Nem todo comportamento de risco é impulsivo, nem toda impulsividade decorre de um transtorno mental e nem todo comportamento aparentemente incompreensível representa uma intenção de morrer”, afirma Údela.
Contexto é parte da compreensão
Segundo Údela, emoções intensas, dificuldades de regulação emocional e mudanças na avaliação das consequências podem influenciar decisões, mas não se manifestam da mesma forma em todas as pessoas. Por isso, esses elementos isolados não permitem definir as razões de um comportamento.
Vinícius Dorneles afirma que a interpretação inicial de uma atitude arriscada costuma ser a impulsividade, embora o comportamento humano envolva mais fatores. De acordo com o psicólogo, é necessário considerar o contexto, as emoções presentes, a forma como a pessoa avalia o perigo e as consequências que imagina. Sem essas informações, explicações sobre um caso específico permanecem no campo das hipóteses.
O que propõe a análise funcional
Na DBT, uma das ferramentas usadas para compreender comportamentos é a análise funcional. Segundo os especialistas, ela investiga acontecimentos anteriores à ação, emoções, pensamentos, condições envolvidas e consequências percebidas depois do comportamento.
“Antes de tentar modificar um comportamento, precisamos compreender sua função. E compreender não significa justificar, assim como reconhecer o sofrimento não significa presumir um diagnóstico”, explica Údela. A abordagem também trabalha habilidades de regulação emocional, tolerância ao mal-estar, atenção plena e efetividade interpessoal.
Segundo Vinícius, sentir uma emoção forte não significa necessariamente perder o controle ou agir de forma impulsiva. Na DBT, o desenvolvimento de habilidades busca ajudar a pessoa a reconhecer experiências internas, avaliar possibilidades e escolher respostas que reduzam riscos e favoreçam objetivos de longo prazo.
Os psicólogos ressaltam que sofrimento psicológico não autoriza presumir diagnóstico, intenção suicida ou relação causal com uma conduta observada. Para eles, discussões públicas sobre casos de grande repercussão devem se apoiar em evidências e reconhecer os limites do que se sabe.



