Quando a notícia chega pronta: o problema não é apenas o que a imprensa deixa de publicar
O viés jornalístico não acontece apenas quando uma informação é ignorada. Ele também pode começar muito antes da publicação, quando a conclusão da reportagem é definida antes da apuração e fontes são procuradas apenas para confirmá-la.
Existe uma crítica recorrente à imprensa segundo a qual determinados assuntos são ignorados porque não interessam à linha editorial de um veículo. É uma discussão importante, mas talvez seja apenas a parte mais visível do problema.
Há uma forma de interferência editorial muito mais difícil de perceber: a notícia é publicada, os fatos mencionados podem ser verdadeiros, as fontes existem e as declarações são reais — e, ainda assim, o leitor recebe apenas uma determinada versão possível da realidade.
Não é necessário inventar uma informação para conduzir uma narrativa.
Basta escolher previamente quais perguntas serão feitas, quais fatos receberão destaque, quais especialistas serão consultados e, principalmente, quem não será ouvido.
É o momento em que a reportagem deixa de investigar uma hipótese e começa a procurar provas para uma conclusão que já existia.
Quando a pauta começa pela resposta
Recentemente, uma jornalista que realizava um trabalho freelancer recebeu uma orientação bastante reveladora para uma reportagem relacionada à discussão sobre a jornada de trabalho 6×1.
A redação queria “personagens falando contra”.
A frase parece banal. Faz parte da rotina de produção jornalística procurar personagens capazes de ilustrar uma reportagem.
Mas existe uma diferença fundamental entre procurar trabalhadores para perguntar o que pensam sobre determinada proposta e procurar especificamente trabalhadores que pensem de determinada maneira.
No primeiro caso, existe apuração.
No segundo, existe uma conclusão aguardando personagens.
Isso não significa que uma reportagem não possa abordar deliberadamente argumentos contrários ou favoráveis a uma proposta. Evidentemente pode. Um veículo pode publicar “por que empresários se opõem à mudança”, “por que trabalhadores defendem a redução da jornada” ou qualquer outro recorte claramente identificado.
O problema aparece quando esse recorte é apresentado ao público como se representasse uma descoberta da reportagem.
Se primeiro decidimos que queremos pessoas contra determinada proposta e depois saímos procurando pessoas contra essa proposta, o resultado da apuração já estava parcialmente escrito antes da primeira entrevista.
Não é preciso mentir para produzir uma visão distorcida
Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis de explicar sobre jornalismo.
Uma reportagem enviesada não precisa conter uma única mentira.
Imagine cem pessoas divididas sobre determinado assunto.
Quarenta são favoráveis, quarenta são contrárias e vinte ainda não formaram opinião.
Um jornalista pode entrevistar cinco pessoas contrárias, publicar corretamente tudo o que elas disseram e produzir uma matéria factual.
Nenhuma frase precisa ser falsa.
Mas o leitor poderá terminar o texto acreditando que encontrou um retrato daquela população quando, na realidade, encontrou apenas uma seleção previamente determinada dela.
É por isso que o estudo do enquadramento jornalístico, ou framing, é tão importante.
Em um dos trabalhos clássicos sobre o tema, o pesquisador Robert Entman descreve o enquadramento como um processo de seleção: determinados aspectos da realidade são destacados enquanto outros recebem menos atenção, contribuindo para definir qual é o problema, suas causas e possíveis interpretações.
Não é necessariamente conspiração.
É seleção.
E toda notícia exige seleção.
O jornalista jamais consegue colocar toda a realidade dentro de uma reportagem.
O problema começa quando essa seleção deixa de ser consequência legítima da necessidade de organizar os fatos e passa a funcionar como instrumento para confirmar uma tese previamente escolhida.
A fonte também é parte da narrativa
Há outra ideia confortável no jornalismo: a de que basta ouvir especialistas para uma reportagem se tornar equilibrada.
Não basta.
Se todos os especialistas escolhidos compartilham a mesma interpretação sobre uma controvérsia real, temos cinco entrevistas, mas continuamos tendo apenas uma perspectiva.
Pode-se inclusive construir uma reportagem aparentemente sofisticada dessa maneira.
Um professor diz que determinada conduta é grave.
Outro especialista afirma que ela ameaça determinada garantia.
Um terceiro explica suas possíveis consequências.
Um quarto apresenta outro argumento crítico.
Um quinto conclui que algo precisa mudar.
Cinco autoridades acadêmicas. Cinco entrevistas. Cinco currículos respeitáveis.
Mas talvez apenas uma tese.
A quantidade de fontes não substitui diversidade de apuração.
Pesquisas brasileiras sobre enquadramento jornalístico já analisaram justamente como a seleção das fontes participa da construção das narrativas políticas apresentadas pelos veículos. Não se trata, portanto, de uma discussão nova nem de uma acusação abstrata contra o jornalismo: a escolha de quem fala é uma das decisões editoriais que ajudam a estruturar aquilo que o público perceberá como notícia.
