A volta dos Estados: os países querem recuperar o poder que entregaram

Durante anos, o mundo comprou uma ideia bonita, moderna e profundamente ingênua: a de que os Estados nacionais estavam ficando velhos demais para mandar no jogo.

Quem mandaria agora seriam os mercados, as plataformas, os fundos, as big techs, os bilionários, os algoritmos, as cadeias globais de produção e essa entidade mística chamada “inovação”. O Estado ficaria ali, meio síndico de condomínio: regula um pouco, cobra imposto, faz discurso, corta fita e tenta não atrapalhar.

Deu ruim.

A guerra voltou a mostrar que soberania não é PowerPoint. Pandemia, crise energética, guerra na Ucrânia, tensão no Oriente Médio, disputa por chips, inteligência artificial, redes sociais e dependência militar escancararam uma verdade simples: país que não controla infraestrutura crítica não manda totalmente em si mesmo. Pode ter bandeira, hino e palácio. Mas, na hora do aperto, descobre que depende da peça, do software, do satélite, da nuvem, do chip, do míssil, da plataforma e da boa vontade dos outros.

O caso da OTAN é um símbolo perfeito dessa virada. No encontro de Haia, em 2025, os países da aliança assumiram o compromisso de investir 5% do PIB em defesa até 2035. Desse total, 3,5% devem ir para defesa central, como tropas, armas, equipamentos e capacidades militares; outros 1,5% podem ser aplicados em áreas ligadas à segurança, como infraestrutura crítica, redes, inovação, resiliência civil e base industrial de defesa.

O barulho político em torno de Donald Trump foi a parte mais visível da história. Ele pressionou, cobrou, ameaçou, comemorou. Mas reduzir tudo a Trump é perder o ponto principal. O que aconteceu ali foi maior: os países europeus perceberam que não basta ser rico, democrático e bem-intencionado. Se você não consegue se defender, fabricar munição, manter indústria estratégica e decidir sozinho quando pode agir, você é rico, democrático, bem-intencionado — e dependente.

Não por acaso, Reino Unido, França, Alemanha e outros países europeus passaram a articular um pacote de mais de US$ 50 bilhões em dez anos para desenvolver armas de precisão de longo alcance, com capacidade de atingir alvos a centenas ou milhares de quilômetros, e sem envolvimento direto dos Estados Unidos.

Essa última parte é a mais importante: sem envolvimento direto dos Estados Unidos.

Porque a nova palavra mágica não é apenas “defesa”. É autonomia.

Durante décadas, muita gente tratou gasto militar europeu como luxo, exagero ou submissão aos americanos. Agora, a conversa mudou. Não é só comprar arma. É reconstruir capacidade. É ter fábrica. É ter estoque. É ter tecnologia. É ter engenharia. É ter gente que sabe fazer. É ter cadeia produtiva. É não descobrir, no meio de uma crise, que até o parafuso depende de alguém que talvez não queira vender.

E aí entra uma comparação incômoda.

A Microsoft anunciou a compra da Activision Blizzard por US$ 68,7 bilhões. Uma única empresa privada gastou mais em uma aquisição ligada a jogos, conteúdo, nuvem, comunidade e ecossistema digital do que esse pacote europeu de mais de US$ 50 bilhões para armas estratégicas de longo alcance.

Claro, não foi “só Game Pass”. Foi Call of Duty, Candy Crush, World of Warcraft, Diablo, estúdios, usuários, propriedade intelectual, distribuição e futuro. Mas justamente por isso a comparação é tão boa. Uma empresa compra, de uma vez, cultura, atenção, comunidade, dados, entretenimento e poder de plataforma. Enquanto isso, países inteiros precisam negociar durante anos para financiar defesa, semicondutores, energia e infraestrutura.

É nesse ponto que a ficha cai: alguns bilionários e corporações não são poderosos apenas porque têm dinheiro. Eles são poderosos porque controlam pedaços essenciais da vida moderna.

Controlam o que vemos, onde compramos, como pagamos, como anunciamos, onde armazenamos dados, quais aplicativos chegam ao público, quais conteúdos circulam, quais empresas aparecem e quais desaparecem no algoritmo. Em alguns casos, controlam até a infraestrutura digital sobre a qual governos, escolas, hospitais, imprensa e empresas operam.

Por isso as multas bilionárias começaram a aparecer. A União Europeia multou a Apple em €500 milhões e a Meta em €200 milhões por violações ao Digital Markets Act, lei criada justamente para limitar o poder das grandes plataformas digitais consideradas “gatekeepers”, ou seja, porteiras de acesso ao mercado digital.

O Google também perdeu, em 2026, uma disputa contra uma multa antitruste de €4,1 bilhões aplicada pela União Europeia no caso Android. A acusação central era abuso de posição dominante, com práticas que favoreciam seus próprios aplicativos e dificultavam concorrentes.

