Como a iluminação transforma a percepção do porcelanato

Temperatura de cor, intensidade e posicionamento das luminárias revelam texturas, veios, relevos e tonalidades dos revestimentos

Como a iluminação interfere na percepção do porcelanato

Da temperatura de cor ao posicionamento das luminárias, a iluminação interfere diretamente na percepção de texturas, veios, relevos, acabamentos e tonalidades. Especialista esclarece que luz e revestimento devem ser especificados em conjunto desde o início do projeto

A Série Lumina é inspirada na estética exótica das rochas retroiluminadas. Seus veios orgânicos em tons âmbar, dourado e cobre, percorrem a superfície das peças com um efeito visual translúcido e vibrante – como se a luz emanasse de dentro para fora –, resultado da combinação entre a impressão HD com o acabamento Micro Crystal das peças. Disponível no SuperFormato 160 x 320 cm | Foto: Divulgação

Um porcelanato pode ter diferentes leituras dependendo da maneira como é iluminado. Veios que parecem discretos ganham profundidade, relevos passam a revelar sua tridimensionalidade e nuances de cor tornam-se mais evidentes. Em contrapartida, uma escolha inadequada de temperatura de cor, intensidade luminosa ou posicionamento das luminárias pode comprometer a percepção pretendida para o material dentro do projeto de arquitetura.

É nesse ponto que o projeto luminotécnico assume um papel que ultrapassa a definição dos pontos de luz. A iluminação participa da leitura dos materiais, interfere na maneira como as superfícies são percebidas no espaço e pensar sobre essa relação é também uma forma de aproveitar integralmente as características estéticas e técnicas de cada porcelanato.

“Um excelente revestimento pode não mostrar todo o seu potencial quando a iluminação não é pensada para ele. O mesmo material é capaz de transmitir sensações completamente diferentes dependendo da forma como a luz incide sobre sua superfície. É ela que evidencia texturas, realça relevos, destaca veios, altera a percepção das cores e cria profundidade”, explica o arquiteto Carlos Bianco, responsável pelo showroom.

Iluminação deve ser pensada junto com a escolha dos revestimentos

A Série Athea Natural funciona como pano de fundo do living assinado pela arquiteta Ana Mitzakoff para o Espaço Wellness na Campinas Decor 2026. Os perfis de LED especificados pela profissional valorizam os veios e a riqueza de detalhes do revestimento | Fotos: fredfproducoes

A relação entre revestimento e iluminação começa ainda na etapa de especificação. Para o arquiteto, os dois elementos devem ser definidos como partes de uma mesma estratégia, já que a escolha do porcelanato influencia a iluminação e, ao mesmo tempo, a luz determina como suas características serão percebidas.

“Revestimento e iluminação se complementam e o tipo definido influencia diretamente na estratégia que designamos para o luminotécnico do ambiente. O contrário também acontece, uma vez que a iluminação interfere na forma como esse revestimento será percebido”, afirma.

Em um projeto, é preciso considerar a iluminação natural, que modifica a leitura do revestimento ao longo do dia. A intensidade, a direção e a temperatura de cor da luz do sol variam entre manhã, tarde e início da noite, fazendo com que uma mesma superfície apresente diferentes nuances.

No ambiente Champagne Lounge, do arquiteto Rodrigo Borges para CASACOR Goiás, a luz incide sobre o acabamento natural da Série Capolavoro, transmitindo o brilho suave e a textura atemporal do mármore italiano travertino | Fotos: panobiancofotografia

Esse planejamento envolve desde o acabamento escolhido, a paginação, a posição das luminárias, os ângulos de abertura e a distribuição dos pontos de luz. “Não existe uma única temperatura de cor ideal. Em projetos de interiores, a iluminação em torno de 4000 K, conhecida como branco neutro, é frequentemente considerada quando se busca uma reprodução mais fiel das cores dos materiais, sempre respeitando a atmosfera e a intenção do projeto”, explica Carlos.

