Saúde íntima também impacta a saúde emocional das mulheres
Dores nas relações sexuais, incontinência urinária e desconfortos íntimos podem afetar a autoestima, a sexualidade e a qualidade de vida
Quando se fala em saúde mental, nem sempre a relação da mulher com o próprio corpo aparece entre os primeiros fatores considerados. No entanto, sintomas físicos que provocam dor, constrangimento, insegurança ou mudanças na vida sexual podem ter reflexos importantes sobre o bem-estar emocional.
Dor durante as relações sexuais, incontinência urinária e alterações na região íntima estão entre situações que muitas mulheres ainda evitam relatar, inclusive durante consultas médicas. Em alguns casos, o incômodo passa a interferir na escolha das roupas, na prática de exercícios, na intimidade com o parceiro e até na vida social.
A médica ginecologista Mirelle Ossipi Ruivo, especialista em Medicina Estética e Regenerativa e fundadora da rede de clínicas Mulherez, explica que um dos problemas é a normalização desses sintomas. “Há mulheres que passam anos convivendo com desconfortos porque acreditam que fazem parte do envelhecimento, da maternidade ou das mudanças hormonais. Outras sentem vergonha de falar sobre o assunto. Quando isso começa a modificar comportamentos, afetar a sexualidade ou gerar insegurança constante, precisamos olhar para essa paciente de forma integral”, afirma Mirelle.
A relação entre algumas condições da saúde íntima feminina e o bem-estar emocional vem sendo observada também pela literatura científica. Uma meta-análise que reuniu 12 estudos e mais de 31 mil participantes encontrou níveis significativamente maiores de depressão e ansiedade entre pessoas com incontinência urinária em comparação àquelas sem a condição. Outra revisão, dedicada às disfunções do assoalho pélvico feminino, reforçou a presença relevante de sintomas de ansiedade e depressão nesse grupo de pacientes.
Quando o desconforto muda comportamentos
Segundo Mirelle, muitas vezes o impacto aparece de maneira gradual. A mulher evita uma relação sexual por receio da dor, deixa de usar determinadas roupas, reduz atividades físicas por medo de escapes urinários ou passa a se sentir desconfortável com a própria imagem. “Nem sempre a paciente chega dizendo que sua autoestima está abalada. Ela pode dizer que deixou de ter relações, que evita determinados exercícios ou que não se sente mais à vontade com o próprio corpo. É durante a escuta que conseguimos compreender quanto aquele sintoma já interferiu na rotina e na qualidade de vida”, explica.
A médica ressalta que também é importante evitar a ideia de que toda insatisfação com a região íntima representa uma doença ou exige um procedimento. A avaliação individualizada permite diferenciar questões funcionais, alterações relacionadas ao envelhecimento ou às mudanças hormonais e incômodos predominantemente estéticos, além de indicar quando há necessidade de acompanhamento com profissionais de outras áreas.
Saúde da mulher precisa ser vista de forma integral
Durante o Setembro Amarelo, período em que as discussões sobre saúde mental ganham maior visibilidade, Mirelle chama atenção para a importância de ampliar o olhar sobre fatores que podem afetar o bem-estar feminino. A própria compreensão contemporânea de saúde mental considera a interação entre aspectos físicos, psicológicos e sociais. Nesse contexto, falar sobre sintomas íntimos sem constrangimento também pode contribuir para que mulheres procurem avaliação adequada em vez de conviverem silenciosamente com situações que comprometem sua qualidade de vida.
“Cuidar da saúde íntima não deve ser reduzido à estética. Estamos falando também de conforto, função sexual, autonomia, autoestima e qualidade de vida. O mais importante é que a mulher saiba que pode falar sobre esses sintomas e buscar orientação médica sem vergonha”, afirma Mirelle.
Por Mirelle Ossipi Ruivo
médica ginecologista, especialista em Medicina Estética e Regenerativa, fundadora da rede de clínicas Mulherez
Artigo de opinião



