Lazer também é direito: mães ainda têm pouco tempo para si
Pesquisa revela que metade das mães solo nunca viaja a lazer; desigualdades de renda e cuidado impactam o acesso ao descanso
Conciliar trabalho, maternidade, responsabilidades domésticas e vida pessoal deixa pouco espaço para o lazer, uma atividade essencial que muitas mães ainda têm dificuldade de acessar. Essa realidade é ainda mais complexa para mulheres negras, que enfrentam desigualdades econômicas e sociais que restringem seu acesso ao descanso e à cultura.
Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM) 2025, cerca de 70% dos domicílios chefiados por mulheres negras vivem com renda de até um salário mínimo. Além disso, dados do IBGE indicam que 41,3% das mulheres pretas ou pardas estão abaixo da linha da pobreza, o que limita o acesso a experiências culturais e momentos de lazer.
Uma pesquisa da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, em parceria com o Ministério do Turismo, revela que 50% das mães solo nunca viajam a lazer, enquanto entre os pais solo esse percentual é de 37%. Esses números refletem a sobreposição de funções que muitas mulheres assumem, acumulando trabalho, cuidado dos filhos e sustento.
Desafios para o lazer das mães
Rachel Moreira, mentora e consultora de mulheres empreendedoras, destaca que a falta de lazer está relacionada a fatores estruturais que vão além da vontade individual. “Quando trabalho, cuidado e sustento estão concentrados sobre a mesma mulher, o lazer acaba entrando na lista do que pode esperar”, analisa. Ela ressalta que, antes de sair ou viajar, muitas mães precisam organizar quem ficará com os filhos, quanto custará a atividade e como será o deslocamento, além de contar com uma rede de apoio, que muitas vezes não existe.
Mainha’s Party: lazer sem função
Com base nessa realidade, surgiu em Salvador o Mainha’s Party, uma experiência de lazer, cultura e convivência voltada para mulheres adultas, especialmente mães. A primeira edição ocorreu em 4 de outubro de 2025, no Boteco da Tetê, reunindo cerca de 60 mulheres.
O evento foi estruturado em torno do conceito de “diversão sem função”, permitindo que as participantes deixem de lado temporariamente os papéis de mãe, profissional ou responsável pela casa para simplesmente aproveitar o momento. A iniciativa não pretende solucionar as desigualdades de acesso ao lazer, mas sim provocar uma reflexão sobre o direito das mães ao descanso e à diversão.
Rachel enfatiza que “lazer também é cuidado, e não deveria ser tratado como luxo, culpa ou falta de prioridade com os filhos”. Ela destaca ainda que, segundo levantamento da Nexus, 73% das empreendedoras negras são mães, e metade delas é mãe solo, evidenciando a concentração de responsabilidades.
Para que mais mulheres possam usufruir de momentos de lazer, é fundamental discutir as condições concretas que possibilitam esse direito, como renda, rede de apoio, transporte e uma divisão mais justa das responsabilidades familiares. “Se a sociedade naturaliza que um homem tenha tempo para lazer, também precisa naturalizar que uma mãe possa fazer o mesmo sem precisar justificar”, conclui Rachel.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



