A União Soviética de Sapatênis: O delírio autoritário dos novos gurus do “Estado Mínimo”

Existe uma nova febre no mercado das ilusões políticas brasileiras. É o surgimento de uma casta de salvadores da pátria que veste sapatênis, usa jargões do Vale do Silício, jura amor eterno ao livre mercado, mas que, no fundo, nutre um fetiche inconfessável pelo planejamento central soviético.

O roteiro de vendas é sempre empacotado em PDFs suntuosos e palestras com luzes de LED. A promessa da vez? Resolver problemas continentais de segurança e urbanismo com a mesma facilidade com que se vende um curso de mindset. O plano envolve varrer a criminalidade do mapa na base da canetada mágica e “desfavelar” metrópoles inteiras em uma década. Tudo isso, claro, bradando a bandeira da liberdade e do capitalismo.

O único problema desse roteiro é que ele reprova na matemática básica, na geografia de ensino fundamental e, principalmente, na própria essência do sistema capitalista que eles dizem defender.

Vamos ao choque de realidade. A promessa de higienizar o caos urbano importando soluções de microestados – lugares que têm o tamanho aproximado do estado de Sergipe – para um país de proporções continentais não é apenas ingenuidade; é má-fé estatística. Mas o verdadeiro truque de ilusionismo está na engenharia social proposta.

Como, exatamente, se removem milhões de pessoas de seus locais de moradia, varrendo comunidades inteiras do mapa para criar “novos horizontes urbanos”? A resposta que não vai para o telão das apresentações é amarga: isso exige um Estado leviatã.

Para decidir quem mora onde, expropriar terras em massa, ditar para onde os filhos dessas pessoas irão no futuro e policiar cada esquina com punhos de ferro, você não precisa de um Estado mínimo. Você precisa de um aparato estatal totalitário, gigantesco e controlador. É a planificação central da velha Cortina de Ferro, mas com uma roupagem gourmet e uma paleta de cores moderna.

O paradoxo é gritante. O capitalismo real, das democracias liberais, lida com as falhas e as assimetrias do mercado de forma pragmática. A favela não é uma anomalia do sistema, é o subproduto da hiperconcentração de riqueza e do êxodo urbano. Solucionar isso exige décadas de infraestrutura, saneamento, integração e, veja só, respeito ao direito de ir e vir e à propriedade privada de quem já ergueu seu teto, ainda que de forma precária.

Mas o guru da prancheta mágica não tem tempo para a realidade. Ele quer a solução estética.

E é aí que a máscara da “liberdade” cai. Porque o modelo de sociedade que exige militarização total para funcionar não admite o livre comércio irrestrito, não tolera a livre expressão que questione o “grande plano” e definitivamente não respeita o direito de ir e livremente. Quando o projeto de poder exige que a vida de milhões seja milimetricamente gerida de cima para baixo para que a maquete fique bonita, o nome disso não é capitalismo. É autoritarismo de palanque.

No fim do dia, a utopia vendida por essa nova liderança não passa de uma contradição ambulante. Eles exigem a eficiência da iniciativa privada, mas sonham com o controle social de um ditador do século XX. O que eles querem não é libertar o indivíduo; é apenas trocar quem segura a coleira, desde que a coleira seja assinada por um coach.

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