52 milhões no cartão com juros: se tanta gente não consegue pagar, quem foi que decidiu emprestar?

Mais da metade dos usuários ativos de cartão de crédito no Brasil já entrou em modalidades com cobrança de juros. Enquanto o debate insiste em educação financeira do consumidor, uma pergunta fica quase sempre em segundo plano: quem avaliou o risco e liberou todo esse crédito?

Durante a abertura da Febraban Tech 2026, nesta segunda-feira (24), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, resumiu uma contradição que há anos acompanha o mercado financeiro brasileiro.

“Não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar do endividamento”, afirmou.

A frase parece óbvia. E justamente por isso deveria provocar uma discussão muito maior.

O crédito que uma instituição concede é, necessariamente, a dívida assumida por outra pessoa. Portanto, comemorar sucessivos recordes de acesso ao crédito, aumento de limites, bancarização e expansão da carteira das instituições financeiras e depois tratar o crescimento do endividamento apenas como problema de comportamento do consumidor é analisar apenas metade da equação.

Os próprios números apresentados pelo Banco Central deixam claro o tamanho do fenômeno.

Segundo o Relatório de Cidadania Financeira 2025, do BC, 52,8 milhões de brasileiros possuíam, no segundo semestre de 2024, dívidas em modalidades de cartão que cobram juros. A classificação inclui crédito rotativo, parcelamento da fatura e rotativo não migrado. No mesmo período, havia 96,6 milhões de usuários com carteira ativa de cartão de crédito. Em outras palavras, mais da metade dos usuários havia recorrido justamente às modalidades mais problemáticas do produto.

E não se trata apenas de mais pessoas usando cartão.

O Banco Central aponta que o comprometimento médio da renda dos usuários com a fatura total do cartão passou de 38,5% em 2020 para 54% em 2024. O dado inclui compras à vista e parcelamentos sem juros, portanto não significa que 54% da renda esteja necessariamente destinada ao pagamento de juros. Ainda assim, mostra quanto o cartão passou a ocupar espaço dentro do orçamento doméstico brasileiro.

Ao mesmo tempo, o comprometimento médio especificamente com dívidas com juros no cartão dobrou em quatro anos, segundo o relatório.

A pergunta inevitável deveria ser: como chegamos a 52,8 milhões de pessoas usando crédito caro?

Crédito não aparece sozinho no celular

Grande parte do discurso de educação financeira concentra a responsabilidade no consumidor.

É preciso controlar os gastos. Evitar compras desnecessárias. Não usar o rotativo. Não parcelar a fatura. Manter uma reserva de emergência. Preservar o nome e o score.

Tudo isso pode ser útil.

Mas existe um personagem curiosamente discreto nessa narrativa: quem concedeu o crédito.

Um limite de cartão não é criado pelo consumidor. Uma instituição financeira decidiu disponibilizá-lo.

Um empréstimo pré-aprovado não foi inventado pelo cliente. Alguém desenvolveu um modelo estatístico, analisou informações financeiras e concluiu que aquele dinheiro poderia ser oferecido.

A instituição sabe a renda estimada do cliente, conhece seu histórico de pagamento, acompanha movimentações, consulta bancos de dados, calcula probabilidades de inadimplência e possui sistemas sofisticados de análise de risco.

Em alguns casos, sabe mais sobre o comportamento financeiro daquela pessoa do que ela própria.

Mesmo assim, milhões de consumidores acabam entrando no rotativo e no parcelamento da fatura.

É legítimo discutir a responsabilidade de quem tomou o dinheiro. Mas é igualmente legítimo perguntar pela responsabilidade de quem decidiu emprestá-lo.

Quando são 52 milhões, talvez não seja apenas falta de educação financeira

Casos individuais podem ser explicados por desorganização financeira, desemprego, doença, emergências ou simplesmente decisões ruins de consumo.

Mas quando o fenômeno alcança dezenas de milhões de pessoas, talvez seja insuficiente explicar tudo como uma sucessão gigantesca de erros individuais.

O próprio Banco Central identifica grupos mais vulneráveis.

No relatório de 2025, a instituição aponta mulheres, jovens e população de baixa renda entre aqueles mais expostos às modalidades de dívida com juros no cartão. Entre os jovens, por exemplo, 17 milhões utilizaram cartão de crédito em 2024 e 13 milhões também recorreram ao rotativo ou parcelamento.

Isso acontece em uma economia na qual muita gente possui renda baixa, instável ou informal.

É justamente aí que a facilidade do crédito produz uma ilusão poderosa.

Quem recebe R$ 2 mil por mês pode temporariamente consumir como alguém que recebe mais porque possui R$ 3 mil, R$ 5 mil ou R$ 10 mil de limite disponível.

Durante algum tempo, isso parece aumento do poder de compra.

Na realidade, é antecipação do poder de compra futuro.

E há uma diferença gigantesca entre as duas coisas.

O salário aumenta permanentemente a capacidade de consumo. O crédito apenas permite gastar hoje o dinheiro que deverá ser retirado da renda de amanhã — frequentemente acrescido de juros.

