Enxaqueca atinge muito mais mulheres — e estudo de 2026 reforça benefício de vitamina pouco lembrada
Nova meta-análise aponta que a riboflavina, conhecida como vitamina B2, pode ajudar a reduzir a frequência e a duração das crises de enxaqueca, problema que atinge mulheres cerca de três vezes mais do que homens
Quando se fala em vitaminas importantes para a saúde feminina, alguns nomes aparecem quase automaticamente: vitamina D, B12, ácido fólico. Uma integrante bem menos famosa do complexo B, porém, acaba de ganhar novo reforço científico por uma razão que interessa especialmente às mulheres.
É a riboflavina, ou vitamina B2.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em janeiro de 2026 reuniu 12 ensaios clínicos, envolvendo 749 participantes, e encontrou associação entre a suplementação de riboflavina e redução na frequência e duração das crises de enxaqueca em comparação aos grupos de controle.
O achado ganha relevância especial para o público feminino: dados reunidos pelos National Institutes of Health (NIH) apontam que mulheres têm aproximadamente três vezes mais chance de apresentar enxaqueca do que homens. Oscilações hormonais relacionadas ao ciclo menstrual, gravidez e transição para a menopausa estão entre os fatores que ajudam a explicar essa diferença.
Ou seja: uma vitamina discreta, presente em alimentos do cotidiano e essencial ao metabolismo energético, aparece novamente no radar da ciência justamente em uma condição que pesa de maneira desproporcional sobre a vida das mulheres.
O que o novo estudo encontrou
Publicado no Journal of Research in Medical Sciences, o trabalho analisou pesquisas clínicas que utilizaram diferentes doses de riboflavina em pessoas com enxaqueca.
Quando os pesquisadores compararam os grupos que receberam riboflavina com os grupos de controle, observaram redução estatisticamente significativa na frequência das crises e também em sua duração.
A análise de dose-resposta encontrou ainda uma relação linear entre doses de até 400 mg por dia e redução da frequência e duração das crises.
Mas há uma ressalva importante.
Quando o desfecho analisado foi a intensidade da dor, a melhora encontrada em relação ao grupo de controle não alcançou significância estatística. Os próprios autores também destacam limitações dos estudos disponíveis e defendem a realização de novos ensaios clínicos.
Além disso, houve heterogeneidade elevada entre vários dos estudos reunidos na análise — uma indicação de que populações, metodologias e resultados não foram perfeitamente uniformes.
Portanto, a conclusão não é que vitamina B2 “cura enxaqueca”, mas que existe um corpo de evidências cada vez mais interessante sobre seu possível papel na prevenção das crises.
Mas o que uma vitamina tem a ver com enxaqueca?
A resposta pode estar, pelo menos em parte, dentro das mitocôndrias.
A riboflavina é necessária para formar duas importantes coenzimas, chamadas FMN e FAD, envolvidas na produção de energia e em diversas reações celulares. A B2 também participa do metabolismo de gorduras, medicamentos e outros nutrientes.
Uma das hipóteses estudadas para explicar a enxaqueca envolve justamente alterações no metabolismo energético cerebral e na função mitocondrial.
É aí que a riboflavina desperta interesse.
Ao participar dessas reações relacionadas à produção de energia celular, a vitamina pode atuar em mecanismos envolvidos na suscetibilidade às crises. A meta-análise de 2026 também cita possíveis efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios entre as explicações investigadas.
Isso não significa, contudo, que a enxaqueca seja simplesmente causada por falta de vitamina B2.
A doença é neurológica, complexa e influenciada por diferentes fatores genéticos, hormonais e ambientais.
Por que a enxaqueca afeta tanto as mulheres?
A diferença entre os sexos se torna especialmente evidente depois da puberdade.
Segundo informações do NIH dedicadas à saúde da mulher, mulheres apresentam enxaqueca aproximadamente três vezes mais frequentemente que homens. Mudanças hormonais estão entre os fatores associados às crises, incluindo aquelas relacionadas à menstruação.
