O Brasil tem funcionários públicos demais? O dado que desmonta um dos discursos favoritos dos políticos

Há uma frase que atravessa eleições brasileiras com impressionante resistência ao tempo: é preciso “enxugar a máquina pública”.

Muda o candidato, muda o partido, muda a eleição, muda a crise econômica, mas a promessa continua lá. Cortar ministérios, reduzir servidores, eliminar cargos, administrar o governo “como uma empresa” e finalmente livrar o contribuinte de um Estado supostamente gigantesco e abarrotado de gente.

É uma ideia tão intuitiva que quase ninguém se preocupa em perguntar se ela é verdadeira.

Pois deveria.

Segundo dados reunidos pela OCDE em sua análise sobre o serviço público brasileiro, trabalhadores do governo correspondiam a cerca de 12,5% do emprego no Brasil. A média dos países da organização era de 17,9%.

Ou seja: proporcionalmente, o Brasil tinha menos trabalhadores no setor público do que a média das economias da OCDE.

Isso não significa que o Estado brasileiro seja eficiente.

Muito menos significa que não haja desperdício, salários distorcidos, carreiras privilegiadas, cargos desnecessários, órgãos redundantes, privilégios ou dinheiro público mal empregado.

Significa apenas algo que parece ter se tornado revolucionário no debate político brasileiro:

antes de decidir que uma coisa é grande demais, talvez seja interessante medi-la.

Um país de 213 milhões de pessoas não terá uma prefeitura de condomínio

O Brasil tinha população estimada pelo IBGE em 213,4 milhões de habitantes em 2025.

Seu território passa de 8,5 milhões de quilômetros quadrados.

São 26 estados, Distrito Federal e 5.569 municípios.

Só esses três números já deveriam provocar certa desconfiança quando alguém apresenta como grande descoberta administrativa que o Brasil possui “uma máquina pública enorme”.

É evidente que possui.

A questão é outra: enorme em relação a quê?

Um hospital com 5 mil funcionários pode parecer monstruosamente grande perto de uma clínica com 20. Isso não prova que o hospital esteja inchado. Talvez ele atenda dezenas de milhares de pacientes, tenha pronto-socorro, UTI, centro cirúrgico, laboratório e funcione 24 horas por dia.

Tamanho absoluto não mede eficiência.

Com Estados acontece exatamente a mesma coisa.

O Brasil precisa manter escolas em milhares de municípios, hospitais e unidades de saúde, universidades, Polícia Federal, Receita Federal, fiscalização ambiental e sanitária, sistema previdenciário, Forças Armadas, diplomacia, agências reguladoras, infraestrutura, Justiça, Ministério Público, segurança pública estadual, administrações municipais e uma gigantesca rede de serviços públicos.

Pode executar tudo isso mal? Claro.

Pode gastar mais do que deveria? Evidentemente.

Mas contar ministérios, prédios ou funcionários e concluir que o Estado está inchado é quase tão sofisticado quanto avaliar um restaurante pelo número de garçons sem perguntar quantas mesas ele atende.

O dado mais interessante é justamente o que complica a discussão

A comparação feita pela OCDE desmonta uma parte do discurso, mas confirma outra.

O Brasil não aparecia como um país excepcionalmente carregado de funcionários públicos. Os 12,5% do emprego registrados no estudo ficavam abaixo da média de 17,9% da OCDE.

Há países em que a participação é muito maior.

Dados mais recentes da organização mostram que, em 2023, funcionários do governo correspondiam a aproximadamente 30% do emprego na Noruega, 28% na Suécia, 27% na Dinamarca e 25% na Finlândia.

Não parece razoável concluir, a partir disso, que Noruega, Suécia ou Dinamarca sejam exemplos mundiais de Estados quebrados porque contrataram gente demais.

A própria OCDE alerta para um detalhe fundamental: comparações desse tipo exigem cuidado porque cada país organiza seus serviços de maneira diferente. Professores, profissionais de saúde e trabalhadores de emergência podem ser servidores públicos em um país e funcionários de instituições privadas financiadas pelo governo em outro.

É justamente por isso que slogans são péssimos instrumentos de análise econômica.

Mas há uma segunda informação sobre o Brasil que merece muito mais atenção.

Embora a quantidade de empregados públicos não seja excepcionalmente alta, o custo com sua remuneração é.

No levantamento citado pela OCDE, a compensação dos funcionários públicos brasileiros equivalia a 13,3% do PIB, diante de 9,2% na média dos países da organização.

Aqui, finalmente, começa uma conversa muito mais interessante.

Talvez o problema brasileiro não seja simplesmente “gente demais”.

Talvez seja quanto se paga, para quem se paga, como as carreiras são estruturadas e qual serviço a sociedade recebe em troca.

Estado grande e Estado caro são coisas diferentes

Essa distinção desaparece quase completamente no debate eleitoral.

Dizer “vou reduzir o Estado” é muito mais simples do que explicar que determinadas carreiras podem estar mal remuneradas enquanto outras concentram salários elevados, gratificações, progressões automáticas e benefícios difíceis de justificar.

Também é mais fácil anunciar o corte de dez ministérios do que enfrentar a arquitetura salarial do setor público, regras previdenciárias, vinculações constitucionais, estruturas federativas e interesses organizados.

E há outro problema: boa parte do dinheiro público nem sequer está sendo consumida por aquele estereótipo do funcionário sentado atrás de uma mesa que normalmente acompanha o discurso contra a “máquina”.

Em 2023, segundo o Tesouro Nacional, o gasto do governo geral brasileiro — União, estados e municípios — chegou a 45,3% do PIB.

Só a função de proteção social representou 16,8% do PIB.