A orientação vale especialmente para porcelanatos com maior riqueza de detalhes. Um material com veios marcados, relevos ou esmaltes especiais pode perder parte de suas características quando submetido a uma iluminação que não considera sua superfície. “Costumo dizer que os revestimentos cerâmicos trazem camadas sensoriais. A iluminação é a última delas”, resume o arquiteto.

Atributos x impactos: quando a luz valoriza (ou compromete) o material

A iluminação realça os detalhes dos SuperFormatos. A Série Taj Mahal é valorizada em sua potência máxima na Suíte Master assinada pelos arquitetos Kilian Pontin Luque e Flávia Siqueira para a Campinas Decor 2026 | Foto: fredfproducoes

Cada acabamento reage à luz de uma maneira. As superfícies polidas e Micro Crystal, por exemplo, apresentam maior reflexão e exigem atenção para evitar reflexos excessivos e ofuscamento. Já os acabamentos Mate, acetinados e Soft Touch distribuem a iluminação de maneira mais uniforme, enquanto no Micro Relevo, por sua vez, a incidência luminosa pode ser determinante para que as texturas sejam percebidas.

“Mais importante do que a quantidade de luz é a forma como ela incide sobre a superfície. Uma iluminação rasante evidencia relevos e texturas, ao passo que uma iluminação frontal tende a uniformizar a leitura do revestimento”, pontua o profissional.

Três fatores merecem atenção especial: IRC, temperatura de cor e intensidade luminosa. O IRC determina a fidelidade com que cores, tonalidades e veios são percebidos. Quanto maior o índice, mais próxima tende a ser a reprodução das características cromáticas do material. Como referência geral, Bianco recomenda IRC acima de 90 para projetos que buscam excelente reprodução das cores.

Entre os erros mais recorrentes cometidos estão o uso de temperatura de cor inadequada, baixo Índice de Reprodução de Cor (IRC), excesso de intensidade luminosa e uma distribuição de luz excessivamente uniforme quando a intenção era destacar texturas.

Na Cozinha da Casa, do Estúdio Pantarolli Miranda feito para a CASACOR Paraná 2026, a luz natural incide lateralmente através das janelas de vidro canelado, gerando um efeito de luz e sombra que destaca a superfície curva da Série Ombré aplicada no backsplash | Foto: Nenad Radovanovic

A temperatura de cor, por sua vez, altera a maneira como os tons são percebidos e a linguagem do ambiente. Luzes mais quentes tendem a valorizar madeiras, tons terrosos e mármores de aparência mais quente, enquanto temperaturas próximas de 4000 K favorecem uma leitura cromática mais neutra. Já temperaturas frias podem reforçar uma linguagem tecnológica ou corporativa.

“A iluminação é capaz de transmitir sensações aos espaços como sofisticação, aconchego, calor, limpeza. Uma luz mais quente ou mais fria pode mudar completamente a forma como percebemos o espaço”, afirma o arquiteto.

A intensidade luminosa completa esse conjunto e define o protagonismo que o revestimento terá no ambiente. Em projetos residenciais, salas e quartos costumam trabalhar com temperaturas entre 2700 K e 3000 K, já cozinhas e banheiros geralmente utilizam entre 3000 K e 4000 K. A intensidade, contudo, deve ser definida de acordo com as atividades realizadas em cada cômodo e combinada com diferentes camadas de iluminação.

O tamanho do revestimento interfere?

Em porcelanatos com acabamento Micro Relevo, uma iluminação rasante pode evidenciar as variações da superfície e reforçar a percepção de profundidade. Em grandes formatos, perfis lineares bem posicionados ajudam a iluminar os planos de maneira mais uniforme. É o caso do projeto assinado pela arquiteta Izilda Moraes, na Campinas Decor 2026, que utiliza a Série Navona, com acabamento Micro Relevo e formato 120 x 120 cm, aplicada em todo o piso do ambiente | Foto: fredfproducoes

A dimensão das peças também deve entrar na estratégia luminotécnica. Revestimentos de formatos menores apresentam uma leitura marcada pelas juntas e pela modulação da paginação. Já os SuperFormatos, como as peças de 120 x 250 cm, formam grandes planos contínuos, nos quais a iluminação pode ressaltar a extensão dos veios e das texturas.

