Como fazer a decoração contar histórias e revelar a identidade da casa

Para Eduardo Baldelomar, objetos, memórias e escolhas intencionais transformam ambientes em narrativas afetivas, culturais e pessoais

Quando decorar também é uma forma de contar histórias: o segredo para elaborar ambientes cheios de personalidade Fotografias, livros, obras de arte e lembranças ganham novos significados quando organizados com intenção. Nos ambientes assinados para a CASACOR SP e Bolívia, o arquiteto Eduardo Baldelomar revela como a decoração transforma um lugar onde cada detalhe tem algo a dizer

Há lugares que impressionam pelo tamanho, outros pelos acabamentos e alguns pelo mobiliário. No entanto, existem aqueles que nos conquistam por algo mais sutil, como perceber fotografias antigas na parede, um violão apoiado na poltrona, livros que revelam paixões ou uma peça trazida de uma viagem especial. Tudo isso, separadamente, poderiam passar despercebidos, mas juntos contam histórias, despertam lembranças e revelam muito mais sobre quem ali habita. É justamente nesse conjunto elementos que a decoração assume uma função, além da estética, de construir significado e a forma como os objetos são escolhidos, agrupados e distribuídos pelos ambientes influencia a forma como o local é percebido.

Para o arquiteto boliviano Eduardo Baldelomar, conhecido por seus projetos que valorizam a memória, a cultura latino-americana e o fazer artesanal, decorar nunca foi sinônimo de preencher espaços. “Quando cada elemento encontra o seu lugar, uma casa deixa de ser apenas bonita e passa a transmitir personalidade de verdade. O objeto não ocupa apenas uma prateleira vazia, mas entra como parte da identidade dos moradores. Por isso, passa a fazer parte da arquitetura”, explica.

Essa maneira de enxergar a decoração ganhou visibilidade no Co-Living Chiquitano, ambiente assinado por Eduardo para a CASACOR São Paulo 2026. Inspirado na riqueza cultural da região de Chiquitos, no leste da Bolívia, o espaço reúne diversos tipos de artes e objetos do cotidiano em uma composição que convida o visitante a percorrer diferentes tramas. Mas em vez de organizar tudo pela cor, pelo material ou pelo estilo, o arquiteto criou uma espécie de percurso cultural, onde cada parede revela um novo capítulo.

Curadoria afetiva

Quem observa um ambiente pronto costuma imaginar que a decoração é a etapa final de um projeto. Para Eduardo, porém, ela começa muito antes da escolha dos quadros, das esculturas ou dos adornos. Antes de definir o que ficará sobre uma estante ou pendurado na parede, ele procura conhecer profundamente quem ou o que vai ocupar aquele espaço. No caso de clientes do escritório, conversas sobre infância, lembranças de família, referências culturais, viagens marcantes, livros preferidos, hábitos cotidianos e até objetos esquecidos em armários ajudam a construir um repertório que servirá de base para toda a composição.

“Como profissional, preciso desenvolver uma intimidade muito especial com quem vai morar naquele ambiente. É importante entender suas preferências, suas origens, aquilo que emociona essa pessoa e os objetos que marcaram sua vida. Só depois disso consigo definir quais peças realmente fazem sentido dentro do projeto”, argumenta.

Essa investigação também fez parte do ambiente apresentado na CASACOR São Paulo 2026: o projeto não se limita à reprodução de elementos tradicionais de chiquitos e cada objeto foi escolhido para representar diferentes aspectos como manifestações artísticas, religiosas, gastronômicas e arquitetônicas que fazem parte da memória da região.

Uma casa também pode ser uma galeria de histórias

Em muitos projetos residenciais, os objetos costumam ser distribuídos seguindo critérios de tamanho, formato, material ou cor, mas Eduardo prefere outro caminho. Para ele, a organização acontece por significado. Essa decisão fica evidente no Co-Living Chiquitano, onde o arquiteto organiza os ambientes por temas. Há uma parede dedicada à música, outra à arquitetura, uma sequência que homenageia o artesanato boliviano, outra voltada à culinária e um conjunto de peças que revela o encontro entre a religiosidade católica e as tradições dos povos originários de Chiquitos.

“Na CASACOR São Paulo existe fotografia, cerâmica, elementos têxteis, madeira, pintura, tecidos, objetos domésticos, livros, plantas e luminárias, tudo organizado por narrativas”, revela. A proposta demonstra que materiais completamente diferentes podem dividir o mesmo espaço quando compartilham uma mesma ideia. Assim, uma fotografia pode dialogar com uma escultura; livros aparecerem ao lado de instrumentos musicais e objetos produzidos artesanalmente ganham novo significado se apresentados em conjunto.

Dentro de casa, o arquiteto boliviano acredita que essa lógica também pode ser aplicada de maneira simples. Em vez de espalhar lembranças aleatoriamente pelos cômodos, vale reunir os objetos que conversem sobre um mesmo assunto. “Uma coleção de discos pode ser acompanhada por capas emolduradas, instrumentos musicais ou pequenas obras de arte relacionadas ao tema, por exemplo. Aos poucos, a decoração vai revelando os interesses, as lembranças e a trajetória de quem vive naquele lugar”, resume Eduardo.

