Estudo relaciona propósito de vida à resiliência cerebral em meio ao envelhecimento no Brasil
Pesquisa com adultos de meia-idade aponta que ter objetivos pode ajudar a preservar a cognição diante das mudanças cerebrais associadas à idade
O Brasil enfrenta um rápido envelhecimento populacional, com o número de pessoas com 65 anos ou mais crescendo 57,4% entre 2010 e 2022, segundo dados do IBGE. Em meio a esse cenário, um estudo publicado na revista científica Alzheimer’s Research & Therapy destaca que ter um propósito de vida pode estar associado à maior resiliência cognitiva diante das alterações cerebrais relacionadas à idade.
A pesquisa analisou 624 adultos saudáveis, com idade média de 53,7 anos, participantes do Barcelona Brain Health Initiative. Por meio de questionários, testes neuropsicológicos e exames de ressonância magnética, os pesquisadores avaliaram o senso de propósito de vida — definido como a percepção de sentido, direção e existência de objetivos — e sua relação com a cognição.
De acordo com a nutricionista e pesquisadora Brunna Boaventura, PhD, vinculada à Harvard Medical School, o estudo evidencia que a discussão sobre envelhecimento saudável deve começar antes da velhice. “Ter projetos, vínculos, interesses e motivos para continuar fazendo determinadas coisas pode influenciar a maneira como organizamos a rotina, cuidamos de nós mesmos e sustentamos hábitos ao longo do tempo”, afirma.
Os resultados indicaram que, embora não houvesse diferença significativa na quantidade de lesões cerebrais entre participantes com níveis mais altos e mais baixos de propósito, a relação dessas alterações com o desempenho cognitivo foi diferente. Entre aqueles com menor propósito de vida, maior presença de lesões estava associada a pior desempenho nas funções executivas, enquanto essa associação não foi observada nos participantes com maior senso de propósito, sugerindo maior resiliência cognitiva.
Brunna ressalta que o propósito de vida não é uma receita para prevenir demência ou proteger o cérebro isoladamente, mas uma dimensão importante na construção do envelhecimento saudável, que envolve múltiplos fatores ao longo da vida. Ela alerta ainda para o risco de transformar o envelhecimento saudável em uma obrigação, destacando a importância de ampliar as possibilidades de cuidado sem gerar culpa.
O estudo reforça a necessidade de pensar o envelhecimento não apenas como aumento da longevidade, mas como preservação da autonomia, capacidade cognitiva e qualidade de vida, especialmente em um país onde a população idosa deve representar 37,8% em 2070, conforme projeções do IBGE.