O problema da pauta que procura confirmação
Existe uma diferença importante entre hipótese jornalística e tese jornalística.
A hipótese serve para começar a investigação.
“Empresas estão preocupadas com determinada mudança?”
Vamos descobrir.
“Trabalhadores são contrários a determinada proposta?”
Vamos perguntar.
“Especialistas consideram determinada decisão juridicamente questionável?”
Vamos ouvi-los — inclusive aqueles que eventualmente discordem.
A hipótese pode morrer durante a apuração.
Aliás, algumas das melhores reportagens surgem exatamente quando aquilo que o jornalista encontra contradiz aquilo que imaginava encontrar.
Já a tese funciona ao contrário.
Primeiro vem a resposta.
Depois começa a procura por fatos, personagens e especialistas capazes de sustentá-la.
Nesse modelo, a apuração não serve para testar uma ideia.
Serve para decorá-la.
A manchete pode estar certa e o leitor continuar mal informado
É também por isso que avaliar jornalismo apenas perguntando se uma notícia contém informação falsa é insuficiente.
Existem pelo menos quatro perguntas igualmente importantes:
O que foi escolhido para entrar?
O que ficou de fora?
Quem recebeu espaço para interpretar os fatos?
A conclusão surgiu depois da apuração ou já existia antes dela?
Essas perguntas se tornam ainda mais importantes quando a cobertura envolve Justiça, eleições, economia, relações de trabalho ou qualquer assunto capaz de provocar forte divisão política.
Nesses casos, enquadramento vira poder.
Uma decisão judicial pode ser explicada exclusivamente pelos seus críticos ou exclusivamente por seus defensores.
Uma política pública pode ser apresentada apenas por quem será prejudicado por ela ou apenas por quem será beneficiado.
Uma mudança trabalhista pode encontrar cinco trabalhadores favoráveis ou cinco contrários em poucas horas.
Tudo continuará sendo verdadeiro.
Mas verdade factual e representação honesta da realidade não são exatamente a mesma coisa.
Jornalismo não precisa ser neutro. Precisa ser intelectualmente honesto
Existe ainda uma confusão frequente nesse debate.
Nenhum jornal é completamente neutro.
Nenhum jornalista é uma máquina sem opiniões, valores ou repertório.
Além disso, veículos possuem linhas editoriais. Artigos, editoriais e colunas existem precisamente para interpretar acontecimentos.
O problema não está em ter posição.
Está em misturar posição e apuração sem avisar o leitor.
Um editorial pode defender uma política.
Um articulista pode combatê-la.
Uma análise pode sustentar determinada interpretação jurídica.
Tudo isso é legítimo.
A reportagem, entretanto, assume outro compromisso.
O próprio Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros estabelece que a divulgação da informação precisa deve ocorrer independentemente da linha política dos proprietários ou diretores do veículo e afirma que o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos e com a precisa apuração dos acontecimentos.
Precisão não significa apenas conferir nomes, datas e números.
Também deveria significar não apresentar uma amostra cuidadosamente escolhida como se fosse a realidade inteira.
O leitor raramente vê a pauta original
Esse é talvez o aspecto mais poderoso desse fenômeno.
O público vê a reportagem pronta.
Não vê a mensagem enviada ao repórter.
Não vê a reunião de pauta.
Não sabe quais especialistas recusaram entrevistas.
Não sabe quantas respostas contraditórias foram descartadas.
Não sabe se a redação pediu “trabalhadores para falar sobre o tema” ou “trabalhadores contra o tema”.
As duas orientações podem resultar em matérias visualmente idênticas.
Título.
Foto.
Personagens.
Especialistas.
Dados.
Aspas.
Tudo aquilo que associamos a uma reportagem profissional.
Mas o processo que produziu essas duas matérias é completamente diferente.
E jornalismo é também processo.
A nova crise de confiança da imprensa passa por aí
Durante muito tempo, a discussão sobre credibilidade concentrou-se nas chamadas fake news.
Era confortável imaginar uma divisão simples entre dois mundos: de um lado o jornalismo profissional, com seus processos de apuração; do outro, boatos, manipulações e conteúdos produzidos nas redes sociais.
A realidade é mais desconfortável.
Uma sociedade bem informada também precisa discutir os defeitos do jornalismo profissional.
Isso não enfraquece a imprensa.
Ao contrário.
Uma imprensa incapaz de reconhecer seus próprios mecanismos de seleção abre espaço justamente para aqueles que querem desacreditar qualquer trabalho jornalístico.
O maior patrimônio de um veículo não deveria ser conseguir convencer o leitor.
Deveria ser conseguir mostrar ao leitor alguma coisa que talvez nem a própria redação esperasse encontrar.
Porque existe uma diferença monumental entre investigar para descobrir o que aconteceu e investigar para provar aquilo que já se decidiu que aconteceu.
No primeiro caso temos jornalismo.
No segundo, podemos ter fatos verdadeiros, fontes reais, especialistas legítimos e excelentes fotografias.
Mas a conclusão chegou cedo demais.