A composição precisa ter ritmo

Ao observar uma estante bem organizada ou uma parede repleta de objetos, muitos podem imaginar que o resultado depende apenas de bom gosto. Entretanto, para Eduardo Baldelomar existe um exercício de composição por trás dessa aparente espontaneidade. Ele compara a organização dos objetos à construção de uma música.

“A composição precisa ter ritmo e harmonia. Tal qual uma composição musical, os objetos precisam ser distribuídos de forma equilibrada, enquanto cores, texturas e materiais entregam uma sequência visual. Eu não tenho medo do excesso quando tudo faz parte da mesma narrativa”, elucida.

Essa alternância cria uma leitura confortável do espaço, assim como uma música intercala momentos de intensidade e pausas, bem como uma decoração também ganha equilíbrio quando nem todas as superfícies disputam atenção ao mesmo tempo. Para quem deseja aplicar esse conceito em casa, vale observar a estante, o aparador ou até a bancada da sala antes de adicionar novos objetos. Em muitos casos, reorganizar aquilo que já existe produz um resultado ainda mais interessante do que comprar novas peças.

Quando a decoração preserva a memória

Se no Co-Living Chiquitano Eduardo Baldelomar utiliza a decoração para revelar a riqueza cultural dos povos de Chiquitos, outro projeto assinado por ele mostra como esse mesmo olhar também pode contar histórias profundamente pessoais. Na CASACOR Bolívia, o arquiteto criou um pequeno escritório que homenageia a trajetória de seu pai. O ambiente reúne fotos da família, uma antiga máquina de escrever, livros, documentos e objetos que acompanharam uma vida inteira de trabalho e dedicação. Cada peça foi escolhida não pelo valor material, mas pela capacidade de preservar lembranças.

“Meu pai sempre foi meu maior exemplo de superação. Ficou órfão ainda criança, cresceu trabalhando em uma fazenda distante da cidade e, mesmo sem ter tido oportunidade de frequentar a escola, decidiu mudar sua própria história. Foi estudar, entrou na universidade, formou nossa família e nos proporcionou um futuro melhor. Cresci vendo meu pai estudar e trabalhar todos os dias”, recorda-se.

Ao inserir esses elementos no projeto, Eduardo transforma um espaço expositivo em um ambiente carregado de afeto. O visitante talvez não conheça aquela família, mas consegue compreender que existe uma história por trás de cada fotografia, de cada livro e de cada objeto preservado.

Quando a decoração acompanha a vida

Para Eduardo, uma residência nunca está completamente pronta. Assim como a vida muda, a decoração também acompanha novas fases, viagens, conquistas e lembranças que passam a ocupar espaço dentro dos ambientes.

“Pode ser um livro recebido de presente, uma obra adquirida de um artista local ou a cerâmica comprada durante uma viagem. Aos poucos, a casa passa a registrar o tempo vivido por seus moradores, incorporando novas camadas de significado”, diz.

Essa é uma das razões pelas quais o arquiteto evita reproduzir cenários montados apenas para seguir tendências. Quando tudo é escolhido de uma só vez, existe o risco de o ambiente parecer bonito, mas não necessariamente verdadeiro, já quando os objetos chegam naturalmente ao longo dos anos, a decoração ganha autenticidade e reflete a trajetória.

Em projetos pensados para atravessar os anos, a decoração permanece aberta a novas descobertas. Cada peça incorporada ao ambiente amplia sua leitura e reforça a relação entre arquitetura, memória e cotidiano.

“A decoração faz total diferença para dar vida a um projeto, mas também pode despersonalizá-lo completamente. Por isso é tão importante conhecer profundamente quem vai habitar aquele espaço. Cada objeto precisa fazer sentido, contar uma história e permitir que as pessoas se sintam acolhidas dentro da própria casa”, finaliza.

O mesmo princípio pode ser levado para qualquer residência, independentemente do tamanho ou do orçamento. Antes de adquirir novos adornos, vale olhar com atenção para aquilo que já faz parte da própria história, pois muitas vezes, os objetos que melhor representam um morador estão guardados em uma estante, dentro de um armário ou esquecidos em uma caixa de lembranças, esperando apenas uma nova forma de serem apresentados.

Sobre Eduardo Baldelomar

Natural da Bolívia, o arquiteto e designer de interiores busca contar sua história através de seus projetos. Com 19 anos de experiência em sua terra natal, hoje o profissional busca firmar sua presença no Brasil e valorizar o intercâmbio da cultura da América Latina. Veterano na CASACOR Bolívia, onde já participou em 12 edições, atualmente vai para sua terceira participação na CASACOR São Paulo (2023,2024 e 2026). Especializado em Desenho de Interiores e paisagismo no EDAE (Madrid, Espanha), também se especializou em móveis modulares planejados em Buenos Aires (Jhonson & Acero) e Rosário (Reno Amoblamientos), na Argentina. Foi professor de design ambiental e design cenográfico no Curso Integral de Design da Universidade Autónoma Gabriel René Moreno (UAGRM), instituição onde também se graduou. Hoje, se dedica ao seu próprio escritório, com sede dupla em Santa Cruz de la Sierra, Bolivia, desde 2013, e na capital paulista desde 2023.

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Por Eduardo Baldelomar

Arquiteto e designer de interiores, 19 anos de experiência, veterano na CASACOR Bolívia, participante da CASACOR São Paulo, especializado em Desenho de Interiores

Artigo de opinião

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