Terapia no ChatGPT: ele realmente entende você ou apenas diz o que você quer ouvir?
A inteligência artificial pode acolher e organizar pensamentos, mas não substitui uma análise imparcial nem deve decidir quem está certo em uma relação.
Desabafar sobre um relacionamento, enviar uma conversa para o ChatGPT analisar ou perguntar se determinada atitude foi “tóxica” virou parte da relação de alguns usuários com a inteligência artificial. Em segundos, a ferramenta organiza o relato, responde em tom acolhedor e pode até sugerir interpretações para um conflito.
O ponto de atenção surge quando essa sensação de compreensão passa a ser confundida com uma análise imparcial de uma história que o sistema conhece apenas pela versão apresentada no chat. Para o especialista em inteligência artificial e negócios João Paulo Batistella, é justamente a naturalidade da conversa que pode provocar essa impressão. Modelos de linguagem trabalham a partir das informações e do contexto que recebem. Em uma discussão de casal, por exemplo, a IA não ouviu a outra pessoa, não presenciou a situação e não conhece os fatos que ficaram de fora do relato.
“A inteligência artificial pode reproduzir uma linguagem acolhedora, mas isso não significa que ela compreenda o que a pessoa está sentindo”, afirma.
A tendência de sistemas de IA concordarem excessivamente com o usuário é um problema conhecido. Em abril de 2025, a própria OpenAI reverteu uma atualização do GPT-4o após reconhecer que o modelo havia se tornado excessivamente elogioso e concordante, comportamento chamado de sycophancy. O episódio mostrou que uma resposta capaz de agradar ou validar o usuário não representa, necessariamente, uma avaliação independente da situação.
O uso emocional do ChatGPT também entrou no radar dos pesquisadores. Um estudo conduzido pela OpenAI e pelo MIT Media Lab identificou que conversas explicitamente emocionais representam uma parcela pequena do uso geral da ferramenta, mas encontrou maior dependência emocional e piores resultados em alguns indicadores de bem-estar entre determinados usuários de uso mais intenso. Os próprios pesquisadores ressaltam que os resultados não permitem estabelecer que o ChatGPT, isoladamente, seja a causa desses efeitos.
Conversar com uma IA sobre um problema, portanto, não é a mesma coisa que entregar a ela a decisão sobre quem está certo. A ferramenta pode ser usada para organizar pensamentos, levantar hipóteses e procurar outros ângulos de uma situação. Batistella sugere inverter a lógica da pergunta: em vez de buscar apenas uma confirmação, pedir quais informações podem estar faltando e quais outras interpretações seriam possíveis.
“A IA pode ajudar você a pensar, mas não deveria ser o juiz das suas relações. Uma resposta convincente não é necessariamente uma resposta imparcial”, conclui.
Por João Paulo Batistella
especialista em inteligência artificial e negócios
Artigo de opinião



