Masking no autismo feminino: o custo de parecer normal
Camuflar sinais do TEA pode dificultar o diagnóstico e gerar desgaste emocional em meninas e mulheres.
Ser vista como “quietinha”, “educada” ou muito adaptável nem sempre significa que uma menina está confortável nas interações sociais. Para algumas meninas e mulheres autistas, aprender a parecer à vontade pode envolver um esforço contínuo para esconder características do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa camuflagem, conhecida como masking, pode dificultar a identificação do autismo e cobrar um preço da saúde mental.
O masking pode acontecer de forma consciente ou automática. Na prática, inclui observar e imitar gestos e expressões de outras pessoas, ensaiar conversas antes de um encontro, reprimir movimentos repetitivos ou forçar o contato visual mesmo quando isso causa desconforto.
Embora ajustes nas interações sociais façam parte da vida de qualquer pessoa, no autismo esse esforço de compensação pode ser intenso e cansativo. Quando a adaptação esconde sinais do TEA ao longo da infância, o diagnóstico pode demorar a chegar, sobretudo quando não há comprometimento intelectual evidente.
Por que a adolescência pode ser um período crítico
O aumento das demandas de sociabilidade pode tornar a camuflagem ainda mais exigente. “Como a pressão social para se adequar é intensa e a capacidade de compensar dificuldades pode ocultar seus sinais ao longo da infância, a adolescência emerge como um período crítico. Nesse momento, o aumento das demandas de sociabilidade pode tornar o masking ainda mais intenso e oneroso”, explica Alexandre Valverde, médico psiquiatra, diagnosticado com autismo e altas habilidades/superdotação na vida adulta.
O desgaste pode aparecer como exaustão depois de interações, crises emocionais, ansiedade, baixa autoestima e sensação persistente de não pertencimento. O material também aponta que algumas mulheres chegam ao atendimento já diagnosticadas com depressão, estresse crônico ou transtornos de ansiedade. Esses sinais merecem atenção, mas não são, por si só, prova de autismo.
O que os dados sobre depressão mostram
O material cita um estudo com mais de 195 mil casos, realizado pela Universidade de Queensland, na Austrália, e publicado em 2025 na revista Nature Communications. A pesquisa identificou 16 variantes genéticas associadas ao transtorno depressivo e apontou uma carga genética mais expressiva entre mulheres.
Também é mencionada uma pesquisa publicada no Psychological Bulletin, segundo a qual a disparidade entre mulheres e homens na ocorrência de depressão atinge seu pico na adolescência. Nessa fase, garotas podem ter até três vezes mais chances de apresentar o transtorno. No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 indicam diagnóstico de depressão em 14,7% das mulheres e 5,1% dos homens.
Esses números contextualizam a saúde mental feminina, mas não medem o masking nem demonstram que a camuflagem cause depressão. Valverde ressalta que o sofrimento pode passar despercebido quando alguém parece integrada, mas enfrenta desgaste interno: “Trazer o masking para o debate permite lançar luz sobre sofrimentos silenciosos que passam despercebidos por familiares, professores e até profissionais de saúde, justamente porque a pessoa aparenta estar integrada enquanto lida com um enorme desgaste interno”. A discussão também ganha espaço durante o Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre prevenção do suicídio e promoção do bem-estar emocional.
Acolhimento e suporte especializado
Em Campinas, no interior de São Paulo, o Programa de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (PAICA) oferece gratuitamente suporte interdisciplinar a crianças e adolescentes com TEA e suas famílias. Entre os serviços estão terapias no contraturno escolar, orientação familiar e auxílio na busca por direitos previstos em lei.
O programa atende crianças e adolescentes, não exclusivamente meninas ou mulheres adultas. Ainda assim, sua atuação reforça a importância de ampliar o acesso à informação e ao cuidado especializado. Para familiares, educadores e profissionais de saúde, observar o esforço que existe por trás de uma aparente adaptação pode abrir espaço para uma conversa acolhedora e para a busca de avaliação adequada.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



