Marina Jerusalinsky resgata a história das mulheres silenciadas em novo livro

Em Guia de conduta para mulheres bravas, a autora investiga o “Juízo das Bravas” e mostra como mecanismos de controle sobre a fala feminina ainda persistem

A pesquisadora, artista visual e escritora Marina Jerusalinsky é semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria Divulgação Científica (Eixo Prêmios Especiais) com Guia de conduta para mulheres bravas (editora orlando, 159 págs.). Na obra, a autora mergulha na história do “Juízo das Bravas”, julgamento que, entre os séculos XIV e XVIII, punia mulheres por falarem de forma considerada “inapropriada” em espaços públicos, e discute como esses mecanismos de controle da fala e do comportamento feminino permanecem presentes na sociedade contemporânea.

A autora também integra a programação da Flip 2026 com duas mesas e uma sessão de autógrafos na Casa Opera, no Centro Histórico de Paraty. Na quinta-feira (23), às 11h, Marina participa da mesa “O corpo e o planeta como campo de batalha: violência contra mulheres, luto pela terra e libertação”, ao lado de Sandra Godinho e Myriam Scotti. No sábado (25), às 16h, realiza sessão de autógrafos de Guia de conduta para mulheres bravas e, às 17h, integra a mesa “A escrita como ato político”, com Danilo Heitor e Rafael Caneca.

Em Guia de conduta para mulheres bravas (editora orlando, 159 págs.), Marina Jerusalinsky combina pesquisa histórica, relatos de mulheres contemporâneas e um projeto gráfico ousado para expor como mecanismos históricos de controle sobre a fala feminina ecoam até hoje. O texto da quarta capa é assinado pela escritora, artista visual e designer gráfica Marcela Scheid. A arte da capa e as ilustrações do livro são de Marina Jerusalinsky e Lídia Ganhito, designer gráfica e artista visual.

Com 59 irônicas “lições de conduta”, o livro traz experiências reais de mulheres brasileiras e portuguesas, mostrando como expressões misóginas ainda as categorizam. “Essa pesquisa me ajudou a entender as origens das concepções sobre ‘a mulher ideal’ e como enfrentá-las”, diz Marina, que transformou seu doutorado em uma crítica afiada aos estereótipos de gênero. A autora não poupa referências literárias e históricas para desmontar narrativas que buscam limitar o que mulheres podem ser ou fazer. “O livro adota um posicionamento feminista ao resgatar fatos marginalizados e dar voz às próprias mulheres sobre as palavras que as oprimem”, explica.

Entre os exemplos do livro, destaca-se a lição “Brava”, que satiriza a criminalização da fala feminina: “Uma mulher pode ser considerada brava ao levantar a voz, ser veemente, discordar, ou falar com irritação – atos completamente inconvenientes e condenáveis. Todos esses elementos vão contra a obrigatória docilidade feminina, sem a qual seria muito mais difícil que nos dominassem como convém.”

A obra também revela como estereótipos coloniais persistem, especialmente contra as brasileiras em Portugal. Em “Para Brasileiras em Portugal”, ela expõe frases ditas por portugueses, como “Vocês vêm para cá para roubar nossos maridos” e “Ao menos servem para cuidar de nós”, evidenciando as contradições e a violência dessas acusações. “Essas ‘lições’ mostram como a linguagem perpetua opressões, mas também como podemos desmontá-las com ironia”, reflete a autora.

Sobre a autora

Marina Jerusalinsky é artista visual, pesquisadora e escritora. Semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria Divulgação Científica (Eixo Prêmios Especiais), é doutora em Artes pela Universidade de São Paulo, mestra em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalha com a palavra de modo transdisciplinar há mais de dez anos, em projetos de arte participativa, livros de artista e leitura crítica e revisão de textos. Também é autora do livro Adjetivo Feminino: Dicionário de Experiências (Bebel Books, 2022).

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Por Marina Jerusalinsky

artista visual, pesquisadora e escritora; doutora em Artes pela Universidade de São Paulo; mestra em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro; graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Artigo de opinião

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