Memória falhando? O excesso de telas pode afetar o foco
Pesquisas associam uso problemático de redes sociais a mais lapsos de memória, mas especialistas ressaltam que isso não prova causa e efeito.
Esquecer onde deixou um objeto, entrar em um cômodo e não lembrar o que ia fazer, perder o fio da leitura ou não conseguir recordar algo que acabou de ouvir são situações cada vez mais comuns no dia a dia. No entanto, isso não significa necessariamente que a memória está piorando.
Queixas relacionadas à memória não são novidade e, segundo estudos populacionais, têm se tornado mais frequentes nas últimas décadas. Mas a sensação de que a memória está falhando pode estar ligada a um processo anterior à memorização: a atenção.
Para que uma informação seja armazenada e recuperada posteriormente, é preciso que ela seja percebida e registrada adequadamente. Em uma rotina marcada por interrupções constantes, notificações, mensagens e múltiplos estímulos simultâneos, manter o foco em uma única tarefa torna-se um desafio. A sensação de que tudo exige resposta imediata, como uma mensagem que chega enquanto se trabalha ou uma notificação que interrompe a leitura, pode dificultar a concentração necessária para codificar as informações.
O que as pesquisas indicam
Um estudo liderado pela Universidade Camilo José Cela, na Espanha, publicado em junho de 2026, avaliou 943 pessoas entre 18 e 35 anos para investigar a relação entre uso problemático das redes sociais e falhas de memória no cotidiano. O estudo analisou a memória prospectiva, que é a capacidade de lembrar de realizar ações planejadas, e a memória retrospectiva, relacionada a lembranças de eventos passados. Os resultados mostraram uma associação entre níveis mais elevados de uso problemático das redes sociais — caracterizado pelo uso excessivo, difícil de controlar e que interfere nas atividades diárias — e maior frequência de lapsos de memória.
Outro estudo, da Universidade de Michigan (EUA), publicado em 2020, analisou dados de 782 pessoas entre 25 e 75 anos participantes do MIDUS (Midlife in the United States), um estudo longitudinal sobre saúde e bem-estar. Durante oito dias consecutivos, os participantes registraram suas atividades e experiências cotidianas. A análise indicou que, nos dias em que o uso de redes sociais foi maior, os relatos de falhas de memória também aumentaram naquele dia e no seguinte.
Os pesquisadores de Michigan destacaram que as redes sociais podem ter efeitos positivos e negativos sobre a memória. Elas funcionam como uma memória externa, permitindo armazenar e recuperar informações, além de favorecer a manutenção de relações sociais. Por outro lado, o uso frequente pode causar interrupções e fragmentar a atenção.
Associação, não causalidade
É importante ressaltar que esses estudos indicam associações, não uma relação de causa e efeito. A psiquiatra Danielle Admoni, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e supervisora na residência de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), comenta: “Esses estudos mostram associações, e não uma relação de causa e efeito. Mas eles levantam uma questão importante: o uso excessivo das redes, a quantidade de notificações e as constantes interrupções podem dificultar nossa capacidade de manter o foco”.
Além das telas, a sobrecarga de informações, as demandas de trabalho e os cuidados com a família também podem comprometer a concentração. Para melhorar o foco e reduzir lapsos de memória, algumas recomendações incluem:
- Manter horários regulares de sono, incluindo finais de semana;
- Praticar exercícios físicos regularmente, preferencialmente não à noite;
- Expor-se à luz solar durante o dia;
- Evitar usar a cama para atividades como assistir TV ou trabalhar no computador;
- Manter o quarto escuro, fresco e silencioso para dormir;
- Evitar bebidas alcoólicas, cafeína e diuréticos perto da hora de dormir;
- Desligar ou deixar o celular em outro cômodo durante tarefas que exigem concentração;
- Realizar uma atividade por vez, evitando multitarefas.
O desafio contemporâneo pode ser recuperar a capacidade de estar plenamente focado em uma única tarefa, minimizando as distrações e interrupções que dificultam a atenção e a memorização.
Texto gerado a partir de informações da assessoria com ajuda da estagiárIA



