Ilusão coletiva: como algoritmos e massas digitais mudaram a liderança no século XXI
Em novo livro, Marcio Garrit investiga como pertencimento, crenças e plataformas digitais passaram a reorganizar a formação das massas e a influência coletiva.
O que mudou nas massas desde que Freud publicou “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, em 1921? Essa é a pergunta que atravessa “Ilusão Coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo”, novo livro do psicanalista, professor e pesquisador Marcio Garrit, publicado pela Editora Pangeia.
Partindo da tradição psicanalítica e dialogando com autores como Sigmund Freud e Étienne de La Boétie, Garrit investiga como as transformações tecnológicas do século XXI modificaram profundamente as formas de liderança, pertencimento e influência coletiva. Em vez de tratar apenas de política ou redes sociais, o livro procura compreender como algoritmos, plataformas digitais e novas tecnologias passaram a participar da organização das crenças, das identificações e dos vínculos sociais.
A obra propõe o conceito de “ilusão coletiva” para pensar um fenômeno que vai além da simples circulação de desinformação. Segundo o autor, determinadas crenças se fortalecem porque respondem a necessidades psíquicas profundas, como o desamparo, a busca por pertencimento, proteção e reconhecimento. Nesse contexto, fatos e argumentos nem sempre são suficientes para modificar convicções que passaram a exercer uma função emocional importante para o sujeito.
“O problema talvez não seja uma crise da verdade. A verdade nunca foi o principal motor das massas. As pessoas não se organizam apenas em torno de fatos, mas daquilo que lhes oferece pertencimento, esperança e sentido”, afirma Garrit.
Ao longo do livro, o autor defende que os mecanismos descritos por Freud permanecem atuais, mas agora operam em uma realidade radicalmente diferente daquela do início do século XX. Se antes os líderes dependiam de partidos, igrejas, jornais ou grandes eventos públicos para mobilizar multidões, hoje eles alcançam milhões de pessoas continuamente por meio das redes sociais e das plataformas digitais.
“O líder saiu do palanque e entrou no celular. Essa talvez seja uma das maiores transformações da vida contemporânea”, resume o autor.
Mais do que discutir tecnologia, “Ilusão Coletiva” procura compreender seus efeitos sobre o funcionamento psíquico, os processos de identificação e a formação das massas digitais. A obra convida o leitor a refletir sobre como algoritmos, inteligência artificial, influenciadores e novas formas de liderança estão transformando a maneira como pensamos, nos relacionamos e construímos nossa visão de mundo.
Sem abandonar os fundamentos da psicanálise, Marcio Garrit propõe uma atualização do debate para os desafios do século XXI, aproximando conceitos clássicos de fenômenos contemporâneos que atravessam a cultura, a política e a vida cotidiana.
Por Marcio Garrit
Psicanalista, professor e pesquisador. Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela UVA/RJ. Professor do CEFAS (Campinas/SP), membro da Sociedade de Psicanalise Iracy Doyle (SPID/RJ) e criador do projeto Psi(em)CENA.
Artigo de opinião



