Microsoft vende a fábrica e depois chama o produto de lixo
Dona do LinkedIn aposta bilhões em inteligência artificial, vende ferramentas para produzir mais e mais rápido e agora oferece ao usuário um botão para denunciar o resultado dessa industrialização como “lixo de IA”
Há uma contradição difícil de ignorar no movimento mais recente das grandes empresas de tecnologia em relação à inteligência artificial generativa. Depois de anos vendendo automação, escala, produtividade e produção acelerada de conteúdo como algumas das grandes virtudes da IA, essas mesmas companhias começam agora a criar mecanismos para identificar, reduzir o alcance ou até permitir que os usuários denunciem justamente o resultado mais previsível dessa estratégia: uma internet inundada por textos, imagens, vídeos e publicações produzidos em massa.
O caso mais emblemático talvez seja o da Microsoft, não apenas pelo tamanho da empresa ou pelo volume de investimentos feitos em inteligência artificial, mas porque a contradição aparece dentro do próprio ecossistema da companhia. Enquanto a Microsoft promove ferramentas como o Copilot com a promessa de tornar profissionais e empresas mais produtivos, automatizando tarefas e acelerando a criação de documentos, apresentações, textos e outros materiais, o LinkedIn, que pertence à empresa, passou a oferecer uma opção para que usuários denunciem determinadas publicações com a expressão pouco diplomática “Parece lixo de IA”.
Segundo reportagem do g1, o LinkedIn também está desenvolvendo classificadores destinados a identificar publicações consideradas “AI slop”, expressão utilizada para definir conteúdos produzidos em grande quantidade, com pouco valor agregado e frequentemente criados apenas para conquistar visualizações, engajamento ou algum tipo de retorno financeiro.
O problema não está em combater conteúdo ruim. Plataformas têm todo o direito de tentar melhorar a experiência de seus usuários e reduzir a circulação de material repetitivo, enganoso ou simplesmente inútil. A questão é outra: existe algo intelectualmente desonesto em apresentar a industrialização da produção como uma revolução quando ela interessa ao vendedor da tecnologia e, depois, tratar essa mesma industrialização como um problema criado pelos usuários quando seus efeitos começam a degradar o ambiente digital.
Durante os últimos anos, praticamente toda a comunicação comercial relacionada à inteligência artificial generativa esteve baseada na ideia de fazer mais em menos tempo. Produzir textos rapidamente, criar várias versões de uma campanha, automatizar apresentações, gerar imagens em segundos, transformar reuniões em relatórios e multiplicar a capacidade produtiva de equipes inteiras deixaram de ser apresentados apenas como possibilidades técnicas e passaram a ser vendidos como vantagens competitivas fundamentais.
Nada disso é necessariamente negativo. A inteligência artificial pode, de fato, aumentar de maneira extraordinária a produtividade de bons profissionais, eliminar tarefas repetitivas e liberar tempo para atividades mais estratégicas. O problema surge quando se vende a escala como benefício sem reconhecer que, quando o custo de produção cai drasticamente, a consequência natural é um aumento igualmente dramático da quantidade produzida.
Se uma ferramenta permite criar cinquenta peças de conteúdo no tempo anteriormente necessário para produzir cinco, alguém inevitavelmente produzirá cinquenta. Se milhões de pessoas recebem simultaneamente essa capacidade, não é exatamente surpreendente que redes sociais, sites e plataformas comecem a receber volumes gigantescos de material automatizado.
É justamente nesse ponto que a atual reação das plataformas parece quase uma tentativa de apagar as próprias impressões digitais.
A indústria da tecnologia ajudou a construir a fábrica, forneceu as máquinas, ensinou como operá-las, vendeu a promessa de produção em escala e agora demonstra preocupação porque os galpões estão cheios de produtos industrializados.
No caso da Microsoft, a situação é ainda mais peculiar porque a companhia ocupa simultaneamente os dois lados dessa equação. De um lado, comercializa inteligência artificial como ferramenta capaz de acelerar a produção intelectual e criativa das empresas. Do outro, por meio do LinkedIn, passa a classificar parte do resultado desse processo como “lixo de IA”.
A comparação com uma indústria tradicional talvez ajude a revelar o absurdo. Seria como uma fabricante vender durante anos máquinas capazes de produzir milhares de refeições por hora, destacar como grande vantagem a redução do tempo e do trabalho necessários para cozinhar e, depois, abrir um restaurante no qual os clientes pudessem apertar um botão dizendo que determinada comida “parece industrializada demais”.
O problema, evidentemente, não seria a existência da máquina, mas a tentativa de fingir que o resultado não guarda qualquer relação com aquilo que foi promovido como vantagem comercial.