Uma revisão científica publicada em 2025 sobre enxaqueca, perimenopausa e menopausa também destaca o papel das flutuações dos hormônios sexuais femininos ao longo do período reprodutivo.
A transição para a menopausa pode ser particularmente complicada para algumas pacientes, já que as variações hormonais características da perimenopausa podem coincidir com mudanças no padrão das crises.
Além dos hormônios, gatilhos como alterações do sono, estresse, álcool, cafeína, estímulos luminosos, odores e mudanças ambientais podem estar envolvidos — e variam bastante de pessoa para pessoa.
B2 está em alimentos bastante comuns
Apesar do nome pouco lembrado, encontrar riboflavina na alimentação não é difícil.
Entre as fontes estão:
- leite e derivados;
- ovos;
- carnes;
- fígado e outras vísceras;
- amêndoas;
- cogumelos;
- espinafre;
- alguns cereais e alimentos fortificados.
Segundo o NIH, mulheres adultas precisam, em condições normais, de aproximadamente 1,1 mg de riboflavina por dia. Durante a gravidez, a recomendação sobe para 1,4 mg, e durante a amamentação chega a 1,6 mg.
E aqui existe uma diferença fundamental.
Comer B2 não é a mesma coisa que usar B2 contra enxaqueca
Os estudos sobre prevenção de enxaqueca empregam quantidades muito superiores às necessidades nutricionais diárias.
Na meta-análise de 2026, a avaliação de dose-resposta analisou suplementação em doses que chegavam a 400 mg por dia.
Compare isso com os 1,1 mg diários recomendados nutricionalmente para uma mulher adulta.
São contextos completamente diferentes.
Portanto, a descoberta não significa que uma pessoa com enxaqueca precise ingerir centenas de vezes a recomendação nutricional de vitamina B2 — muito menos que deva começar a tomar altas doses por conta própria.
A dose empregada com finalidade preventiva deve ser discutida com um profissional de saúde, especialmente porque enxaquecas frequentes também precisam de diagnóstico correto e podem exigir outros tratamentos.
E deficiência de vitamina B2?
Nos países onde há acesso adequado a uma alimentação variada, a deficiência isolada de riboflavina é considerada incomum.
Entretanto, determinados grupos podem apresentar maior risco de ingestão inadequada, incluindo algumas pessoas que eliminam alimentos de origem animal da dieta e mulheres grávidas ou em período de amamentação com alimentação restritiva.
A deficiência pode causar alterações na pele, rachaduras nos cantos da boca, inflamação dos lábios e outros problemas. Casos prolongados e graves podem contribuir para anemia e alterações neurológicas.
Isso também é diferente de dizer que pessoas com enxaqueca necessariamente têm deficiência de B2.
São duas questões que não devem ser confundidas.
Uma vitamina antiga com uma história nova
A riboflavina está longe de ser uma descoberta recente. A vitamina B2 é conhecida e estudada há décadas e participa de funções básicas do organismo.
A novidade está no refinamento das evidências sobre um possível uso específico.
Ao reunir os ensaios clínicos disponíveis e analisar também a relação entre dose e resposta, o estudo publicado em 2026 reforça a hipótese de que a riboflavina pode contribuir para diminuir quantas crises de enxaqueca ocorrem e quanto tempo elas duram.
Ainda não é a resposta definitiva — e os próprios pesquisadores reconhecem que são necessários estudos clínicos melhores e maiores.
Mas para uma doença que afeta mulheres com frequência muito superior à observada entre homens, a B2 deixou de ser apenas aquela vitamina esquecida no meio do complexo B.
Ela definitivamente merece ser lembrada.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Pessoas com dores de cabeça recorrentes, mudança no padrão da dor ou sintomas neurológicos devem procurar orientação profissional.



