Estudo de 1987 sobre sarampo volta às redes como se fosse atual — mas os dados contam outra história
Artigo publicado há quase 40 anos é usado em postagens para questionar a vacinação contra o sarampo; pesquisa, porém, ajudou a mostrar a importância da resposta imunológica e de esquemas com mais de uma dose. Enquanto isso, Brasil e Estados Unidos enfrentam hoje desafios diferentes com a queda ou insuficiência da cobertura vacinal
Uma página do New England Journal of Medicine começou a circular novamente nas redes sociais como suposta evidência recente de que pessoas vacinadas contra o sarampo adoeceriam da mesma forma. O título chama atenção: “Measles Outbreak in a Fully Immunized Secondary-School Population”, ou “Surto de sarampo em uma população escolar secundária totalmente imunizada”.
O problema começa pela data.
Embora a página esteja disponível hoje no site do periódico e apresente elementos atualizados da plataforma, o artigo científico foi publicado em 26 de março de 1987. E o surto analisado pelos pesquisadores aconteceu ainda antes, na primavera de 1985, em Corpus Christi, no Texas.
Portanto, não se trata de uma descoberta recente sobre as vacinas atuais, muito menos de um estudo realizado depois da pandemia de Covid-19. É um trabalho produzido há quase quatro décadas, durante uma etapa importante da própria evolução das estratégias de vacinação contra o sarampo.
E os resultados apresentados no artigo estão longe de mostrar que a vacina “não funciona”.
O que aconteceu naquele surto
Os pesquisadores avaliaram amostras de sangue de 1.806 estudantes de duas escolas. Mais de 99% tinham registro de vacinação com vacina de vírus vivo contra o sarampo.
Dos estudantes analisados, 1.732 apresentavam anticorpos detectáveis contra a doença. Nenhum deles desenvolveu sarampo durante o acompanhamento.
Entre os 74 estudantes que não apresentavam anticorpos detectáveis, 14 contraíram a doença. Todos tinham registro de vacinação. Outros três apresentaram posteriormente soroconversão sem desenvolver sintomas.
O estudo encontrou ainda uma diferença importante: os adolescentes que haviam recebido duas doses apresentavam menor proporção de ausência de anticorpos do que aqueles que tinham recebido somente uma dose. Os próprios autores apontaram o número de doses recebidas como o principal fator associado à resposta imunológica.
Em outras palavras: o estudo demonstrava que ter recebido uma vacina não significava necessariamente que todas as pessoas desenvolveriam resposta imunológica — algo já conhecido na imunologia — e que doses adicionais aumentavam a proteção.
Vacinas não precisam proteger 100% dos indivíduos para reduzir drasticamente a circulação de uma doença.
Duas doses ainda não eram a rotina atual
Há também um problema histórico em interpretar a expressão “totalmente imunizada” de 1987 utilizando o calendário vacinal de 2026.
A estratégia norte-americana mudou posteriormente. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC, surtos de sarampo entre crianças em idade escolar no final da década de 1980 contribuíram para que, em 1989, autoridades médicas norte-americanas passassem a recomendar uma segunda dose da vacina MMR para todas as crianças.
Hoje, o CDC estima que uma dose tenha eficácia de aproximadamente 93% contra o sarampo e duas doses, de 97%.
Isso significa também que infecções em pessoas vacinadas podem ocorrer. Uma eficácia de 97% não significa 100%.
Esse fenômeno, chamado de infecção de escape ou breakthrough infection, não demonstra que uma vacina seja ineficaz. Significa que nenhuma intervenção médica oferece proteção absoluta a todos os indivíduos.
O problema atual está nas coberturas vacinais
Quase 40 anos depois daquele estudo, o sarampo voltou a preocupar as autoridades sanitárias nas Américas.
Até a semana epidemiológica 35 de 2026, encerrada em 5 de setembro, a Organização Pan-Americana da Saúde registrava 52.676 casos confirmados de sarampo em 17 países e territórios das Américas. Era 3,8 vezes o número registrado no mesmo período de 2025.
Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá concentravam 99,5% dos casos. Até aquele momento haviam sido registradas 61 mortes na região.
Brasil e Estados Unidos, entretanto, vivem situações bastante diferentes.
Estados Unidos passam de 3,2 mil casos em 2026
Nos Estados Unidos, o CDC havia registrado 3.294 casos confirmados de sarampo em 2026 até 10 de setembro, distribuídos por 47 jurisdições.
O número já supera todo o ano anterior. Em 2025 foram registrados 2.289 casos, com dezenas de surtos pelo país.
Ao mesmo tempo, a cobertura da MMR entre crianças que ingressam no kindergarten vem diminuindo.
No ano escolar de 2019-2020, 95,2% dessas crianças tinham a cobertura exigida. Em 2025-2026, o percentual caiu para 92,4%. O CDC estima que aproximadamente 280 mil crianças do kindergarten estavam sem documentação de conclusão do esquema da MMR naquele ano escolar.
As isenções de vacinação também aumentaram: passaram de 3,6% para 4,2% em apenas um ano, segundo o CDC. Em 24 estados, mais de 5% das crianças tinham algum tipo de isenção para uma ou mais vacinas exigidas nas escolas.
Para o sarampo, essa diferença aparentemente pequena é relevante.
A doença é extremamente contagiosa e autoridades de saúde trabalham com uma cobertura próxima ou superior a 95% para reduzir a possibilidade de circulação sustentada do vírus.
