Cyberbullying: quando a violência começa fora da internet

Estudo com 4,2 mil adolescentes revela sofrimento psicológico em jovens que alternam papéis de vítima e agressor

Quando um caso de cyberbullying vem à tona, a reação dos adultos costuma se concentrar no celular, com tentativas de limitar o acesso e o tempo de uso das redes sociais. No entanto, a violência digital pode ser apenas a continuidade de conflitos que começaram em outros ambientes, como a escola.

Um estudo recente da Universidade Federal de São Paulo, divulgado pela Agência FAPESP e publicado na revista Psychiatry Research, acompanhou 4,2 mil adolescentes e identificou um grupo que sofria bullying e também praticava agressões. Entre esses jovens, 52,4% apresentavam sintomas psicológicos em nível clínico, com uma chance de sofrimento 11 vezes maior do que a de estudantes sem envolvimento nessas situações.

Vítima e agressor: um mesmo adolescente em papéis alternados

Para a psicóloga Dra. Cristiane Pertusi, presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar, a alternância entre os papéis de vítima e agressor exige uma análise que vá além do comportamento visível. O adolescente que agride pode estar respondendo a experiências anteriores de humilhação, rejeição ou sensação de impotência.

“Quando o adolescente ocupa os dois lugares, precisamos compreender o que sustenta esse comportamento. A agressividade pode surgir como uma tentativa de recuperar controle depois de uma situação em que ele se sentiu vulnerável. Compreender esse movimento mantém a responsabilidade pelo ato, ao mesmo tempo que permite cuidar da origem da violência”, explica.

Alguns jovens recorrem à agressão para evitar voltar a uma posição de fragilidade, enquanto outros buscam pertencimento ao participar de ataques promovidos por grupos, acreditando que isso lhes garante proteção ou aceitação. Embora isso não justifique a violência, ajuda a entender por que apenas punir pode não interromper o ciclo.

O impacto ampliado das redes sociais

No ambiente digital, o conteúdo circula rapidamente e alcança um público maior. A distância física reduz a percepção imediata do sofrimento causado, enquanto a possibilidade de novas reações mantém a vítima em estado de alerta constante.

“O ambiente digital prolonga a experiência da violência. O adolescente pode sair da escola, mas continua exposto ao conflito pelo celular. Quando sente que nenhum espaço oferece segurança, o medo passa a acompanhar sua rotina”, afirma Cristiane Pertusi.

O estudo também observou que a quantidade de horas conectadas apresentou pouca diferença entre os grupos, indicando que o foco deve estar nas relações mantidas online e no impacto emocional dessas interações.

Sinais de alerta e orientações para adultos

Isolamento, irritabilidade e mudanças persistentes de comportamento que prejudicam os estudos ou a convivência merecem atenção. Agressividade repentina pode ser uma forma de comunicar sofrimento.

Conversas conduzidas com acolhimento, evitando o tom de interrogatório, e perguntas sobre as relações na escola podem abrir espaço para que o adolescente se sinta seguro para falar. A escola deve responsabilizar quem agride, mas também compreender o contexto para evitar que a violência apenas mude de alvo ou reapareça em outro ambiente.

Reconhecer a complexidade do fenômeno, abandonando rótulos fixos de vítima e agressor, é fundamental para identificar o sofrimento que muitas vezes fica escondido sob a aparência de indisciplina. É nesse espaço, antes da próxima mensagem, que o ciclo de violência pode ser interrompido.

EstagiárIA

Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA

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