Há ainda uma questão econômica mais profunda por trás dessa mudança de postura. A inteligência artificial tornou a produção de conteúdo praticamente ilimitada, mas não aumentou a quantidade de atenção humana disponível para consumi-lo. Uma máquina pode gerar mil textos durante uma madrugada, mas um leitor continua tendo apenas algumas horas por dia para ler. É possível criar milhões de vídeos adicionais, mas ninguém ganhou milhões de minutos extras para assisti-los.
A consequência é que o gargalo deixou de estar na produção e passou para a seleção.
Durante boa parte da história da internet, produzir conteúdo exigia algum nível de esforço, conhecimento, equipamento, dinheiro ou tempo, o que naturalmente limitava a quantidade disponível. A IA generativa destruiu boa parte dessa barreira e criou uma situação inédita em que produzir pode custar quase nada, enquanto conquistar atenção continua extremamente difícil.
As próprias plataformas começaram a perceber o efeito desse desequilíbrio. Especialistas ouvidos pelo g1 apontam que feeds dominados por conteúdos genéricos diminuem o valor percebido pelos usuários e ainda aumentam riscos jurídicos, regulatórios e de reputação para as empresas.
Portanto, o movimento atual não parece decorrer apenas de alguma repentina preocupação com criatividade, autoria ou qualidade cultural. Existe um problema comercial bastante concreto: se tudo começa a parecer igual, a plataforma se torna menos interessante; se o usuário precisa atravessar dezenas de publicações genéricas para encontrar uma que realmente agregue algo, sua disposição para permanecer ali diminui.
É nesse ponto que talvez esteja surgindo uma das grandes ironias da era da inteligência artificial. Quanto mais barato se torna produzir conteúdo, menos valor possui o simples ato de produzir conteúdo.
Um texto deixa de ser valioso apenas porque existe. Uma imagem deixa de impressionar apenas porque parece profissional. Uma empresa publicar dez vezes por dia não significa necessariamente que tenha dez coisas relevantes a dizer.
O valor começa a migrar para atributos que não são facilmente industrializados: experiência, conhecimento real, repertório, investigação, opinião própria, credibilidade, autoria e capacidade de selecionar aquilo que realmente merece ser publicado.
Isso também ajuda a explicar por que seria equivocado transformar a discussão numa crítica simplista à inteligência artificial. O problema não é usar IA, assim como uma câmera digital nunca tornou necessariamente ruim uma fotografia ou um processador de texto nunca tornou necessariamente ruim um livro.
Uma boa ferramenta utilizada por alguém competente pode melhorar significativamente um trabalho. O que tende a gerar mediocridade é substituir critério, conhecimento e propósito por produção automática indiscriminada.
A diferença é importante porque permite enxergar a verdadeira responsabilidade das empresas que agora tentam combater o chamado “AI slop”. Não foram elas que inventaram a falta de criatividade, o conteúdo oportunista ou a busca desesperada por audiência, mas foram essas companhias que reduziram drasticamente o custo necessário para produzir tudo isso em escala industrial e, durante muito tempo, apresentaram essa capacidade como algo quase exclusivamente positivo.
Agora que começam a aparecer os custos dessa abundância, surge uma narrativa conveniente segundo a qual o problema estaria apenas na maneira como determinadas pessoas utilizam a tecnologia.
É uma explicação confortável demais.
Se uma indústria incentiva durante anos a produção em escala, talvez precise assumir alguma responsabilidade quando descobre que escala sem critério produz excesso, repetição e perda de valor.
A Microsoft certamente continuará vendendo soluções de inteligência artificial, e não há qualquer razão para que deixe de fazê-lo. A tecnologia tem aplicações extraordinárias e ainda está apenas começando a transformar inúmeras atividades profissionais.
Mas seria saudável abandonar a tentativa de apresentar as duas coisas como fenômenos completamente independentes.
Não é possível vender indefinidamente a ideia de produzir mais, mais rápido e com menos esforço e depois demonstrar espanto quando o mundo passa a produzir mais, mais rápido e com menos esforço.
Talvez o verdadeiro “lixo de IA” não seja simplesmente aquilo que uma máquina ajudou a produzir, mas aquilo que foi criado sem conhecimento, intenção ou qualquer razão para existir além da capacidade técnica de apertar um botão.
E, nesse caso, antes de perguntar ao usuário se determinado conteúdo parece lixo de IA, empresas como a Microsoft talvez devessem enfrentar uma pergunta um pouco mais desconfortável: quanto desse lixo nasceu exatamente da revolução da produtividade que elas mesmas venderam ao mercado?