E uma média nacional pode esconder bairros, escolas ou comunidades em que a cobertura é muito menor.
Brasil recuperou parte da cobertura, mas segunda dose ainda preocupa
No Brasil, a situação é diferente.
O país recebeu novamente, em novembro de 2024, a certificação de eliminação da circulação endêmica do sarampo e continua sem transmissão endêmica sustentada. Casos importados ou cadeias localizadas de transmissão, contudo, continuam ocorrendo.
Em 2025 foram confirmados 38 casos, todos importados ou relacionados à importação, segundo o Ministério da Saúde. As cadeias foram encerradas.
Em 2026 novos casos voltaram a aparecer.
Em 11 de setembro, o Ministério da Saúde confirmou três casos importados em Tabatinga, no Amazonas, em pessoas procedentes do Peru e sem histórico de vacinação. Na mesma atualização, São Paulo acumulava 32 casos.
Poucos dias depois, em 15 de setembro, a Secretaria de Saúde paulista confirmou mais quatro ocorrências, elevando para 36 os casos registrados no estado em 2026. Entre esses 36 pacientes, 26 não tinham histórico vacinal ou apresentavam esquema de imunização incompleto.
O Brasil também havia registrado anteriormente um caso no Rio de Janeiro. Os diferentes balanços têm datas de corte distintas, razão pela qual os números podem variar entre atualizações estaduais e nacionais.
Ainda assim, a escala é muito diferente da observada atualmente nos Estados Unidos.
A segunda dose é o ponto frágil brasileiro
Os dados brasileiros de cobertura também exigem atenção.
Em 2025, a cobertura nacional da primeira dose da tríplice viral chegou a 92,66%, aproximando-se da meta de 95%.
Para a segunda dose, porém, a cobertura ficou em apenas 78,02%.
E a desigualdade entre municípios é grande: 3.596 dos 5.570 municípios brasileiros atingiram a meta de 95% para a primeira dose, mas apenas 1.963 atingiram essa meta para a segunda. Os números foram atualizados pelo Ministério da Saúde em março de 2026.
Há, portanto, uma recuperação importante. O Ministério da Saúde informa que a cobertura da tríplice viral voltou a crescer a partir de 2023, depois de seis anos consecutivos de queda. Em 2021, a cobertura da primeira dose estava abaixo de 80%.
Mas a lacuna da segunda dose permanece relevante exatamente porque o sarampo exige níveis muito elevados e homogêneos de imunização.
Não basta que a média nacional seja alta se determinadas cidades, bairros ou comunidades concentram grande número de pessoas suscetíveis.
Brasil e Estados Unidos usam indicadores diferentes
Os números de cobertura dos dois países não devem ser comparados diretamente como se medissem exatamente a mesma população.
No Brasil, os percentuais de 92,66% e 78,02% referem-se respectivamente às coberturas nacionais da primeira e da segunda doses utilizadas pelo Programa Nacional de Imunizações.
Nos Estados Unidos, o indicador de 92,4% utilizado pelo CDC refere-se às crianças matriculadas no kindergarten que atendem aos requisitos de vacinação com MMR.
Os métodos e populações são diferentes.
O que os dois conjuntos de dados permitem afirmar é que ambos os países possuem grupos de pessoas suscetíveis suficientes para permitir surtos quando o vírus é introduzido, especialmente em comunidades onde a vacinação está concentradamente abaixo da média.
Como funciona o calendário brasileiro
No calendário brasileiro de 2026, crianças devem receber a primeira dose da tríplice viral aos 12 meses e a segunda aos 15 meses.
Pessoas de até 29 anos que não tenham comprovação de esquema completo devem receber duas doses. Entre 30 e 59 anos, a recomendação geral para quem não possui comprovação vacinal é de uma dose. Profissionais de saúde precisam comprovar duas doses, independentemente da idade.
Em áreas onde há circulação do vírus, crianças entre seis e 11 meses podem receber uma dose adicional, chamada de dose zero. Ela não substitui as doses de rotina aos 12 e 15 meses.
O estudo antigo não contradiz o conhecimento atual
O artigo de 1987 é legítimo. Foi publicado por uma das revistas médicas mais importantes do mundo e documentou um episódio relevante para a epidemiologia do sarampo.
O problema aparece quando sua idade, seu contexto e seus resultados são retirados da história.
A conclusão dos pesquisadores não foi que “vacinas não funcionam”. Eles observaram que surtos ainda podiam ocorrer em escolas com elevada proporção de estudantes vacinados quando existiam indivíduos sem resposta imunológica adequada — e constataram uma resposta melhor entre quem havia recebido duas doses.
Mais significativo ainda: nenhum dos 1.732 estudantes que apresentavam anticorpos detectáveis contra o sarampo desenvolveu a doença durante o surto analisado.
Décadas depois, a estratégia de duas doses tornou-se rotina, e a eficácia estimada atualmente chega a 97%.
O sarampo não voltou às manchetes porque um estudo de 1987 descobriu que a vacinação era inútil.
Ele voltou porque um vírus extremamente contagioso encontra novamente grupos suficientemente grandes de pessoas sem proteção para continuar circulando.
E, curiosamente, o antigo artigo usado hoje para contestar a vacinação ajuda a explicar justamente por que manter o esquema vacinal completo é tão importante.