Mas aqui existe outra verdade desagradável: multa, para empresa gigantesca, muitas vezes é só pedágio caro. Dói, irrita, vira notícia, derruba ação por alguns dias. Mas não necessariamente muda a estrutura de poder.

É por isso que os Estados começaram a ir além da multa. Eles querem mexer na arquitetura do jogo.

Os Estados Unidos aprovaram o CHIPS and Science Act, com US$ 52 bilhões para revitalizar a indústria doméstica de semicondutores e reforçar segurança econômica e nacional. A União Europeia criou o European Chips Act com a meta de dobrar sua participação global em semicondutores para 20%, reduzindo dependências externas em um setor que vai de celulares e carros a equipamentos médicos, energia, defesa e inteligência artificial.

A União Europeia também passou a tratar matérias-primas críticas como assunto de soberania. Lítio, terras raras, cobre, níquel e outros materiais deixaram de ser tema técnico de mineração para virar tema estratégico. Sem eles, não há bateria, chip, turbina, carro elétrico, defesa moderna ou transição energética. A meta europeia é reduzir dependências perigosas e ampliar extração, processamento e reciclagem até 2030.

Percebe o desenho?

Defesa, chips, energia, dados, plataformas, minerais, inteligência artificial, nuvem, satélites, cabos submarinos, redes sociais. Tudo isso virou território. Não território no mapa, mas território de poder.

O século XXI está mostrando que soberania não é só fronteira. Soberania é infraestrutura.

Um país pode até ter exército, Constituição e eleição. Mas se seus dados estão em nuvens estrangeiras, seus chips vêm de fora, sua defesa depende de outro governo, sua comunicação passa por plataformas privadas, sua indústria foi desmontada e sua opinião pública é organizada por algoritmos que ninguém audita, a soberania vira uma ficção educada.

Bonita no discurso. Frágil na prática.

Foi isso que os países começaram a entender. Durante décadas, terceirizaram poder em nome da eficiência. Fábricas foram para onde era mais barato. Tecnologia ficou nas mãos das big techs. Defesa ficou sob o guarda-chuva americano. Energia veio de fornecedores instáveis. Dados foram entregues a plataformas. Comunicação pública virou refém de redes sociais. Inovação virou monopólio de quem tinha capital quase infinito.

Agora os governos estão tentando correr atrás.

Não por ideologia. Por sobrevivência.

O erro foi acreditar que mercado globalizado era o mesmo que estabilidade. Não era. Era dependência bem embalada.

Quando tudo funciona, a dependência parece eficiência. Quando a crise chega, a eficiência mostra a fatura.

E a fatura veio alta.

A pandemia mostrou que faltava máscara, remédio, insumo, logística e produção local. A guerra mostrou que faltava munição, drone, míssil, indústria pesada e disposição política. A crise dos chips mostrou que um componente minúsculo pode travar montadoras, hospitais, telecomunicações e defesa. As big techs mostraram que empresas privadas podem ser maiores que reguladores nacionais. A inteligência artificial mostrou que quem controla dados, computação e modelos controla também parte da economia simbólica do futuro.

O Estado acordou tarde, mas acordou.

A pergunta agora é se ainda dá tempo.

Porque reconstruir soberania não é baixar decreto. Não se cria indústria estratégica com post motivacional. Não se forma engenheiro, fábrica, cadeia de fornecedores, laboratório, satélite, data center e capacidade militar em uma coletiva de imprensa.

Leva anos. Custa caro. Dá conflito. Exige planejamento. E, principalmente, exige aceitar que algumas coisas não podem ser avaliadas apenas pelo preço mais barato.

O mais barato pode sair caríssimo quando o fornecedor fecha a porta.

A disputa real do nosso tempo não será entre Estado grande e Estado pequeno. Essa é uma briga velha, quase preguiçosa. A disputa será entre Estados capazes e Estados decorativos.

Estados capazes produzem, regulam, protegem, inovam, negociam e impõem limites. Estados decorativos fazem discurso enquanto dependem de plataformas, bilionários, fornecedores externos e aliados impacientes.

O Brasil deveria olhar para isso com menos torcida e mais vergonha na cara.

Porque aqui ainda se discute soberania muitas vezes como se fosse só bandeira em escola, discurso inflamado ou briga ideológica de rede social. Enquanto isso, o mundo está discutindo chip, defesa, energia, IA, minerais, indústria, dados e infraestrutura crítica.

Soberania de verdade não é gritar “meu país” mais alto. É ter capacidade real de decidir.

E capacidade real se constrói.

O movimento dos países ricos contra big techs, a nova corrida armamentista da OTAN, os planos para semicondutores, a busca por minerais críticos e a tentativa de controlar inteligência artificial fazem parte da mesma história: os Estados querem recuperar o poder que entregaram.

O problema é que quem recebeu esse poder gostou.

E não vai devolver por educação.

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