Nesse grupo estão Previdência, programas de transferência de renda e outras políticas sociais.

Portanto, quando alguém promete dramaticamente “cortar a máquina pública”, vale perguntar onde exatamente pretende cortar.

Professor?

Médico?

Policial?

Fiscal?

Servidor do INSS?

Pesquisador?

Diplomata?

Funcionário administrativo?

Benefício previdenciário?

Ou aquele misterioso desperdício bilionário que todos os candidatos garantem que encontrarão assim que receberem a senha do Palácio do Planalto?

Cortar ministério é uma das mágicas favoritas de campanha

Há algo particularmente sedutor na promessa de reduzir ministérios.

É visual.

O eleitor entende.

Se existem 30 e o candidato promete deixar 20, aparentemente eliminou um terço do Estado.

Só que organograma não funciona assim.

Extinguir um ministério não faz necessariamente desaparecer suas atribuições, funcionários, contratos e obrigações legais. Muitas vezes eles apenas passam para outro ministério.

Você pode transformar três caixas em uma caixa maior e anunciar que eliminou duas caixas.

O conteúdo continua lá dentro.

Isso não significa que ministérios jamais devam ser fundidos ou extintos. Estruturas administrativas precisam ser permanentemente revistas.

Significa apenas que quantidade de ministérios é uma péssima unidade para medir tamanho ou eficiência do Estado.

A pergunta relevante é se determinada função precisa existir, quanto custa executá-la e qual a melhor maneira de fazê-la.

Aliás, existe uma ironia recorrente nesse discurso.

Candidatos defendem reduzir ministérios e, poucos minutos depois, apresentam problemas que consideram tão importantes que mereceriam novas secretarias, órgãos, agências ou ministérios.

Segurança precisa de estrutura.

Inteligência artificial precisa de estrutura.

Combate ao crime organizado precisa de estrutura.

Fiscalização precisa de estrutura.

Políticas ambientais precisam de estrutura.

Saúde precisa de estrutura.

Educação precisa de estrutura.

Quando o político começa a descobrir tudo aquilo que o Estado efetivamente precisa fazer, aquele organograma maravilhosamente compacto desenhado durante a campanha começa a ganhar caixas novamente.

Administrar o Brasil não é administrar uma empresa

Outra comparação eleitoral recorrente é dizer que o Estado deveria ser administrado como uma empresa.

Há muito que a administração pública pode aprender com empresas: processos melhores, tecnologia, avaliação de desempenho, metas, automação, gestão de projetos e eliminação de desperdícios.

Mas Estado não é empresa.

Uma empresa pode abandonar uma cidade porque operar ali não é lucrativo.

O Estado não pode.

Uma empresa pode decidir não atender um cliente caro.

O SUS não deveria.

Uma empresa pode fechar uma unidade que dá prejuízo.

Uma escola pública em uma pequena cidade não existe necessariamente para gerar retorno financeiro.

Uma transportadora pode concluir que entregar alguma coisa no interior da Amazônia não compensa.

O Estado continua tendo cidadãos brasileiros vivendo lá.

Eficiência pública, portanto, não pode ser medida simplesmente pela lógica de lucro e prejuízo.

Isso não é desculpa para ineficiência.

É apenas reconhecer que a finalidade é diferente.

E sim, o Estado brasileiro custa muito

É aqui que a discussão precisa escapar também da torcida organizada do outro lado.

Descobrir que o Brasil não possui proporcionalmente uma multidão incomum de servidores não transforma automaticamente a máquina pública em exemplo de boa gestão.

O próprio dado da OCDE sobre gastos com remuneração mostra que há um problema importante.

O Estado brasileiro é caro.

Há distorções salariais.

Há carreiras muito poderosas.

Há sobreposição de estruturas.

Há desperdício.

Há burocracia inútil.

Há serviços ruins apesar de gastos elevados.

Há sistemas que poderiam ser completamente digitalizados.

Há tarefas repetitivas que tecnologia e inteligência artificial poderão reduzir drasticamente nos próximos anos.

Reformar tudo isso é necessário.

Mas existe uma diferença gigantesca entre discutir eficiência e simplesmente repetir que “o Estado é grande demais”.

A primeira exige números, diagnóstico, comparação internacional, conhecimento administrativo e escolhas difíceis.

A segunda exige um microfone.

A pergunta está errada

Talvez tenhamos passado décadas discutindo se o Estado brasileiro é grande ou pequeno quando deveríamos perguntar outra coisa.

O Estado brasileiro entrega serviços compatíveis com aquilo que custa?

Essa pergunta é muito mais desconfortável.

Porque permite chegar a conclusões diferentes ao mesmo tempo.

Podemos descobrir setores com gente demais e outros com gente de menos.

Carreiras super-remuneradas e profissionais essenciais ganhando pouco.

Órgãos redundantes e serviços públicos sem estrutura suficiente.

Municípios que dificilmente conseguiriam sustentar uma administração própria e regiões onde o Estado praticamente não chega.

Esse é o problema da realidade.

Ela insiste em ser mais complicada do que um slogan eleitoral.

Defender eficiência do gasto público não exige acreditar que todo servidor seja inútil.

Defender serviços públicos não exige aceitar desperdício.

Responsabilidade fiscal não pertence à direita.

Política social não pertence à esquerda.

E um país continental com mais de 200 milhões de habitantes inevitavelmente terá uma estrutura estatal gigantesca em números absolutos.

A discussão adulta começa depois disso.

Não é “quantas pessoas trabalham para o Estado?”

É “quanto gastamos, onde gastamos e o que recebemos em troca?”

Todo o resto pode render um excelente discurso de campanha.

Mas ainda não é gestão pública.

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