Suplementos para ganho de massa muscular e emagrecimento: quando o rótulo não conta toda a história
Produtos vendidos como naturais podem conter substâncias não declaradas e oferecer riscos graves ao fígado e à saúde cardiovascular.
Suplementos para ganho de massa muscular e emagrecimento: quando o rótulo não conta toda a história
Ferdinando Lucas Góis*
O consumo de suplementos alimentares voltados ao ganho de massa muscular e ao emagrecimento nunca esteve tão presente entre praticantes de atividade física. Impulsionados pelo comércio eletrônico e pelas redes sociais, esses produtos alcançam um número crescente de consumidores. Embora muitos sejam comercializados como naturais e seguros, nem sempre seu conteúdo corresponde ao descrito no rótulo. Entre os riscos está a presença de substâncias farmacologicamente ativas não declaradas, incluindo esteroides anabolizantes e fármacos sintéticos.
A facilidade de aquisição pela internet, associada à diversidade de formulações e à dificuldade de verificar sua composição real, representa um desafio para consumidores, profissionais de saúde e órgãos de fiscalização.
A literatura demonstra que a adulteração de suplementos não é incomum. Análise da base de produtos adulterados da Food and Drug Administration (FDA), entre 2007 e 2021, identificou mais de mil produtos contendo fármacos não declarados. Embora produtos para melhora do desempenho sexual e emagrecimento tenham predominado, suplementos esportivos destinados ao ganho de massa muscular também figuraram entre as categorias suscetíveis à adulteração.
Esse cenário está diretamente relacionado à farmacovigilância. Recentemente, dois artigos internacionais desenvolvidos no âmbito de uma linha de pesquisa em farmacovigilância translacional e segurança de produtos para a saúde abordaram o problema. O primeiro, publicado na Toxicology Reports, investigou um caso de lesão hepática aguda associado ao consumo de um produto para emagrecimento adquirido pela internet. A investigação combinou avaliação de causalidade por RUCAM, análises por GC-MS e ICP-OES e ensaio toxicológico. Os resultados evidenciaram discrepâncias entre a composição declarada e a encontrada, incluindo substâncias sintéticas potencialmente tóxicas.
O segundo, publicado na Case Reports in Hepatology, ampliou a investigação para uma série de cinco casos suspeitos de lesão hepática associada ao uso de ervas e suplementos irregulares. Os achados reforçaram que a adulteração desses produtos não representa apenas uma irregularidade sanitária, mas também um importante risco toxicológico, diante da presença de xenobióticos potencialmente hepatotóxicos.
Entre os suplementos destinados ao ganho de massa muscular, preocupa especialmente a presença não declarada de esteroides anabolizantes. A exposição inadvertida pode aumentar o risco de eventos cardiovasculares e hepáticos, incluindo alterações da pressão arterial, piora do perfil lipídico e acidente vascular cerebral (AVC).
No fígado, determinados esteroides anabolizantes orais estão associados à colestase e a alterações estruturais, como adenomas e peliose hepática. Estudos recentes sobre estanozolol descrevem um fenótipo predominantemente colestático. Algumas exposições também podem comprometer a microcirculação hepática. O envolvimento de pequenos ramos portais e do compartimento sinusoidal pode participar de processos associados ao desenvolvimento da doença porto-sinusoidal (DPS), condição vascular caracterizada por alterações do sistema porta e dos sinusoides na ausência de cirrose. Sua evolução pode aumentar a resistência ao fluxo portal e resultar em hipertensão portal, manifestada por esplenomegalia, ascite e hemorragia digestiva.
Casos de lesão hepática associados a esteroides anabolizantes e suplementos de composição desconhecida estão documentados na literatura. Como a presença de substâncias farmacologicamente ativas frequentemente não é informada, o diagnóstico pode ser dificultado e a identificação do agente responsável, retardada.
Na prática clínica, diante de alterações das enzimas hepáticas, é fundamental investigar não apenas medicamentos prescritos, mas também produtos herbais, suplementos e fórmulas manipuladas, especialmente aqueles adquiridos pela internet. Muitas vezes, o paciente não reconhece ervas e suplementos como possíveis agentes de lesão hepática e deixa de mencioná-los durante a consulta.
Nesse contexto, a atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) na identificação e retirada de produtos irregulares é essencial, especialmente diante da comercialização de produtos com ingredientes não autorizados ou composição diferente da declarada. Investir em pesquisa científica, fortalecer a vigilância sanitária e ampliar a educação da população são medidas fundamentais para reduzir esses riscos.
Para os profissionais de saúde, investigar o uso de suplementos deve integrar a avaliação clínica, considerando não apenas o produto relatado pelo paciente, mas também a possibilidade de que sua composição real seja diferente daquela informada no rótulo. Afinal, em um mercado cada vez maior e acessível com poucos cliques, permanece uma pergunta fundamental: sabemos realmente o que existe dentro daquilo que consumimos?
*Ferdinando Lucas Góis é farmacêutico-bromatologista, professor dos cursos da área da saúde do Centro Universitário Internacional UNINTER. Além da docência, atua como pesquisador-bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Assistência Farmacêutica da Universidade Federal da Bahia (PPGASFAR/UFBA). É pesquisador do Projeto HILI (Herb-Induced Liver Injury), voltado para o estudo das lesões hepáticas induzidas por produtos herbais. Possui o título de mestre em Ciências Farmacêuticas pelo PPGFARMA da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é especialista em Atenção Farmacêutica e Farmácia Clínica pelo IPOG.
Por Ferdinando Lucas Góis
farmacêutico-bromatologista, professor dos cursos da área da saúde do Centro Universitário Internacional UNINTER, pesquisador-bolsista da CAPES, doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Assistência Farmacêutica da Universidade Federal da Bahia (PPGASFAR/UFBA), pesquisador do Projeto HILI (Herb-Induced Liver Injury), mestre em Ciências Farmacêuticas pelo PPGFARMA da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), especialista em Atenção Farmacêutica e Farmácia Clínica pelo IPOG
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