Promessas perigosas na internet ameaçam a saúde da memória

Sem comprovação científica, “pílulas mágicas” podem causar danos graves e atrasar o diagnóstico de doenças neurológicas.

Basta rolar o feed por alguns minutos para cruzar com algum anúncio reluzente. Eles prometem foco absoluto, raciocínio rápido e o fim dos lapsos de memória. Essa busca incessante por alta performance, aliada ao receio legítimo do declínio cognitivo, criou um terreno fértil para fórmulas duvidosas que viralizam na rede sem qualquer pé na ciência1.

Por trás de termos inovadores e rótulos bem-produzidos, o mercado ilegal de suplementos e compostos para a mente explora uma angústia real. Com a população envelhecendo em ritmo acelerado, a preocupação com o Alzheimer e outras síndromes neurodegenerativas cresce na mesma proporção2,3. É exatamente nessa brecha que picaretas da saúde encontram brechas para emplacar “soluções milagrosas” livres de registro sanitário.

A gravidade do problema vai muito além do prejuízo financeiro. Sem qualquer controle de qualidade, esses produtos chegam a carregar substâncias ocultas, metais pesados ou dosagens exageradas. O resultado? Um risco concreto de arritmias, lesões no fígado, surtos psicóticos e interações perigosas com remédios de uso contínuo1.

Existe ainda uma ameaça silenciosa e igualmente danosa: a falsa sensação de segurança. Ao apostar no suplemento da moda para camuflar o esquecimento, a pessoa adia a visita ao consultório4. De acordo com a diretora médica da Biogen, Tatiana Branco, esse atraso pode cobrar um preço alto, pois elimina a chance de identificar precocemente condições tratáveis ou de iniciar abordagens que desaceleram o avanço de doenças graves no momento que seriam mais eficazes.

A médica reforça a importância do papel da ciência frente ao apelo comercial do mundo virtual. Para Tatiana, o cérebro humano é uma estrutura de extrema complexidade e não existem atalhos mágicos para otimizar ou restaurar seu funcionamento.

“Quando o público recorre a formulações mágicas sem validação clínica, perde-se um tempo precioso para o diagnóstico correto de patologias reais. A verdadeira preservação cognitiva exige ciência embasada em evidências sólidas, acompanhamento neurológico contínuo e tratamentos devidamente regulamentados”, frisa.

Para combater esse avanço desordenado, é indispensável fortalecer a literacia em saúde, capacitando o cidadão a identificar os sinais de alerta em ofertas que parecem fáceis demais1. A colaboração ativa entre órgãos fiscalizadores, profissionais da medicina e a sociedade civil é a única barreira capaz de deter a disseminação da desinformação e proteger o ecossistema da neurologia4.

Referências

1. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa alerta sobre propagandas enganosas de medicamentos e produtos “milagrosos”. Disponível em: https://site.cff.org.br/noticia/Noticias-gerais/07/08/2023/anvisa-alerta-sobre-propagandas-enganosas-de-medicamentos-e-produtos-milagrosos-

2. Organização Mundial da Saúde (OMS) / ONU Brasil. OMS prevê que mundo terá 65,7 milhões de pessoas com demência até 2030. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/59411-oms-prev%C3%AA-que-mundo-ter%C3%A1-657-milh%C3%B5es-de-pessoas-com-dem%C3%AAncia-at%C3%A9-2030

3. Organização Mundial da Saúde (OMS). Dementia Fact Sheet. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/dementia

4. Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Orientações sobre saúde neurológica e diretrizes clínicas. Disponível em: https://www.neuro.org.br/

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Por Tatiana Branco

Diretora médica da Biogen

Artigo de opinião

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