Autismo e obesidade: acompanhamento deve considerar alimentação, medicamentos e rotina

Dados internacionais apontam maior ocorrência de excesso de peso entre pessoas com TEA, mas não há estimativa nacional específica para essa população.

O Brasil ainda não tem uma estimativa nacional consolidada sobre a prevalência de obesidade entre pessoas autistas. Segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país tinha 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo, o equivalente a 1,2% da população; entre crianças de 5 a 9 anos, a proporção era de 2,6%.

Uma revisão sistemática e meta-análise que reuniu 95 estudos internacionais estimou prevalência de 21,8% de obesidade e de 19,8% de sobrepeso entre pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). Entre adultos autistas, a estimativa de obesidade chegou a 31,3%. Os dados, porém, não devem ser usados como medida direta da realidade brasileira, pois foram obtidos em outros países.

Segundo Luiz Gustavo de Quadros, mestre e doutor em Cirurgia, o ganho de peso em pessoas autistas deve ser avaliado para além da quantidade de comida. “Existem fatores relacionados à seletividade alimentar, à qualidade da alimentação, ao uso de determinadas medicações e também à própria rotina da pessoa autista”, afirma.

Plano individualizado

A seletividade alimentar e a resistência a mudanças de rotina podem dificultar a introdução de alimentos e resultar em padrões pouco variados. De acordo com Quadros, a estratégia de cuidado deve considerar também saúde intestinal, metabolismo, atividade física, aspectos comportamentais e acompanhamento familiar.

O especialista alerta que medicamentos podem ter impacto no ganho de peso, mas não devem ser interrompidos ou modificados sem orientação. A discussão sobre alternativas, segundo ele, deve ocorrer com a equipe responsável pelo tratamento.

Atividades físicas compatíveis com preferências, habilidades e necessidades individuais também podem contribuir para a saúde cardiovascular, metabólica e funcional, afirma Quadros.

Procedimentos exigem avaliação especializada

Segundo o médico, mudanças no estilo de vida e, em situações específicas, tratamentos medicamentosos podem integrar o cuidado da obesidade. Procedimentos endoscópicos ou cirúrgicos exigem avaliação médica individual, considerando fatores clínicos, alimentares, comportamentais e a possibilidade de acompanhamento posterior.

Quadros cita a gastroplastia endoscópica como uma alternativa que pode ser considerada em alguns casos, dentro de um plano multidisciplinar. “Não existe uma fórmula única para tratar a obesidade no autismo”, diz. A técnica, segundo ele, não substitui avaliação nutricional, médica e comportamental.

Família, médicos, nutricionistas, psicólogos, profissionais de educação física e terapeutas podem atuar de forma integrada, respeitando as particularidades de cada pessoa.

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