O próprio BC reconhece que a expansão do acesso mudou o endividamento

No Relatório de Política Monetária de junho de 2026, o Banco Central informou que o endividamento das famílias chegou a 49,8% da renda em março, apenas 0,1 ponto percentual abaixo do recorde histórico registrado em julho de 2022.

O comprometimento da renda com pagamentos de operações de crédito estava em 29,3%, depois de atingir 29,6% no mês anterior.

Mas o trecho mais interessante do relatório talvez não sejam os números.

O próprio BC afirma que o processo de inclusão bancária, combinado às inovações tecnológicas e às condições do mercado de trabalho, ampliou o acesso das famílias ao crédito e fez o endividamento mudar de patamar, principalmente pelo crescimento do número de tomadores.

Portanto, não é apenas uma interpretação crítica sobre o sistema financeiro.

O próprio regulador reconhece a relação.

Mais pessoas entraram no sistema financeiro. Mais pessoas conseguiram crédito. Mais pessoas passaram a dever.

É exatamente o que Galípolo disse na Febraban Tech:

não é possível comemorar uma coisa e se surpreender com a outra.

O problema começa quando o crédito vira complemento de salário

Galípolo também fez uma distinção importante durante o evento.

Uma dívida usada para financiar um imóvel, por exemplo, cria um ativo para a família. O problema, segundo o presidente do BC, aparece quando o endividamento financia “um consumo efêmero”, especialmente quando envolve juros elevados ou uma modalidade inadequada de crédito.

Essa diferença é fundamental.

Crédito pode ser extremamente útil quando permite comprar uma casa, financiar um equipamento produtivo, investir em uma empresa ou resolver uma necessidade excepcional.

A situação muda quando o cartão começa a funcionar como complemento permanente de renda.

Supermercado entra no cartão. Combustível entra no cartão. Farmácia entra no cartão. Uma fatura é parcialmente paga, o restante vira crédito, no mês seguinte chega uma nova fatura e a renda futura começa a ser comprometida antes mesmo de cair na conta.

Nesse momento, não estamos mais falando apenas de alguém antecipando a compra de um produto.

Estamos falando de uma população que passou a financiar o cotidiano.

E quando muita gente não conseguir mais pagar?

Instituições financeiras sabem que uma parcela de seus clientes ficará inadimplente.

Esse risco faz parte do negócio bancário. Ele é estimado, precificado e provisionado.

O problema econômico surge quando a inadimplência deixa de ser pontual e cresce simultaneamente entre milhões de pessoas.

Uma família cuja renda não consegue pagar alimentação, aluguel, energia, transporte e cartão terá de estabelecer prioridades.

E não é difícil imaginar qual despesa ficará por último.

Se esse comportamento se torna massivo, o problema que inicialmente parecia particular passa a atingir bancos, comércio, consumo e atividade econômica.

É justamente por isso que outro trecho da fala de Galípolo merece atenção.

Segundo o presidente do BC, é necessário que cada instituição esteja devidamente provisionada para o risco que efetivamente assume ao oferecer seus serviços. Ele também afirmou que ninguém deseja assistir ao crescimento de uma instituição baseado na aposta de que, se “a música parar”, o problema acabará aparecendo em outro balanço.

A frase toca no centro da questão.

Se a concessão do crédito gera lucro privado enquanto funciona, o risco assumido na operação também precisa permanecer, tanto quanto possível, com quem tomou a decisão de concedê-lo.

Caso contrário, cria-se um incentivo perverso: expandir agressivamente enquanto o mercado cresce e discutir quem absorverá o prejuízo apenas quando a situação se deteriorar.

Educação financeira precisa existir dos dois lados do balcão

É evidente que o consumidor possui responsabilidade sobre suas escolhas.

Cartão de crédito não é renda. Limite não é patrimônio. Empréstimo não aumenta salário.

Mas transformar toda uma crise de endividamento em problema de educação financeira individual é confortável demais.

Se uma pessoa recebe crédito que evidentemente não conseguiria sustentar em uma situação minimamente adversa, houve uma decisão também do outro lado da operação.

E essa decisão foi tomada justamente pela parte que dispõe dos melhores modelos estatísticos, maiores bancos de dados, departamentos de risco, economistas, sistemas de inteligência artificial e décadas de experiência financeira.

Talvez seja hora de ampliar o conceito de educação financeira.

O consumidor precisa aprender a não tomar crédito que não consegue pagar.

Mas quem concede crédito também precisa aprender a não emprestar aquilo que o cliente provavelmente não conseguirá devolver.

Quando 52,8 milhões de brasileiros já chegaram às modalidades do cartão que cobram juros, perguntar apenas por que tanta gente se endividou é insuficiente.

A pergunta que falta é muito mais incômoda:

se tanta gente não consegue pagar, quem foi que decidiu emprestar?

 

Fontes: Banco Central do Brasil — Relatório de Cidadania Financeira 2025; Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária, junho de 2026; declarações de Gabriel Galípolo na abertura da Febraban Tech 2026, em 24 de agosto de 2026, reproduzidas pelo UOL.

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar