Terras raras não são tão raras. Raros são água limpa, solo produtivo e planejamento

Pesquisa aponta potencial para exploração de elementos estratégicos no Paraná, mas entusiasmo com uma nova fronteira mineral precisa considerar uma pergunta bem menos glamourosa: quanto vale assumir o impacto da mineração para continuar exportando matéria-prima?

De tempos em tempos, o Brasil redescobre que é rico.

Foi assim com o ouro, com o ferro, com o petróleo, com o nióbio e com o lítio. Agora são as terras raras. Basta aparecer um novo levantamento geológico para surgir a impressão de que encontramos uma espécie de tesouro enterrado que poderá mudar a economia de uma região quase por decreto.

No Paraná, o Serviço Geológico do Brasil está pesquisando áreas de Cerro Azul, Castro, Carambeí e Tijucas do Sul dentro do projeto de avaliação do potencial de terras raras no Cinturão Ribeira. Algumas amostras apresentaram concentrações superiores a 8 mil partes por milhão de elementos terras raras, resultado considerado expressivo e que justificou novas etapas de investigação. Mas o próprio estágio da pesquisa exige uma distinção fundamental: encontrar concentrações elevadas não significa ter uma jazida economicamente viável, muito menos uma mina pronta para operar.

Há outra confusão começando pelo próprio nome.

Terras raras não são necessariamente raras

Chamamos de terras raras um grupo de 17 elementos químicos, entre eles neodímio, praseodímio, disprósio, térbio, lantânio e cério.

Eles não receberam esse nome simplesmente porque existam em quantidades minúsculas no planeta. Vários são relativamente abundantes na crosta terrestre. O problema é encontrá-los em concentrações economicamente interessantes e, principalmente, separá-los.

Quimicamente, esses elementos são muito parecidos entre si e normalmente aparecem misturados a outros minerais. Depois de retirar a rocha ou o material do solo, começa justamente uma das etapas mais difíceis e caras: beneficiamento, tratamento químico, separação dos elementos, produção dos óxidos, refino, transformação em metais, ligas e, finalmente, componentes como os ímãs permanentes utilizados em motores, turbinas, eletrônicos e equipamentos de alta tecnologia.

Ou seja: o problema nunca foi simplesmente cavar um buraco e encontrar uma pedra rara.

E isso ajuda a explicar uma aparente contradição brasileira.

Segundo o Sumário Mineral 2025 da Agência Nacional de Mineração, o Brasil possui cerca de 11,4 milhões de toneladas de reservas de terras raras, aproximadamente 13,9% das reservas mundiais consideradas no levantamento, atrás apenas da China. Mesmo assim, a produção brasileira continua pequena.

Temos muito no chão.

O que ainda não temos na mesma proporção é a cadeia industrial necessária para transformar aquilo que está no chão nos produtos de enorme valor agregado que fazem esses minerais serem disputados pelo mundo.

O verdadeiro poder não está na mina

A China oferece a melhor demonstração disso.

Em 2024, respondia por cerca de 60% da mineração mundial das terras raras utilizadas em ímãs. Mas sua participação chegava a 91% no refino e a aproximadamente 94% na produção de ímãs permanentes sinterizados.

Esse número deveria estar no centro do debate brasileiro.

Porque há uma diferença gigantesca entre ser dono da rocha e ser dono da tecnologia.

Se o Brasil abrir minas, movimentar milhões de toneladas de material, consumir água, gerar rejeitos e assumir os riscos ambientais para depois mandar concentrados ou produtos pouco processados para que outro país faça a separação, a metalurgia, as ligas e os componentes de alta tecnologia, teremos repetido um modelo que conhecemos há séculos.

O país fica com o buraco.

O maior valor agregado viaja.

Por isso, celebrar simplesmente que o Paraná tem “potencial de terras raras” é pouco. A discussão deveria começar justamente onde boa parte das manchetes termina.

Potencial para quê?

Para exportar minério?

Para produzir óxidos separados?

Para desenvolver metalurgia?

Para fabricar ímãs?

Para abastecer uma indústria brasileira de motores, equipamentos médicos, defesa, eletrônica, energia e tecnologia?

São projetos econômicos completamente diferentes.

E existe uma conta ambiental

Também existe uma parte pouco atraente dessa história.

Minérios contendo terras raras podem estar associados naturalmente a urânio e tório. Quando o minério é processado, esses materiais podem acabar concentrados nos rejeitos, exigindo controle adequado. A EPA, agência ambiental dos Estados Unidos, trata especificamente desse problema nos resíduos da mineração e do processamento de terras raras.

Dependendo do tipo de depósito e da tecnologia utilizada, a cadeia pode envolver grandes volumes de material, reagentes químicos, rejeitos e efluentes.

A Agência Internacional de Energia alerta que determinados processos usados na exploração de depósitos de argilas de adsorção iônica podem produzir lixiviados ácidos e rejeitos com materiais radioativos naturais; se mal administrados, eles podem contaminar corpos d’água, solos e ecossistemas. O processamento posterior também pode gerar lodos e outros resíduos que precisam ser controlados durante décadas, inclusive depois do encerramento das minas.

Isso não significa que toda mineração de terras raras produzirá necessariamente uma catástrofe ambiental.

Significa algo mais importante: não existe mineração de impacto zero e diferentes depósitos exigem avaliações ambientais completamente diferentes.

Por isso é tão estranho discutir essas descobertas apenas pelo lado da oportunidade econômica.

Especialmente no Paraná.

Antes do minério, já existe uma riqueza sobre o solo

O Paraná não é um território economicamente vazio esperando que alguém encontre alguma coisa debaixo da terra.

É uma das maiores potências agroalimentares brasileiras.

O Estado é o segundo maior produtor nacional de grãos, atrás apenas de Mato Grosso, e lidera a produção brasileira de carnes, além de possuir cadeias extremamente relevantes de aves, suínos, leite, feijão, trigo e pescado.

Em 2025, o Valor Bruto da Produção agropecuária paranaense chegou a R$ 212,6 bilhões, considerando cerca de 350 produtos agrícolas e pecuários.

Essa economia depende exatamente de dois recursos cujo valor raramente aparece nas manchetes sobre mineração:

solo e água.

E alguns dos municípios que agora aparecem nos mapas de potencial mineral estão inseridos em regiões nas quais agricultura, recursos hídricos e ocupação territorial já possuem enorme importância econômica.

Portanto, a pergunta não pode ser simplesmente quanto dinheiro existe debaixo daquele solo.

É preciso calcular quanto dinheiro, produção, segurança alimentar e patrimônio ambiental já existem sobre ele e ao redor dele.

O minério pode esperar. Água contaminada não volta por decreto

Terras raras são importantes.

São estratégicas para veículos elétricos, turbinas, eletrônica, medicina, telecomunicações, equipamentos militares, automação e inúmeras tecnologias das próximas décadas.

Seria igualmente absurdo o Brasil simplesmente ignorar uma reserva estratégica desse tamanho.

Mas há uma enorme distância entre ignorar o recurso e correr para arrancá-lo do chão.

Aliás, justamente porque o Brasil possui reservas gigantescas, talvez não exista razão alguma para agir como quem encontrou o último depósito de terras raras do planeta.

A abundância nos dá uma coisa preciosa: poder de escolha.

Podemos escolher onde explorar.

Podemos escolher onde não explorar.

Podemos exigir processamento no Brasil.

Podemos condicionar projetos à disponibilidade hídrica.

Podemos criar zonas incompatíveis com determinados tipos de mineração.

Podemos exigir monitoramento independente de solo, águas superficiais e subterrâneas antes, durante e décadas depois da atividade.

Podemos obrigar empresas a provisionarem recursos para fechamento e recuperação das minas.

E, principalmente, podemos decidir que retirar minério brasileiro para alimentar uma cadeia industrial localizada no outro lado do mundo talvez não seja suficiente para justificar determinado risco.

A própria Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada em setembro de 2026, coloca agregação de valor, transformação mineral, rastreabilidade e desenvolvimento da cadeia entre os objetivos dessa nova estratégia.

Esse talvez seja o debate que realmente interessa.

A descoberta de terras raras no Paraná não precisa ser encarada como uma ameaça nem comemorada como a descoberta de uma mina de ouro.

É uma escolha.

E escolhas envolvendo recursos naturais precisam responder a uma pergunta muito mais ampla do que “quanto vale o minério?”.

Precisam responder quanto vale aquilo que podemos perder para retirá-lo.

Porque neodímio, lantânio e cério podem até carregar a palavra “rara” no nome.

Em um planeta com oito bilhões de pessoas, mudanças climáticas, pressão sobre aquíferos e demanda crescente por alimentos, há recursos consideravelmente mais difíceis de substituir.

Água limpa, terra fértil e comida estão entre eles.

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