“Peças menores possuem um ritmo marcado pelas juntas e pedem uma distribuição luminosa capaz de preservar essa modulação sem resultar em contrastes excessivos. Já os SuperFormatos, com seus amplos planos, respondem de maneira diferente à iluminação e permitem destacar a continuidade dos veios e das texturas”, explica Carlos.

Quanto maior a superfície, maior a atenção necessária à uniformidade da luz. Manchas, sombras e contrastes indesejados podem comprometer a leitura de um grande plano. Ao mesmo tempo, uma distribuição bem resolvida ajuda a preservar a continuidade visual do revestimento.

Iluminação vertical: como valorizar o revestimento nas paredes

O posicionamento também deve considerar a paginação. Uma luminária instalada sem relação com as juntas e os limites das peças pode lançar sombras em pontos indesejados ou destacar irregularidades que poderiam passar despercebidas em outra configuração.

Na Lavanderia do arquiteto Givago Ferentz para a CASACOR Paraná 2026, o profissional utilizou diferentes revestimentos para revestir as paredes | Fotos: Fernando Zequinão

Nas paredes, a iluminação pode assumir uma função ainda mais expressiva ao destacar volumes, texturas e relevos. Arandelas, perfis lineares, sancas e soluções de luz indireta são alguns dos recursos indicados para esse tipo de aplicação. Em superfícies com alto poder de reflexão, o cuidado com o ângulo de incidência evita reflexos que prejudiquem a leitura do material.

Aspectos técnicos que o profissional precisa observar

O projeto luminotécnico realça a granulometria de um revestimento inspirado nos terrazzos italianos. Assinada pelas arquitetas Bianca Gemin e Rafaela Romitelli, a Adega Degustação, apresentada durante a CASACOR Paraná 2026, traz o revestimento no pequeno formato de 7,7 x 30,5 cm | Fotos: Felipe Cuine

Ao especificar a iluminação de um ambiente com porcelanato, o profissional orienta a análise sobre o uso do espaço, a quantidade de luz natural disponível, o pé-direito, o acabamento e o formato do revestimento. A partir dessas informações, entram em cena a temperatura de cor, o IRC, a intensidade luminosa, a distribuição dos pontos e o ângulo de abertura das luminárias.

De acordo com o especialista, o tipo de porcelanato também orienta as decisões. Reproduções de mármore podem se beneficiar de uma iluminação que ressalte a continuidade dos veios; materiais inspirados em superfícies cimentícias ou pedras naturais podem ganhar definição em suas nuances minerais e os amadeirados têm seus tons e desenhos valorizados por temperaturas mais quentes.

A iluminação e o recorte feito em um revestimento transforma o porcelanato em um elemento escultórico e protagonista de um banheiro | Fotos: panobiancofotografia

No caso dos projetos comerciais, a especificação deve ainda considerar o posicionamento de cada linha que integra o portfólio e a experiência desejada para cada estabelecimento. Um showroom, uma joalheria, uma clínica, um restaurante ou um supermercado apresentam necessidades distintas, tanto em relação à intensidade quanto à temperatura de cor e à reprodução cromática.

A principal recomendação, portanto, é não deixar a iluminação para a última etapa. Quando o projeto luminotécnico acompanha a escolha dos revestimentos desde o início, é possível coordenar paginação, arquitetura, mobiliário e pontos de luz, aproveitando melhor as características de cada superfície. “O projeto luminotécnico não deve ser entendido como um complemento”, afirma Carlos.

C

Por Carlos Bianco

Arquiteto, responsável pelo showroom da Roca Cerámica

Artigo de opinião

👁️ 29 visualizações
🐦 Twitter 📘 Facebook 💼 LinkedIn
compartilhamentos

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar